© So alone by Mareen Haschke

Por que meu amigo bipolar desaparece quando está depressivo e volta quando maníaco?

Estou questionando minha sanidade ao compartilhar isso, mas não importa. Provavelmente me arrependa e exclua depois. Veremos.

Isso é normal, certo?

Eu era uma estudante nota dez; frequentando o segundo ano na Universidade de Alabama com uma bolsa de estudos completa. E eu estava fracassando na faculdade.

Tudo começou inocentemente. Tive dificuldades em me levantar da cama. Então eu me atrasava para a aula. Logo comecei a não ir mais. Deixei de lavar minhas roupas por semanas, então eu não tinha nada para vestir e não ia. Não havia ido à semana anterior, e, para não parecer estúpida, deixei de ir às semanas posteriores.

Não importava. Eu era uma escritora terrível e a fotografia perdera seu fascínio. Eu ainda me arrastei a essa classe, embora eu não soubesse por quê. Em uma atribuição de auto-retrato, nós deveríamos nos fotografar mostrando nossa paisagem interior. Eu subi no topo de um prédio e balançava meu pé para fora dele; não me importava: se eu caísse, e daí? Quem sentiria a minha falta?

Meu professor de fotografia sugeriu que eu procurasse um conselheiro. Fiquei assustada. Achei que era invisível. As pessoas sabiam. Estava estampado na minha cara. O mundo improdutivo em que eu vivia estava aparecendo. E se soubessem que eu estava fracassando? E se soubessem que eu não era tão inteligente como todos pensavam? E se soubessem o que eu sabia? — que eu era apenas uma aspirante. Uma escritora de 20 anos, fracassada. E se eles afastarem-se de mim? Mas e se eu sumir primeiro, assim não precisará vê-los partir?

© Nick Seluk

Deixe-me sozinha

Eu sorri e disse ao meu professor de fotografia que estava tudo bem. Então eu cheguei em casa, peguei um saco de comida para gatos e fui para a cama, fechei a cortina, apaguei as luzes e fiquei encarando a parede. Por dias. Então semanas. Quando meu gato sentia fome, tirava a cabeça para fora da cama e jogava sua comida sobre o chão. Amigos me chamavam à porta. Eu não respondia. Eles não gostariam do meu eu verdadeiro. Caramba, eu não gostava do meu eu verdadeiro também. Eu nem sabia mais quem era esse eu verdadeiro. Eu era apenas uma sombra da pessoa bem-sucedida que eu aspirava ser. Eu queria sumir.

O mundo era fosco, seco de tudo menos de um sentimento de inutilidade. As músicas que eu amava não me ofereciam alegria. Música me dava nervos. Televisão parecia fútil. Eu não conseguia me concentrar a ler, porque insistia em pensar: “eu preciso encontrar uma saída; preciso consertar isso; e se eu não conseguir consertar isso?”.

Fiquei aliviada quando pararam de me ligar. Eu não precisaria estampar um sorriso na minha cara para parecer normal. Não precisaria lutar contra meu silêncio para formar diálogos. Não precisaria responder perguntas ou tranquilizar ninguém. Eu não precisaria usar essa fina camada de “tudo bem”. Eles seriam felizes sem mim, mas achariam amigos melhores. Eu sentiria a falta deles, mas seria melhor assim.


As cores são tão brilhantes

Acordei em uma manhã com um raio de sol lutando para atravessar minha Cortina. Abri a janela.

Tudo era brilhante, brilhante demais — como quando você fica muito tempo debaixo da água e seus pulmões queimam e você sabe que precisa ir à superfície, mas quando você vem para a luz, ela é quase esmagadora. Muito brilhante, muito barulhento, muito bonito. Você se engasga e tenta explicar, mas todos olham para você como se você tivesse ficado louca.

“Tudo era tão escuro, pensei que ia me afogar”, você diz debilmente. “As cores são tão bonitas.”

Eu olhei em volta do quarto. Estava um desastre. Mas nada que um pouco de Pine-Sol e sacos de lixo não pudessem arrumar. Eu liguei um CD que tinha Nirvana, Pearl Jam, Bad Company, Led Zeppelin e REM. E liguei para minha melhor amiga.

“Estou faxinando. Quer vir aqui? Pedi uma pizza.”

“As provas finais são semana que vem”, ela disse.

“Que ótimo! Podemos ficar acordadas à noite e estudarmos juntas.”

E assim terminou minha primeira depressão maior. Passei nos exames finais mesmo que tenha faltado às aulas desde os meios-termos.


“Olá. Eu sou bipolar”

© The Bipolar Codex

Levou anos para ser diagnosticada, mas quando o psicólogo disse a palavra, me senti aliviada. Fez sentido. Eu queria contar para todo mundo que eu não era louca, mas, sim, bipolar. Mas então me ocorreu que: EU SOU louca. Merda. O que fazer agora?

Mas eu estava maníaca na época, então tomei as pílulas, fiz um cronograma e peguei uma pilha de livros na livraria. Joguei-me em livros de ficção também, porque estava com fome de palavras. Fui ao encontro de um cara na biblioteca que parecia ser legal, e não pude evitar o flerte. Marcamos um encontro para a noite. Sentia-me engraçada, inteligente e bonita. Sentia-me… feliz.


“Eu não pedi por isso!”

Três semanas depois, eu parecia estar doente. Nada tinha gosto. O mundo estava confuso. Eu não estava depressiva, mas também não me importava com nada. Pensei em tirar fotos ou sair para jantar. Talvez devesse escrever em meu diário, mas, em vez disso, fiz minha lição de casa e fui para a cama.

Quando visitei o psiquiatra, eu disse que me sentia meio “blé”, como uma fotografia sem o contraste. Eu não estava morta, mas definitivamente não me sentia viva.

“Que bom”, ele disse. “Agora temos a combinação certa de remédios.”

“O que??? Era para eu me sentir desse jeito? Essa era uma melhoria? Como eu deveria escrever nesse estado? Isso não é funcional. Isso é… enfadonho.”

“Experimente”, ele disse. “Você vai gostar.”

Usei e parei de usar medicamentos constantemente. Quando estava maníaca, escrevia feito louco e saía, socializava e me sentia normal. Quando estava depressiva, rasgava tudo que havia escrito e escondia-me no meu quarto para meus novos amigos não me acharem estranha.

Continuei voltando à mesma conclusão: que lado bom tem em escrever toneladas de coisas se eu iria destruir tudo semanas depois? Como me tornaria uma ótima escritora se eu me matasse?

Então desenvolvi um mantra: “Apenas Hemingway pode cometer suicídio, e você não é Hemingway”

Uma situação normal…

Vinte anos se passaram desde que recebi o rótulo que cuidadosamente escondo. Eu ainda tomo os remédios, mas eles não funcionam tão bem como já funcionaram algum dia. Mas é melhor que nada. Por um tempo, expressei meus sentimentos no facebook ou em minha escrita, porque me sentia menos sozinha, mas as reações eram a mesma:

“Por que você é tão negativa?”

“Você está uma chatice hoje.”

“Você teria tanto talento se não jogasse tudo fora.”

“Se eu pudesse escrever como você, ficaria em êxtase.”

“Anime-se! As coisas não são tão ruins!”

“Você pode sentir-se como quiser, pare de lamentações.”

“Escreva coisas a qual se orgulhe.”

“Reze para Deus te ajudar.”

“Controle-se!”

Será que eles não pensavam que eu já havia tentado tudo isso? Será que não pensavam que essa ERA a minha cara de felicidade? Eu quase me matei ontem à noite, ao invés disso, me arrastei para essa festa estúpida, e isso não foi o suficiente. Eu não era o suficiente. O mundo seria melhor sem mim. Afinal, quem eu penava que era? Por que algum dia eu pensei que merecia alguma coisa que me foi concedida? Ninguém via o que eu via quando olhava no espelho?

“Estou indo me isolar por um tempo…”

Meus amigos mais próximos sabem o que isso significa. Estou disponível para emergências, caso contrário, finja que não estou por perto. Eu vou ligar ou mandar um e-mail quando acabar. Não se preocupe comigo. Estou bem. Estou apenas fazendo a coisa sombria. Não , eu não vou me finalizar. Não sou Hemingway ainda. Mas eu voltarei. Amo vocês.

E eu fiz. E faço.

E é por isso que eu desapareço. Porque não suporto ver o desapontamento e confusão nos olhos das pessoas. Porque eu não posso suportar as obviedades que não ajudam. Porque sei que não estou dando cem por cento e não quero tomar algo que não possa retribuir. Porque estou cansado e não tenho energia. Porque é preciso usar de toda força interior que tenho para fazer as coisas que precisam ser feitas, e não há nada sobrando para outras coisas. Porque o mundo é melhor sem mim. Porque eles não irão gostar do meu eu verdadeiro. Porque eu não gosto de mim mesma às vezes. Porque isso não é o que desejo ser e não se encaixa na imagem que quero projetar. Porque eu quero preservar as amizades e bençãos que eu tenho sem queimar ou estragar pontes. Novamente. Porque eu sou boa nisso. Então eu trato a bipolaridade como um inimigo mortal. Porque para mim, isso é o que ela é.

Nota de copyright: esse relato é de autoria de Carmen Sisson. Você pode ler o original aqui: Why does my bipolar friend disappear when depressed and come back when manic?.