BACO EXÚ DO BLUES E FRIEDERICH NIETZSCHE VÃO AO BAR

Ok, admito. Hoje é um domingo daqueles que a melancolia é a minha única companhia. Sou sincero e nego alguns rolês porque estou com a mesma disposição de um jabuti entediado que se recolhe em seu casco para não ser incomodado pelos dedos curiosos de crianças enxeridas. Como um comensal do inconsciente faço uma decolagem onírica rumo a mim mesmo e me agarro ao vazio, que afunda comigo na cama, enquanto Cronos roda os ponteiros do seu relógio e me sufoca como se a minha própria existência fosse desprezível e inexpressiva. Foda-se. Agarro o celular para parar o tempo, e com dois ou três toques busco uma companhia – Baco Exú do Blues.

E quem é Baco Exú do Blues? Baco é a forma romana de Dionísio (obrigado pelos conhecimentos divinos, Percy Jackson), o deus grego do vinho, alegria, loucura e líbido. Afinal, vem daí a origem da palavra “bacanal”. Já Exú é o orixá demonizado pelo sincretismo católico sobre as religiões de matriz africana. Mas de acordo com a Umbanda, Exú é mensageiro dos vivos e dos mortos, alguém que tem algo a dizer: e bom… a música é um excelente meio para passar a sua mensagem. E falando nisso, o Blues é o primeiro ritmo a formar pretos ricos e tornar pretos livres. O samba, rock, jazz, funk e soul são blues. Baco Exú é do Blues. Mas Baco Exú do Blues também é Diogo, uma pessoa, um ser humano que sofre. “Metade homem, metade deus e os dois sentem medo de mim”.


O rapper baiano, meu conterrâneo e vencedor de Cannes, prontamente surge titubeante no quarto como um gênio saindo da lâmpada e, embriagado, observa o estrago do silêncio (droga de boêmia e seus malditos vícios… argh.). Então com seus poderes, sejam de deuses greco-romanos ou afro-brasileiros, emana uma balada espiritual que toma o meu quarto de um azul grave e faço uma viagem onírica pela minha imaginação até o bar. 3 estrelas pelo passeio. O motorista andava em zigue-zague e fumava muito. Não é um bom Uber-mensch.
Continuo deitado na minha cama, que toma um lugar de destaque no meio de onde ficaria a platéia. A produção está na folga dominical, portanto os microfones estão surdos e as câmeras cegas. As luzes fracas comportam a mim e ao artista divino de constante ressaca e adaptado à noite, que, flutua até o bar ainda danificado pelo confronto entre Batman e Coringa, e agarra algumas bebidas. É impressionante, mas ainda me sinto vazio.

Eis que um homem surge nas cadeiras ao lado da minha cama, cama esta que se transforma em um divã, onde permaneço repousado. É Friederich Nietzsche, a única pessoa da produção que não tira folga. Ele me encara sobre o bigode, com as pernas cruzadas e sinto que seu olhar é claro – o niilismo invade meu corpo como os poderosos psicotrópicos invadem aquele ser metade homem e metade deus sobre o balcão das bebidas. Tenho certeza que Nietzsche tem muita teoria capaz de explicar minuciosamente o que sinto, principalmente depois que Freud foi contratado (agora os dois não param de conversar e aprendem constantemente um com o outro). Mas eu sinceramente não tô muito afim de aprender agora, afinal, porque eu o faria? Foda-se, sinceramente. Pra mim vale mais a pena admirar aquele coração transeunte e devoto ao culto dos prazeres que sofre bem na minha frente. Isso me fascina.
Nietzsche apenas observa. Ele entende o conflito que se passa dentro de mim; razão e emoção não conseguem se comportar aqui dentro e agem como dois irmãos que disputam o maior espaço do sofá. Dois irmãos como Apolo e Dionísio, rivais e companheiros. O sereno idealismo alemão tenta dominar o mais puro hedonismo selvagem, e nesse jogo mental eu saio como principal vítima. O que fazer? Atender aos meus desejos mais íntimos e profundos ou agir de forma virtuosa, moral e racional?
Coloco “Razões e Emoções — NX Zero” rapidamente na fila de reprodução e dou sequência ao espetáculo.
Obviamente o Senhor do Bonfim obteve uma resposta em seu bacanal particular: “Bebendo vinho, quebrando as taças e fudendo por toda a casa.”. Baco Exú do Blues é um fiel defensor de que os prazeres da vida são a principal maneira de se lidar com o vazio da existência.
“Seus sonhos não cabem mais nessa cidade
São tempos violentos
Imite o tempo por necessidade
Voe alto como Ícaro
Montado em Pégaso”
Talvez Baco tenha uma resposta para a minha cronofobia: Imitar o tempo por necessidade. Mas… o que isso significa? Não sei, talvez seja só eu tentando desesperadamente atribuir significado a algo para conseguir curar essa monotonia.

Cronos corta as asas de Eros, Pierre Mignard (1694)
E tem uma certa razão nisso, afinal é difícil viver uma vida escassa de significado. “O racional é real e o real é racional” talvez seja uma máxima mais significante para este momento melancólico. Mas como fixar esse significado? Eis que Nietzsche intervém novamente.
“A tragédia é uma afirmação da vida.”
Certo, Nietzsche, obrigado mas eu não gostaria de frases bonitinhas agoras e sim talvez algo com mais SIGNIFICADO. Então Nietzsche começou a citar uma certa Genealogia da Moral: como as falsas virtudes estão escondidas por trás dos valores construídos pelo homem e a construção da moral perfeita a partir do equilíbrio das faculdades apolíneas e dionisíacas do ser humano, mas logo me entediei. Tá, tá, você tem razão, mas eu não tô com saco pra nada, só quero ficar aqui deitado na minha cama. Por sinal, o divã já havia voltado a ser uma cama faz um tempinho, esqueci de escrever esse detalhe. Desculpa.Então Baco Exú do Blues finalmente para de tocar e eu me levanto brevemente para comer alguma coisa antes de voltar a afundar na cama até o começo da rotina na segunda.
Ô domingo cruel. Pelo menos transformei a melancolia em uma nova crônica, mas mesmo assim: Ai que dor, ô domingo cruel…
