O grande barato da vida

Quando uma pessoa ganha na loteria, ela sabe que o fato dela ter ganho foi uma probabilidade enormemente pequena, mas mesmo sendo pequena, esta probabilidade fatalmente iria contemplar alguém. A boa nova é que você ganhou na loteria simplesmente por estar lendo isso aqui, afinal as chances de que você leia este texto são mínimas.

Para isso utilizarei um recurso narrativo que os escritores de histórias infantis usam para expressar suas ideias. Pode parecer ridículo, mas me deu vontade de escrever assim.

Tenho uma máquina do tempo, e com ela viajarei para “antes do big bang” (claro que isso não existe, apenas existirá pois tenho uma licença poética) e lá encontro o maior estatístico, guru e profeta da história do universo e faço a pergunta:

-Qual a chance do meu interlocutor ler o presente artigo 13 600 000 000 anos no futuro?

-Responderei didaticamente — diz o estatístico — pois você, na sua finita inteligência não entenderia meus cálculos. Imagine que no futuro o universo começará e com ele, as leis da física. A primeira coisa é que as leis da física sejam tais que permitam a existência de um planeta habitável.

-Mas como assim? — digo eu.

-Oras, imagine que talvez as leis da física nesse universo que talvez um dia surgirá sejam tais que o universo se expanda tal que toda a matéria se disperse ou que a matéria fique tão densa que o universo não aconteça, isto apenas resumindo apenas superficialmente, pois você é um estúpido e não entenderia se eu explicasse tudo.

-Mas as leis da física não são as mesmas em qualquer universo?

-Porém eu não conheço quais serão as leis da física, lembra? Oras, o universo ainda não existe! Eu tenho que presumir que elas podem ser quaisquer umas. Depois que o universo tiver nascido e presumindo que as leis da física não destruam o universo, temos que calcular a chance de que o teu sistema solar venha a existir. Este é o resultado de outros sistemas estrelares explodidos, as supernovas, porém se eu tentasse explicar como eu calcularei isso, eu poderia lhe escrever um livro, então posso também te afirmar que será imensamente pequena a chance do seu Sol, com tal massa e que esteja numa área de uma galáxia pacata que permita vida.

-E a Terra, professor, qual a chance dela surgir e ter as chances de abrigar vida?

-Seriam também pequenas, a final ela teria que enquanto surge tomar a gravidade em uma região que não seja quente nem fria de mais. Além disso ela deveria ser formada de material que permitiria a vida, em especial Hidrogênio, Oxigênio, Nitrogênio e Carbono, e lembrando que também dependemos de muita sorte que tenhamos tais materiais providos de fusão nuclear em supernovas.

-Mas então qual a chance de que a vida surja e o nosso interlocutor possa ler o texto?

-Agora que vem as maiores improbabilidades Além do nosso interlocutor depender que a vida surja, que já é algo muito improvável, ele vai ter que depender de inúmeras catástrofes geológicas e mutações que moldem a seleção natural de tal maneira que após mais de 2 bilhões de anos de seleção surja uma especie com o ser humano.

-Mas então ela vai nascer?

-O nosso interlocutor só é quem ele é por duas razões: a sociedade onde nasceu e o código genético que obteve. Se no momento da fecundação, por alguma razão, coisas aconteçam errado (coisas estas que são aleatórias) então surgirá um descendente diferente. Só a chance do nosso interlocutor ter existido diante de tantas as possibilidades que o pai e a mãe dele permitiam já é uma grande vitória para ele, mas se fosse isso as chances ainda seriam “grandes”. Mas agora imagine mais de 2 bilhões de anos de fecundações que permitiram que tal descendente, o nosso interlocutor, nascesse? Mas não bastando isso, um ser humano exatamente igual ao nosso interlocutor poderia ter nascido em uma família diferente ou ainda em uma sociedade diferente. E tal sociedade que o interlocutor estará incluído foi o resultado da decisão de bilhões de seres humanos e outros animais.

-Mas então, mestre estatístico, qual a chance do interlocutor ler isso no futuro?

-Após algumas revisões, eu diria que a chance dele seria tão pequena que você deveria a considerar como sendo o próprio 0. Ele depende de tantas coisas, que são aleatórias simplesmente para que ele nasça e chegue o texto até ele: você tem que publicar, ele tem que ter algum tipo de conexão com você, ele tem que sentir a vontade de ler. Enfim, eu descartaria, ninguém vai ler esse texto que você escreve.

Após esta pequena dramatização, o que eu quero dizer é que a vida não tem um sentido em si mesma. Olha quão improvável é simplesmente o fato você existir.

É ridículo acreditar que ela tenha um sentido, assim como o ganhador da loteria não acredita que existe sentido nele ter sido quem ganhou na loteria. E é esse o grande barato da vida. Você ganhou numa loteria e o que ganhadores de loteria fazem? Aproveitam seus prêmios e atribuem funções e significados a eles. Eles sabem que o dinheiro é finito e que uma hora ou outra esse dinheiro vai acabar, como por exemplo, acontece no filme Até que a sorte nos separe (2012). O fato que visto em retrospecto, a sua, a minha, a nossa existência é uma mera causalidade, e não há nada de divino nisto.

Muitas pessoas não sabem como lidar com a insignificância, porém é isto que é. Você teve 100% de chance de não ter lido esse texto, e mesmo assim leu. Pois então gaste bem seu prêmio, pois você tem 0% de chances de ter um segundo prêmio novamente. Abaixo deixo a inspiração para este post.

Originally published at matheuspopst.blogspot.com.br.

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