Você Não é Tão Diferente de Trump Quanto Pensa; Uma interlocução entre Psicanálise e Política

O que faz você pensar que não tem participação alguma na construção do muro de Trump? Há muito tempo você vem construindo esse mesmo muro e ainda não sabe disso. Caso deseje saber, convido aqui os leitores para um esforço em conjunto numa interlocução entre o campo da psicanálise e o mundo da política.

Não é só a história que é feita de muros. O retorno à ideia obsoleta da construção de um muro físico na era dos muros representativos parece estar causando um choque mundial. Mas, qual a nossa relação com esse muro e por que ele parece encarnar e assumir vida própria no nosso imaginário? É preciso atentar que compreender essa relação não passa pelo próprio muro, porque nenhuma ideia e nenhum muro — seja a muralha da China, o muro de Berlim ou muro da Palestina — possuem vida própria. A resposta para o muro não está nele, está dentro do próprio sujeito que o deseja ou que o teme.

Todo muro é uma ideologia e toda ideologia cumpre uma função em nós e na sociedade. Um teórico chamado Slavoj Žižek dialogando com um psicanalista chamado Peter Sloterdijk, define ideologia como algo que “as pessoas não sabem o que estão realmente fazendo, mas fazem” e eu completaria aqui com “elas gostam do que estão fazendo”. Na história do homem no mundo, os muros além de resguardarem propriedades, parecem separar o sujeito de todo o resto do mundo e de tudo aquilo que ele não deseja entrar em contato, seja a desigualdade, a criminalidade ou a imigração, os muros geram sensação de segurança, reforçam a ideia de integridade e ajudam a organizar e administrar os medos e as contradições do sujeito em um mundo que por essência é contraditório.

Mas seria possível isolar o sujeito do mundo? O que sou eu e o que é o mundo? Onde o mundo termina e onde eu começo? Reitero que as respostas para o muro estão no sujeito e não no muro. Quem vai defender essa tese e tentar responder essas perguntas é um psicanalista chamado Lacan. Para ele, no processo de formação do homem, o mundo interior e o mundo exterior não estão separados, estão unidos pelo o que ele chama de “mundo circundante”. Nesse mundo circundante tudo o que está dentro também está fora.

Lacan utiliza o espelho como o lugar de identificação do homem. No espelho o sujeito vê a si próprio e o mundo, de forma que não é possível olhar pra o espelho e ver apenas a si mesmo isolado de todo o resto. E essa angústia de ser um sujeito contraditório, heterogêneo, “esburacado” por dentro e inseparável de um mundo ainda mais contraditório, que nos faz construir muros. Para viver nesse mundo, nós construímos muros entorno de nós mesmos, com um cimento que tampona as nossas contradições, com tijolos capazes de criar áreas de conforto e garantias absolutas. Convivemos com esse muro ao passo que não desejamos enfrentar e vasculhar em nós a figura da verdade, tão abandonada diante do relativismo do mundo pós-moderno.

É justamente neste ponto que parecemos tanto com Trump, no momento em que nos alienamos dos nossos próprios problemas e lidamos com eles construindo muros. Enquanto o novo presidente dos Estados Unidos parece ignorar que George W. Bush pariu o Estado Islâmico ao invadir o Iraque e que os Estados Unidos é o principal responsável pela guerra na Síria e pelo grande fluxo de refugiados no mundo, nós parecemos fazer o mesmo em todas as esferas da vida privada. Esse texto não se dirige aqueles que se sentirão seguros com o muro de Trump, estes já estão em um nível de alienação ainda mais profunda, onde a ilusão que faz alusão ao real assume uma forma física (a construção de um muro), o que Freud chama de pulsão (as angústias) se transforma em desejo (segurança) que nos momentos de crise é capturado por discursos demagogos e patriotas fazendo emergir o ovo da serpente do fascismo. Estes já parecem estar perdidos.

Escrevo para a desconstrução dos nossos próprios muros. Nós, que nos achamos já tão desconstruídos e estamos parados na janela do mundo olhando a perversão e o cinismo da sociedade sem perceber que somos são perversos e cínicos quanto. É preciso investigar-se e caminhar no caminho do autoconhecimento, enfrentar-se todos os dias, vasculhar-se. Cuidar de si como exercício de acesso a verdade. O cerne disso é o que nós devemos ser para acessar a verdade e o que nós nos tornaremos após acessa-la. Cuidamos de nós ao passo que desejamos saber a verdade e é preciso querer saber. Fugir de si é descuidar-se e o sujeito que não se cuida, não se ama.

Texto: Matheus Ribeiro

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