o verde-louro desta flâmula

Como foi que a situação chegou a esse ponto? Gustavo estava apontando uma arma para a cabeça da senhora Lourdes e berrava o hino nacional enquanto trajava apenas uma cueca samba-canção. A sua mão tremia enquanto segurava a espingarda, mas não era pela arma, e sim pelo frio que estava sentindo. A dona Lourdes chorava, mas não porque estava sendo ameaçada de morte, mas porque seus biscoitinhos estavam no forno e ela não iria conseguir tirá-los de lá a tempo.

Tudo começou quando o seu Antônio, marido de dona Lourdes, faleceu. O prédio inteiro foi ao funeral. Dona Lourdes ficou bem abalada. Gustavo, vizinho de porta deles, sempre aceitava seus convites para um café ou um lanche. Porém desde que seu Antônio se foi, os convites acabaram sumindo. Gustavo morava sozinho e era enfermeiro, trabalhava num hospital não muito longe dali. Sentia-se culpado por não ter ajudado seu Antônio quando teve um piripaque louco durante um dos lanches que foi convidado.

Desde o dia em que dona Lourdes ficou viúva, Gustavo sempre sentia o cheiro dos famosos biscoitos que ela assava para que os três comessem juntos. A vontade de bater na porta dela era grande, mas achava que a senhora precisava de um tempo de luto. A única coisa que achava estranha é que toda manhã, às 05:35, ela colocava o hino nacional para tocar, aos berros.

Passaram-se três meses e nada da rotina mudar, a velha sempre colocava o hino e assava biscoitos. Gustavo, que antes estava paciente e compreendia completamente o luto da senhora, já estava ficando paranoico e maluco com o surto da velha louca. Houve uma sexta-feira que ele chegou bêbado e, no dia seguinte, foi acordado por aquele maldito rio Ipiranga de margem plácida. Chutou tanto a porta do apartamento de dona Lourdes que o número 503 preso na porta virou 53, pois o zero metálico foi-se embora. Saiu satisfeito por pelo menos ter vomitado no tapete da velha e voltou a dormir.

No dia seguinte ele acordou já esperando o pior. Mas o hino não tocou. Que milagre foi esse?

Gustavo finalmente estava livre daquele pesadelo que o cercava, não estava acreditando que o tormento havia acabado. Tentou voltar a dormir com o maior sorriso estampado em seu rosto.

Mas não conseguiu.

Rolou na cama várias vezes até desistir. Deixou então a cama de lado e começou seu dia, sentindo o cheiro de biscoitos de dona velha louca Lourdes. Chegando em casa de noite, não conseguiu dormir de novo, o cheiro dos biscoitos que impregnava sua casa possuía uma sensação incompleta. Cantarolou alguma coisa sem perceber e, quando deu por si, já eram 05:35 da manhã e estava esperando o hino, que não tocou de novo.

E assim seguiram seus dias a semana inteira. Estava cada vez pior, a falta de sono e o cantarolar estava deixando-o louco. Cadê o hino nacional? Por que, depois de meses, eram só os biscoitos? Gustavo saiu de novo para beber na sexta-feira e chegou bêbado, ficou cantarolando desde a hora que chegou em casa até às 05:35 da manhã, não aguentou a falta do hino e começou a bater na porta de dona velha louca maluca miserável Lourdes. A porta caiu e o cheiro dos biscoitinhos amaldiçoados com um toque enjoativo tomou conta do corredor e da mente dele. Tomado pelo ódio, Gustavo caçou a velha maluca e começou a cantar o hino nacional. Dona Lourdes estava na cozinha olhando para os biscoitos quando finalmente viu o rapaz. Ele pegou-a pelos cabelos e a jogou no chão da sala. Mal tinha reparado que não havia colocado roupa nenhuma, estava apenas de cueca, as janelas estavam abertas e o frio tomou conta de seu corpo. Dona Lourdes estava indo retirar seus biscoitinhos do forno quando tudo aconteceu, ela berrava insanamente sobre seus biscoitos enquanto Gustavo chegava ao berço esplêndido ao som do mar e à luz do céu profundo enquanto empurrava a velha para a sala. A coroa se debatia e gritava algo sobre tirar os biscoitos do forno se não Antônio iria ficar aborrecido.

Durante a terra garrida e lindos campos com mais flores, a velha conseguiu se desvencilhar e correu para a cozinha. Gustavo olhou para a parede e viu uma espingarda na parede. Ele correu e a puxou de volta erguendo da justiça a clava forte. E vendo que o filho teu não fugia da luta, ele apontou a arma em direção à velha, que chorava incessantemente. Gustavo, que sentia um puta frio, apontando a arma para a velha estúpida louca desvairada, reparou que a agulha da vitrola havia quebrado.

Colocou a agulha no lugar, quieto, apontando a arma para a cabeça da velha.

Terra Adorada!

A melodia tomou conta de seu corpo e ele finalmente relaxou. A velha foi correndo pegar seus biscoitos enquanto Gustavo chorava no meio da sala. Os dois sentaram no chão e comeram os biscoitos juntos. Os biscoitos acalmaram ainda mais os dois, que se abraçaram e riram bastante, e caíram num sono profundo.

Ao serem acordados pela polícia, foram presos. Um por invasão de domicilio e ser usuário de drogas, a senhora simpática por ser traficante.

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