A romantização do viciado em viajar

Em 1960 nascia um movimento literário originado por um grupo de jovens que estavam cansados do modelo de ordem estabelecido nos EUA após a 2º Guerra Mundial. Com o objetivo de se expressar abertamente e espalhar a sua visão do mundo, estes começaram a produzir obras sobre temas como a liberdade e a espiritualidade. Além disso, eles tinham interesses em estar sempre juntos, compondo, viajando, bebendo e falando sobre a importância do coletivo. Nasceu dessa experiência livros como “On the road — pé na estrada”, onde o autor do livro narra a história de um rapaz carismático que em Nova York conhece um andarilho sábio e descolado que o leva pra uma jornada pelo país visando buscar o auto-conhecimento.

Atualmente, com o mundo cada vez mais globalizado onde a informação é transmitida ao planeta em questões de segundos e a espiritualidade vira sinônimo de abraçar arvores ou tomar banho de cachoeira, a civilização moderna se viu pressionada a acumular o máximo de tempo possível no mundo externo. Logo no início do século 21, a situação tornou-se tão intensa que muitos começaram a vivenciar o tédio com extrema facilidade. E a busca desenfreada por ambientes que lhe trouxessem alguma novidade passou a fazer parte da rotina de mais da metade dos jovens brasileiros. Então começou a ressurgir a falácia de viajar para se encontrar.

Nunca houve tantas viagens sem compromisso quanto temos agora: Praias, trilhas e cachoeiras tem sido o point dos desesperados que anseiam em silêncio pelo mínimo de conforto dentro de um cenário tão caótico. E ao voltar pra casa, o resultado não poderia ser pior: ansiedade, tédio, intolerância a solidão, além de todos os demais inusitados comportamentos para se auto-afirmarem protagonistas da situação via rede sociais.

Graças ao avanço deste fenômeno bestializado, a patologia batizou de “Ecdemomaníacos” aqueles que manifestam uma vontade excessiva de viajar. E como já era de se esperar, o recado foi predominantemente mal interpretado pelas pessoas.

Numa época onde empresas de engenharia como a SpaceX buscam incessantemente pelo barateamento da viagem espacial pra todo mundo no futuro poder fazer um passeio turístico pelos planetas vizinhos¹, uma coisa está certa: algo está muito errado. Afinal de contas, quanto tempo leva pra conhecer a si mesmo? Quão confuso é a pessoa conduzida a se convencer que o universo é mais interessante que a própria alma? Já não há tentativa de experimento filosófico e a cada viagem nova, aumenta mais a necessidade de contemplar o momento sem qualquer perspectiva pro futuro. É duro constatar que estamos propensos a uma geração de pessoas superficiais optando pelo lado prático da vida e tornando descartável todo tipo de manifestação que necessitar de tempo para existir.

O melhor lugar do mundo é dentro de si mesmo.

¹ - http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/12/foguete-que-entrou-na-orbita-da-terra-pousa-na-posicao-vertical.html

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