O nome dela era Clara.

Um homem cansado estava chegando no ponto de ônibus. O dia estava com neblinas densas e pouco úmido, garoando de leve. O homem se sentou e começou a relaxar: esticou as pernas, apoiou as mesmas no banco e tirou totalmente sua postura. Parecia uma criança que não tem paciência de assistir a missa durante a homilia. Sua cara não demonstrava tristeza, apenas cansaço. Um cansaço pesado, que se colocado em termos físicos poderiam ruir a mais poderosa ponte criada pelo ser humano.
Ao ouvir passos de salto-alto aumentando de volume, o homem se endireitou e sentou, de novo, feito um adulto no ponto. Uma imagem começou a se formar na neblina e uma figura feminina chegou. A mulher também parecia ter uma aparência cansada, apesar de não estar com um rosto de arrependida. Simplesmente não estava com forças nem para se sentar no ponto. Chegou e permaneceu em pé. Não houve trocas de olhares nem interesse algum de um prestar atenção na presença do outro. Ambos estavam cansados e apenas esperando o ônibus chegar para levá-los aos seus respectivos destinos.
Se ouve dessa vez passos de um homem como se estivesse marchando, amassando o chão. Parecia que queria quebrar o solo com suas fortes pisadas. O homem chega no ponto, possuindo também um rosto cansado, porém com uma certa impaciência, que o difere dos dois recém chegados lá. O homem estava com uma cara péssima, somando o seu cansaço com raiva e dúvida. Queria que o ônibus chegasse logo, queria saber o que esperava depois que chegasse na descida escolhida por ele do ônibus que pegaria.

A medida que o tempo passa, cada vez vão chegando mais pessoas cansadas. Umas tristes, outras arrependidas. Umas com certa aceitação e outras com vontade de não estar ali.

Ouve-se um barulho. É o ônibus chegando.

Todos olham a luz do farol aumentando e todos já se preparam para fazer fila. À medida que o ônibus chega, as pessoas ficam mais e mais apreensivas. O ônibus para, mas não abre a porta. As pessoas inquietas ficam se entreolhando pela primeira vez neste encontro.

Mas um barulho gera silêncio.

Eles ouvem um passo gentil se aproximando. Não é algo forte ou algo lento, é um passado duvidoso, como se a dona do andar estivesse perdida. A pequena imagem se forma na neblina e se revela uma menina, uma criança.
A porta do ônibus se abre e, como se fosse combinado, todos deixam a menina entrar primeiro. Quando esta entra no ônibus, todos começam a chorar. Os que estavam irritados, desirritaram-se. Os que estavam arrependidos, desarrependeram-se. Os que estavam inquietos, aquietaram-se. Um coro de choro se rompeu. Um choro penoso, um choro pra dentro. E as pessoas finalmente perceberam que a única coisa que não deveria estar ali já passou por eles, e por não possuir ainda a cabeça suficiente pra saber de nada, conseguiu superar tudo o que eles não conseguiram. E com se todos retornando a si, cada um foi entrando no ônibus e se acomodando nos lugares, sem sentimento algum além do cansaço.

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