Foto: Renato Hermes

O Menino

O Menino estava calmo. Arranjara um espaço dentro do trem lotado. Estava todo encolhido em um banco que encontrara na extremidade do último vagão. Olhava o cenário através da janela. O sol estava prestes a se pôr. O cenário mudava de indústrias abandonadas para uma paisagem bucólica a medida que se afastava da cidade.

O Menino olhava fixamente para tudo que passava. Nada lhe tirava a atenção, nem mesmo o trem lotado. Catatônico observava os detalhes que ninguém percebia e questionava as coisas mais irrelevantes possíveis. O que haveria dentro dos vagões dos trens velhos? Será que alguém morava naquelas antigas fábricas? Será que eram assombradas pelos antigos operários que ali trabalhavam?

Depois, estarrecia com o sol a se pôr por entre a densa mata que se formava. Até que a desagradável voz o interrompia: “Solicitamos aos passageiros que desembarquem nessa estação”.


O Adulto

Ele até que tentara, mas não conseguira ser rápido o suficiente para pegar um lugar no trem lotado. Em seu lugar, sentou-se um menino qualquer que gastava seu tempo olhando pela janela. Restou-lhe achar o lugar mais confortável possível no meio da multidão.

Agora, apenas pensava. Em como estava cansado. Reclamou mentalmente da lerdeza dos trens e da distância de sua casa até o trabalho — desceria apenas na última estação. Pensou também em como estaria cansado no outro dia. Ansiava que chegasse logo a sexta-feira. Todo aquele esforço para receber um mísero salário. E ter que pegar um trem lotado que passava por aquele local fedorento e velho, cheio de fábricas abandonadas que não tinham nada além disso.

Viu um casal com seu filho — devia ter uns oito anos no máximo — a digitar em um smartphone desses modernos que acabaram de ser lançados. E pensou na sua infância e como as crianças de hoje não a aproveitam como ele. Em sua época brincava de peão, de pipa, de bola. E brincava na rua sem nenhuma preocupação. Não tinha que pagar contas, nem pegar trens lotados. Lembra-se que era curioso. Que discutia com os amigos se a lua era feita de queijo e se a casa do quarteirão a frente era mal assombrada. Sentia saudades da sua inocência. Queria saber quando deixara de ser menino.

Sua reflexão foi interrompida de súbito pela voz que saia dos alto falantes do trem: “Solicitamos aos passageiros que desembarque nessa estação”.

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