O que há por trás da visita do governo a Amazônia?

Depois do comportamento vexatório do Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que começou no programa Roda Viva e seguiu pelas redes com twites constrangedores, foi vez da face grotesca do ministro dar lugar a uma forma mais aprimorada de perversidade.

Se engana quem pensa que Salles é uma espécie de Damares de calças. A prova disso tem fundamento na primeira viagem legal do ministo à Amazonia nesta quarta-feira (13), onde visitou a Terra Indígena Utiariti, no noroeste de Mato Grosso ao lado de Tereza Cristina, então ministra da Agricultura. Utiariti é um território indígena onde produtores rurais não-indígenas plantam soja e milho transgênicos mediante pagamento de uma porcentagem da safra à etnia Pareci, uma espécie de arrendamento da terra. Em nota no site, o ministério da Agricultura afirma que os Pareci plantaram cerca de 18 mil hectares para a safra 2018/19, graças a uma suposta parceria celebrada entre Ministério Público Federal, Ibama e Funai.

Essa visita delimita de forma muito clara e contundente o paradigma que orientará toda política ambiental e indigenista do governo Bolsonaro daqui pra frente. Um paradigma que na história da relação Estado x Povos Indígenas, representa um rompimento com as conquistas da constituição de 1988 e um retorno a velha forma colonial do Estado em lidar com povos indígenas, somado-se a moderna apropriação neoliberal dos recursos naturais.

Para simplificar, antes da Constituição de 1988, seja no Brasil Colônia, no Império, nas Repúblicas ou nas Ditaduras, o Estado brasileiro entendia o indígena como uma categoria étnica/social provisória e transitória. Assim, das mais variadas formas, cada uma de acordo com seu contexto histórico, o Estado tentou integrar e assimilar o indígena no seu projeto de sociedade Nacional. Todas essas formas envolviam a chave do "trabalho"" a fim de transformar o indígena em uma massa econômicamente controlada.

O rompimento com esse paradigma acontece na constituinte de 1988, como resultado de uma profunda mobilização indígena, estabeleceu um novo quadro na tradição de quase cinco séculos de política de integração e tutela a esses povos. É a constituição de 1988 que garante pela primeira vez aos índios o direito à prática de suas formas culturais próprias, ou seja, o direito de serem índios na forma da autonomia e da autodeterminação. Era a primeira vez que o Estado de forma institucional dizia ao indígena; vivam o modo de vida que vocês quiserem, que teremos o compromisso de orientar nossas políticas a partir destes distintos modos de vida.

Assim, avançamos em uma série de políticas públicas indigenistas, como algumas demarcações, saúde e educação específica para essas comunidades. É claro, que avançamos no limite de toda dificuldade dos governos pós redemocratização entenderem esses povos pra além da chave do trabalho e do desenvolvimentismo.

No entanto, a visita de Ricardo Salles a Amazônia representa um retorno a tentativa do Estado de integrar o indígena no modo de produção capitalista. Não é a toa que este governo entende a questão indígena a partir da fusão com a questão da agricultura. Porque Ricardo Salles não visitou nenhuma das aldeias que tiveveram seus territórios invadidos nos últimos dias? Porque Chico Mendes não serve a esse governo?

As respostas são simples; Ricardo Salles quer o indígena economicamente ativo e Chico Mendes propôs a Aliança dos Povos da Floresta, queria o indígena autônomo, guardião da floresta, de seus saberes e consciente da contaminação da natureza por parte dos homens do AGRO. É por isso, apenas por isso, que Chico Mendes não serve mais a esse governo.

Não podemos tratar Ricardo Salles como bobo da corte. O ministro é um criminoso ambiental, domina toda sua ignorância, sabe claramente que projeto de meio ambiente defende e está lá para o fazer.