A pulsão do medo em ser brasileiro inaugurou o vira-lata complexo.

Há dois Brasilis pairando suspensos no ar. O que se abriga entre as altas palmeiras Pindorama e o que se verticaliza Terra de Vera Cruz com vista para toda moral modernizadora do ocidente. Pindorama é um não-lugar, o contraditório heterogêneo em constante transformação. Vera Cruz é a garantia absoluta, o $ujeito barrado de Lacan, o Uno de Hegel que tampona a superfície acidentada.

A pulsão cria o desejo. É a pulsão do medo em vasculhar o contraditório por trás das Palmeiras, que inaugura o desejo Vira-Lata pela cruz e pelo progresso. Entre a pulsão e o medo, está o mito do Monstro Vermelho na modernidade tupiquinim, que como um resíduo do inconsciente do sujeito, se traduz no próprio medo de ser brasileiro. Brasil, pau-brasil, Ibira Piranga, Árvore Vermelha, Brasa, Vermelho Feito Brasa.

No Brasil, a função da ideologia como inversão-alusão e desplante da realidade, parece assumir efeitos para além da alienação no mundo do Capital-Trabalho.

O sujeito no Brasil se aliena de si 1) quando concebe que Pindorama é o lugar de toda gente não se deve ser; índios, quilombolas, caiçaras, ribeirinhos, caboclos, mamelucos, criolos, mulatos e toda essa contraditória mestiçagem que insiste e resiste em dificultar o processo de identificação do sujeito. Não é fácil ser brasileiro nesse Brasil onde se tem de ir e olhar a fundo, refazemdo caminhos apagados para só no fim, quem sabe, descobrir quem se é. 2) O sujeito no Brasil se aliena das suas próprias experiências, se identificando sempre pela negação do que não se pretende ser. Diziam os Vira-latas no Império que o Brasil se tornaria Haiti caso os escravos se emancipassem. Diziam os vira-latas nas ditaduras que o Brasil se tornaria Cuba caso a esquerda subisse ao poder. Dizem ainda os Vira-latas que o Brasil se tornará Venezuela. As experiencias abaixo da Linha do Equador ou se definem pela negação aos vizinhos ou pela importação do progresso que vem de além do mar. 3) O sujeito no Brasil se aliena das formas estéticas no trópico. O olhar para fora turva o olhar para as formas e cores que guardam o poder de dizer quem somos. A tropicalidade estética no Brasil assumiu a forma do fetiche de mercadoria, onde se vende uma tropicalidade cafona e sem história, inviabilizando nossa conexão com as formas, sombras, cores, festejos que unem sagrado e profano. A mercantilização transforma ainda a paisagem estética dos biomas: no cerrado o eucalipto suga rios e os lageados retirando pescadores das paisagens, as florestas se transformam em monocultura,os quilombos e aldeias se cristianizam.

O vira-lata é complexo no mesmo nível da complexidade que é ser brasileiro. A revolução social no Brasil ou será ancestral ou não será. Em tempo, devemos ainda dizer; a nossa bandeira pra sempre será vermelha. Feito Brasa.

- Ribeiro