O menino que pede esmola e a maldade do mundo

Eram quase 9 horas da noite, chego ao hall de entrada do prédio onde vivo. Moro no terceiro andar, o último, e sigo pelas escadas. É curioso como são as pessoas que moram no último andar dos prédios que tem escadas. Você ao chegar no hall desliga seu cérebro e deixa que as pernas caminhem sozinhas, alguns instantes depois, você chega em casa. Será mesmo? bem, não existem mais escadas e ali está o número 31, devo ter subido as escadas até em casa mesmo. Obrigado pernas.

O condomínio onde moro faz parte de um programa estatal de moradia popular, portanto existem muitas pessoas de baixa renda aqui. Não, não são todos pobres como você deve imaginar, mas a casa própria nesta cidade não é coisa que se consiga com pouco dinheiro. Contudo, imagino que devam existir pobres como você deve imaginar. Passo pouco tempo aqui, às vezes moro em outros lugares, às vezes moro aqui.

Ao ver o terceiro andar surgir conforme vencia os últimos degraus, vi que havia um garoto conversando com a pessoa do apartamento da frente. Deve ser filho dos vizinhos chegando do dia de brincadeiras, não conheço os vizinhos. O garoto, pardo, usava chinelos, bermudas, tinha a cabeça raspada, mas ainda com cabelo. Deveria ter uns 6 anos de idade. Cumprimentei ele com um aceno de cabeça e logo fui abrir a porta do apartamento onde às vezes moro.

A porta do apartamento da frente fechou, o garoto ficou para fora. Esquisito.

O garoto se dirigiu até a porta de casa, eu já ia fechando. Moço, boa noite. tem algo que eu possa fazer pra ti e que eu possa ganhar uns trocados? posso levar o lixo para fora, posso limpar algo. Não tenho nada. Nem tem umas moedas pra me dar? Abri a carteira, fui no zíper das moedas, tirei uma moeda de 1 real e outra de 25 centavos. Entreguei-lhe as moedas. Agradeceu, pediu que Deus me abençoasse e apertou a campainha dos vizinhos de andar que restavam. Entrei.

Um garoto pedindo para jogar o lixo e toda a maldade do mundo.

Lembrei-me, como de costume, de Ana, a personagem de Clarice que vê um cego mascando chicletes e percebe toda a maldade do mundo. Como pode um cego mascando chicletes? Como pode um menino pedindo para jogar o lixo por dinheiro?

Tenho uma teoria que as pessoas nunca dão esmolas por altruísmo, elas dão esmola por egoísmo. Explico. O sinal fecha e você, no seu carro é abordado por uma pessoa que sob o forte sol brasileiro está pedindo uma esmola. Que inesperada lembrança, enquanto ando de carro a maldade do mundo ainda está lá. As pessoas dão esmolas para si.

Existem aqueles que inventam histórias. É pingaiada! É drogado! É vagabundo! Existem aqueles que dão comida para testar o pedinte. E existem aqueles que simplesmente dão algumas moedas. É o preço para se esquecer da miséria.

Quase que essa crônica não foi sobre o menino, pois ele não é o primeiro, nem será o último cego mascando clicletes que encontro. Aliás, esta crônica poderia ser sobre o surdo pedinte que encontrei outro dia no ônibus que para não se humilhar totalmente, vendia um pequeno papel onde estava o alfabeto em LIBRAS. Lhe dei 2 reais e aqueles dois reais já não bastaram para que eu esquecesse da maldade do mundo. Foi há meses e ainda me lembro.

Um real e vinte e cinco centavos para se esquecer da maldade do mundo.

Sentei-me no sofá e pensei que a coisa mais barata que tinha comprado naquele dia foi um chocolate de 2 reais. Para o garoto eu só tinha 1,25. Como posso continuar com minhas fantasias consumistas, comprando coisas que não preciso, se há a miséria no mundo, tão perto de casa?

A porta se abre e chega minha mãe e conto a ela a história. Eu sei quem é, ele gosta de ser prestativo e ganhar uns trocos por isso. Conheço a família dele, ele nem mora aqui, aqui quem mora é o tio dele.

Perfeito, foi um acaso e ele não era a maldade do mundo! Posso continuar a gastar meu dinheiro em Trakinas e Coca-Cola