O que há por trás da fetichização da ancestralidade negra no Brasil?

Do contrário do que foi amplamente divulgado nas redes, a diretora da Vogue Brasil Donata Meirelles não pensou um evento de aniversário com tema "Brasil Colônia". Afinal, ainda que totalmente descolado da realidade, quem em sã consciência remontaria publicamente um ambiente colonial com a intenção de reviver um momento tão obscuro da história do Brasil? No entanto, ainda assim, a festa de Donata se consolidou como uma unidade de contradição tão forte, que extrapolou a individualidade da questão, para trazer a tona todo racismo e colonialidade ainda presente na sociedade brasileira.

A resposta irrefletida das redes ao acontecido, revelou ainda, nossa incapacidade congênita de lidar com todo aspecto estrutural do racismo. E para entender essa estrutura, é preciso entender os aspectos econômicos e sociais de todo esse processo de apropriação da ancestralidade negra que está em curso no Brasil e que faz de Salvador o seu principal palco.

Você deve ter reparado que de uma hora pra outra Salvador bombou e que o dia 2 de Fevereiro bateu recorde de turistas na cidade durante A Festa de Iemanjá. A cidade recentemente foi tema de novela, tem sido cenário de clipes e destino de viagens de famosos. Você deve ter reparado também que elementos da cultura negra tem influenciado toda estética tropical, como acessórios inspiradas em guias e joias de criola, coleções inspirados no branco, nos cortes e tecidos das indumentárias do candomblé. Mas uma coisa que você não deve ter reparado é que esse processo não tem sido nada espontâneo ou natural.

O que você não sabe é que há uma "elite estética" composta por grandes agências de publicidade, stylists, designers e gerenciadores de carreira de grandes artistas, que estavam em peso na festa de Donata e que estão orientando esse processo de apropriação. Enquanto de um lado se intensifica um movimento muito verdadeiro de reencontro do brasileiro com sua ancestralidade, essa elite mercantiliza, especula e fetichiza essa subjetividade.

Donata Meirelles é casada com ninguém menos que Nizan Mansur, gigante publicitário brasileiro, sócio e co-fundador do Grupo ABC de Comunicação, holding que reúne 18 empresas nas áreas de publicidade, marketing, conteúdo e entretenimento. Nizan apesar de ter negado ser marketeiro de Bolsonaro deu várias declarações apostando na vitória do atual presidente.

Nesse sentido, o que precisamos atentar aqui é para a dimensão material do racismo estrutural. Enquanto discutimos apropriação a nível individual, o poder econômico transforma nossa ancestralidade em mercadoria. Enquanto policiamos as vergonhas que brancos passam ao se apropriar da cultura negra, a cidade de Salvador segue segregando negros dos espaços, segue gentrificada, violenta e desigual.

Há quem ache que essa visibilidade da cultura negra é positiva para o combate ao racismo. Mas não é essa"visibilidade" especulativa e fetichista que vai dar o respeito que o povo preto e as religiões de matriz africana merecem na sociedade brasileira. Nossos problemas são de ordem social; a guerra aos pretos, o genocídio negro, o fundamentalismo e intolerância religiosa e o acesso do povo preto a educação de qualidade.

Precisamos mais do que nos chocar com a leviandade dos brancos, precisamos nos organizar para fazer combater de forma contundente toda essa estrutura do racismo.