Spartacus: primeiras e últimas impressões

Andy Whitfield, o Spartacus da primeira temporada

Até ano passado, eu escrevia pra um site de molecada sobre nerdices, cultura pop, filmes de heróis e outras coisas que estão na moda. Mesmo sem nunca ter sido um nerd, até que foi divertido aprender um pouco sobre esse universo. Dentre uns textos que escrevi, peguei dois para reproduzir aqui. A primeira parte é a indicação da série Spartacus, e a segunda são minha considerações finais sobre essa série.


Primeira parte:

Quando um amigo vivia me perturbando para assistir a Spartacus, eu estava com a cota de séries transbordando e não tinha tempo para inserir mais uma na lista. O tempo passou e o motherfucker continuava insistindo, e ele tinha um ótimo argumento a favor: “a série é cheia de putaria”, dizia ele toda vez. E isso é verdade. A história do gladiador Espártaco (em pt-br) é conhecida, então ele não precisava explicar o enredo (nem eu preciso explicar a você, certo?); ele dizia que tinha sangue, que era massapacaralho, mas ele não dizia que as lutas eram meio mal coreografadas (no começo), que o plano de fundo era tosquíssississimo e que o sangue era 200% digital, meia boca, mais baixo orçamento que a primeira temporada de Chaves.

A série, produzida pela Starz (de Da Vinci’s Demons), teve três temporadas de dez episódios cada e um prequel de seis episódios entre a primeira e segunda temporada (período em que se esperava que o ator principal se recuperasse de um câncer; falo já sobre isso). Cada temporada tem um subtítulo que, de certa forma, dá uma dica sobre o tema principal: Blood and sand, Gods of the arena (prequel), Vengeance e War of the damned.

O plot principal é a vingança de Spartacus (Andy Whitfield, que morreu após a primeira temporada em decorrência de um Linfoma não Hodgkin) contra Claudius Glaber (Craig Parker) e a tudo o que ele representa (a sociedade romana que escravizava e mantinha a maioria da população na miséria enquanto vivia com luxo e fartura).

O motivo de eu ter achado muito fraca no começo é a qualidade técnica em geral. Tudo é CGI, tudo. No primeiro episódio, dá uma agonia ao ver o fundo todo esfumaçado. Outro ponto negativo é a zacksnyderização das cenas de luta: sabe 300? Aquelas câmeras lentas? O blur, o sangue sem plasma (tipo água) pingando na tela; o esguicho de sangue tarantinesco pra mim também era desnecessário. Mas quando eu entendi que isso era um recurso para driblar a falta de orçamento e tornar a produção um reflexo da violência da época, comecei a me divertir. Então eu relevei. Se você relevar, dá pra se divertir. E se você não se divertir com isso, vai se divertir com a porrada de cena de séquiço que rola em todos os episódios. TODOS!

o desfecho dessa cena é surpreendente

Mesmo com alguns roteirismos, tipo deixar um moleque de 15 anos tomar banho sozinho, sendo que nem os adultos faziam, somente para justificar, na sequência, uma execução descabida, ordenada por um pivete.

Apesar de não ter como comparar Spartacus com outras séries épicas como Roma ou Game of Thrones (produções milionárias da HBO), ela não deixa a desejar quando mostra a zona que era Roma naquela época. O desenvolvimento da história também é bem realizado.

O elenco principal tem Lucy Lawless (a Xena, lembra?) como Lucretia, Liam McIntyre como Spartacus, a partir da segunda temporada, Manu Bennett como Crixus (o gaulês que fala como se tivesse sussurrando e piora a cada temporada), mais uma galera que participa de quase todas as temporadas, e outros que fazem participações esporádicas em algumas temporadas ou durante toda a série.

Parte final:

Intercalando com Narcos, assisti aos sete episódios que faltavam após a primeira parte do texto. A galhofagem sanguínea e as câmeras lentas nas cenas de batalha não me incomodavam mais, e as mulheres maravilhosas já estavam deixando saudade. O que mais me impressionou nos últimos episódios foi a força e a determinação que muitos personagens mostraram, bem como suas mudanças de comportamento.

Crixus (Manu Bennett), o gaulês que, durante toda a série teve divergências com Spartacus e foi retratado como um babaca alienado, finalmente decide seguir seu caminho no que ele acredita ser o mais apropriado a se fazer, mesmo com as chances de vitória serem bem pequenas. Num diálogo com Spartacus, ele faz um discurso tão foda que até caiu um cisco no meu olho na hora.

[Nós mostramos que a República é vulnerável.] Que uma mão trêmula pode se tornar um punho. Desafiamos a ideia de que um escravo deve sempre saber o seu lugar, aceitando o chicote porque assim foi ensinado. Nós construímos essa poderosa República, com nossas mãos, nosso sangue e nossas vidas! E podemos vê-la cair com igual custo. Você abriu meus olhos para isso, Spartacus. [Não me peça agora para fechá-los.]

C A R A L H O W

Naevia (Cynthia Addai-Robinson) talvez tenha sido a personagem que mais mudou durante a série: de indiferente na primeira temporada (quando era interpretada por Lesley-Ann Brandt) passou a ser decisiva nos momentos finais. Antes frágil e abalada pelos acontecimentos acontecidos (sic, eu mesmo escrevi isso) a ela, mostrou-se uma guerreira forte e destemida. Foi conduzida e treinada por Crixus, seu amor. No fim, tem nas suas mãos uma decisão que pode mudar o rumo dos fatos. Ela deve decidir se segue a razão ou coração.

Gannicus (Dustin Clare), um ex-escravo de Batiatus, o único escravo a conquistar a liberdade nas areias da arena, mudou completamente de opinião. Um beberrão e mulherengo típico, nunca quis assumir responsabilidade e liderança no grupo. Na verdade, ele só segue Spartacus por lealdade a Onameaus (Peter Mensah), seu “irmão” no ludus onde treinavam. No fim da saga, Gannicus assume seu posto e muda radicalmente de conduta, aceitando até o fato de que os deuses podem interferir na vida do povo.

Agron (Dan Feuerriegel) sempre se portou como um líder, como alguém que tinha voz de comando, por um tempo foi o braço direito de Spartacus. Mesmo tendo um temperamento explosivo e detestar Crixus por este ser de uma região inimiga (vemos isso por aqui — S x NE), no fim, ele alia-se ao gaulês na tentativa de derrubar Roma. Em certo momento, abre mão do amor da sua vida em nome da liberdade dos escravos.

Nasir (Pana Hema Taylor) entrou no grupo após ser liberado pelos rebeldes. Mesmo sendo franzino, comparado aos outros guerreiros, diferente dos outros brutamontes, destaca-se nas batalhas e não arrega para alguns rebeldes que mostram opiniões diferentes e tentam intimidá-lo. Como Naevia, é movido tanto pelo amor quanto pela causa dos escravos.

Spartacus (Liam McIntyre), o trácio, trazedor da chuva, assassino do Sombra da Morte, assassino de Theokoles, rei Sparatcus, líder da rebelião, mentor do movimento, progressista, vândalo, subversivo, estrategista e badass motherfucker. Movido desde o início por uma vingança pessoal, acaba mudando de conduta, preocupando-se mais com a situação daqueles que o seguiram na rebelião. Por um momento, abre mão da luta pela vida dos milhares que o seguem (mulheres, crianças e outros que não poderiam lutar e seriam esmagados pela repressão romana). Alguns eventos o levam de volta à batalha e à glória de ser livre.

Spartacus… esse não é meu nome. Eu finalmente o ouvirei de novo, dito pela voz da amada esposa, que há muito espera por isso. Não derramem lágrimas, não há melhor glória que cair como um homem livre.
caiu um cisco aqui pera

p.s.: na série, Julio César, do primeiro triunvirato romano, tem papel muito importante no desenrolar da trama. Ele, com Marcus Crassus, bolam uma estratégia de enfraquecer o exército rebelde por dentro. Porém, nos relatos históricos, JC não tem participação nessa guerra.