Escrevo isso enquanto espero ônibus num terminal de BRT

Cidade Jardim, um título que BH infectada pelo rosa dos ipes honra muito. Basta um passeio pela cidade, principalmente pela área centro-sul para perceber o quão bonitas são as cores que a cidade produz no inverno seco. Um contraste bem legal é produzido ao se observar a quantidade de lixo no chão da cidade e as copas das árvores. Ainda não entendo bem o porquê das pessoas sujarem tanto a cidade, e entendo menos ainda a mentalidade do “é pra dar emprego pro gari”, mas sigo minha vida questionando essas babaquices cotidianas.

Mas quem sou eu pra quem questionar essas coisas? Logo eu, que estou mentindo até no título desse texto (eu não estou em um terminal escrevendo, estou na minha cama revivendo e criando idéias como se eu estivesse na dita situação). Todo escritor é mentiroso acho que isso é um consenso ou uma idéia bem difundida já. Assim como o próprio título de escritor é uma mentira. Essa balela toda de passar horas a fio escrevendo e blablabla entendo que é o que uns fazem, mas poxa, tem muita gente que escreve pelo celular nos mensageiros em um dia muito mais que um escritor medio em um ano.

Mentiras. Ah, é disso que é feito a vida segundo alguns filósofos aí né, lembro de ter lido sobre isso em algum lugar. Ou em algum livro. Ou em algum manual. Ou ter escutado em alguma aula. Ou ter escutado alguém dizer que um filósofo disse. Se a vida é feita de mentiras então toda afirmação é questionável. Todo título sugerido é uma questão de achismo.

Seria então a nobreza uma invenção? E as honras aonde ficam? Que absurdo falar assim descaradamente. “Quem sou eu se não o que dizem que sou?”, se tudo é mentira não é nada. Mas e se isso também for falso será que algo é verdadeiro? E é por isso que não conseguem ensinar filosofia a quem não quer aprender eu acho. Já pensaram em ensinar economia básica? Meus amigos sempre se surpreendem quando os explico o que é inflação, como funciona o controle monetário, e em linhas gerais o que é micro e macroeconômica. E eu sempre digo que são conhecimentos dos mais elementares para se entender o sistema de mundo em que vivemos. E é normalmente nesses momentos que me cai a super ficha de que nem todos estão preparados para metade das aptidões que a vida adulta cobra. Nem mesmo na dita elite intelectual.

Normalmente tudo que vemos jogados no chão, principalmente dos centros dos centros urbanos é tudo como o mais sujo e imundo lixo. Meu conhecimento tá ali, junto das pessoas que não tiveram condições ou meios de entender como o sistema funciona e hoje pedem pelo amor de uma entidade suprema ajuda para continuar existindo.

a profissão mais velha do mundo não é a de puta não, mas a de pedinte

E é esse o pior lixo que o não entendimento do que é ou não mentira cria. Eu vivo com uma pessoa que costumeiramente não sabe o que é realidade e o que é ficção da cabeça dela. Por forças da biologia e suas leis das ervilhas eu também as vezes caio nessa grande pegadinha do Silvio Santos mental. Então por empatia, ou por um sentimento de superioridade (que me faz achar que sou empático por poder “racionalizar” como é a situação de outro) eu sei como é não saber se o que vejo é real ou não. E sempre me ocorre o mesmo pensamento: “será que quem vive embaixo enxerga quem está acima de cabeça para baixo?”(tipo as cartas de baralho).

Em meus passeios costureiros pelo centro da cidade vejo que as pessoas “de baixo” costumam ter as suas próprias crenças e sistemas filosóficos independentes da elite. Têm mesmo sua própria forma de interpretar o mundo, e uma economia e políticas próprias dentro dos seus nichos. Não que eu me importe com isso, seria um escritor mentiroso se dissesse que ligo. Só acho interessante perceber o mundo com esses outros olhos. Ou estimar pelas palavras mentirosas o que esses olhos percebem. Alguns olhos assim vêem as flores e folhas coloridas apenas quando estão no chão e já são lixo deixando a cidade imunda, e não vêem que é a falta de empatia que deixou o chão sujo em primeiro lugar.

Matheus, de Almeida?

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Não faço ideia do que to escrevendo. Você tem alguma noção?

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