Por um Anarcocapitalismo Antimaterialista

Makino
Makino
Nov 6 · 34 min read

Introdução

O presente texto visa justificar uma série de posições filosóficas e culturais e em temas do dia a dia como em consonância e, sobretudo, com um melhor casamento com o anarcocapitalismo e liberalismo. Estaremos analisando: 1. qual é a posição cultural mais coerente, 2. qual é a posição em relação à política (geopolítica incluso), 3. qual é a nossa posição ante a algumas coisas que parecem “intrínsecas” ao anarcocapitalismo (como o consumismo etc). Pretendemos criar uma teoria cultural consistente e desmistificar falsas crenças acerca do anarcocapitalismo/liberalismo, com o presente artigo, além dos objetivos já citados. Com tal texto, eu pretendo atingir dois tipos de pessoas:

  1. Um anarcocapitalista, liberal ou minarquista austríaco que não estudou filosofia/sociologia/economia/game theory profundamente.
  2. Uma pessoa que não é bem informada sobre as posições culturais e filosóficas do anarcocapitalismo. E por “bem informada”, não quero dizer uma pessoa que convive com a massa do movimento ancap, mas sim com uma pessoa que leu os autores anarcocapitalistas diretamente e de maneira farta. Pois já digo: 90% dos anarcocapitalistas que você encontrar por aí são burros, contraditórios, e não sabem absolutamente nada de filosofia e das implicações do anarcocapitalismo na cultura, filosofia etc. Ainda chego mais longe e digo que muitos não sabem absolutamente nada, mesmo sobre a sociologia/economia do anarcocapitalismo.

Esclarecimentos iniciais

I

Pra quem não sabe o que os anarcocapitalistas e liberais querem dizer quando citam a palavra “capitalismo”, não quer dizer a mesma coisa que a citação da palavra no senso comum. Ao se referirem ao capitalismo, querem dizer: um sistema completamente livre de mercado baseado na propriedade privada. Por completamente livre, diz-se, literalmente, completamente livre. Se o estado meter um único dedo sequer, já não é capitalismo nesse sentido. Ou seja: no sentido usado pelos liberais e ancaps, capitalismo não é o sistema em que vivemos hoje (e nenhum país hoje é liberal; apenas ordoliberal). Dito isso, de qualquer maneira, usarei o termo capitalismo como o senso comum o emprega, e chamarei o sistema que os liberais e ancaps falam de livre mercado, pra não haver confusões.

II

Qualquer posição filosófica e cultural é, logicamente falando, coerente com o anarcocapitalismo e com o liberalismo. Esse artigo não é uma tentativa de comprovar uma incoerência lógica, mas sim uma tentativa de comprovar uma incoerência sociológica/econômica/ontológica de certas posições com o liberalismo/anarcocapitalismo.

III

É sabido que não é apenas o comportamento que é herdado geneticamente. Traços físicos e características físicas também. Apenas não foi citado, pois não foi útil citar na explicação.

IV

Pra fins explicativos, alguns argumentos meramente hipotéticos e que não se aplicam a todos os casos são usados. Portanto, caro leitor, não tome absolutamente todos os exemplos como exemplos que realmente acontecem universalmente na vida real. Alguns exemplos que eu uso são meramente ferramentas de analogia: são apenas úteis pra passar o conceito do escritor pro leitor. Não é importante, por exemplo, se todos os amigos de todas as pessoas são rígidos o suficiente pra expulsá-los do círculo de amigos apenas por deixar o celular ligado no cinema. Apenas é importante se tal exemplo o fez entender o conceito que o escritor quis passar.

V
Todos os argumentos que estarão sendo citados, como se aplicando ao anarco capitalismo, se aplicam igualmente ao liberalismo/minarquismo.

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA

Se você não está acostumado à leitura sociológica, filosófica etc; recomendo descansar entre as partes diferentes do artigo e absorver melhor uma antes de ler a próxima.

Parte I — Conhecimento Basilar

1. O Que é a Cultura?

A cultura não é uma coisa, é um processo. Ela está em constante e imparável mudança — pois o seu objetivo jamais pode ser alcançado. A cultura é o nosso conjunto de valores, nosso conjunto de crenças comuns entre nós, nosso conjunto de gostos etc. Em suma: todo aspecto do comportamento humano que não é individual, mas compartilhado, é uma cultura ou uma subcultura.

Bater na porta antes de entrar, por exemplo, é um valor cultural. Se vestir inteiramente de preto é mais um valor cultural. Ter a crença de que os políticos são ladrões é um valor cultural. Tudo aquilo que nós fazemos e acreditamos porque os outros também fazem e acreditam é cultura.

A pergunta fundamental que surge é: por que compartilhamos comportamentos e crenças com outras pessoas? Racionalmente falando, não parece fazer sentido. Termos nossos próprios comportamentos e nossas próprias crenças baseadas no que entendemos da realidade parece fazer mais sentido que imitar os outros, à primeira vista (a menos que o leitor seja um tremendo preguiçoso).

Apenas à primeira vista. Pois se tivéssemos que ver por nós mesmo tudo o que os outros viram pra tirar conclusões e derivar comportamentos, teríamos 2 problemas:

O primeiro é que faríamos um esforço inútil pra chegar em conclusões que pessoas já chegaram antes. Por exemplo: alguém, em algum momento, percebeu que bater na porta antes de entrar é um bom valor, tendo em vista que a pessoa dentro do cômodo pode estar pelada. A pessoa que inventou esse costume de bater na porta provavelmente ficou traumatizada com a visualização de sua própria vó pelada e repassou aos outros sua conclusão de que é melhor bater na porta. Imagine quantas vós seriam vistas peladas, se não batêssemos nas portas antes de entrar.

O segundo é que existem situações que exigem raciocínios rápidos. Por exemplo: se você estiver numa floresta à noite e ouvir um barulho, a chance de morrer é alta. Pode muito bem ser um predador dos mais terríveis e acabar com a sua vida se você continuar parado lá. Então todos aqueles que ficam parados morrem, e todos aqueles que “irracionalmente” saem correndo ao ouvir o barulho sem checar antes, saem vivos.

Essas duas situações geram mecanismos de incentivo em direção a certas coisas em específico. Existe uma seleção natural de costumes bons e costumes ruins. Aqueles que seguem costumes que, em consonância com o ambiente, produzem um resultado positivo, irão permanecer vivos/saudáveis; aqueles que não, morrerão/cairão na pirâmide social e não passarão os seus costumes adiante.

Existem duas formas de passar os seus comportamentos aos alheios: mimetização e genética. A mimetização é quando alguém vê um comportamento que julga coerente, correto ou útil e imita. A genética é quando o traço comportamental é passado de pai pra filho.

O comportamento genético é a forma mais lenta de transmitir um comportamento. Alguns sentimentos podem ser citados como exemplo: o medo, citado acima, foi geneticamente transmitido. Alguém que ouve um barulho no escuro e vai checar o que é tem alta chance de morrer; alguém que foge de medo do mesmo barulho tem alta chance de sair vivo. Aquele que foge do barulho passa seu gene pra frente, e assim o comportamento medroso fica retido na população futura; enquanto o homem corajoso morre e não passa seu gene pra frente, então a população futura tem mais gente medrosa que corajosa — e o processo se mantém até atingir o estado de melhor comportamento possível pra aquela situação. E, assim, o sentimento chamado medo emergiu da evolução do comportamento passando de pai pra filho.

Enquanto isso, o comportamento mimético é extremamente rápido de ser passado pra frente: você vê algo acontecendo e acha útil/interessante, você imita. Simples. As pessoas que mais imitam os comportamentos que mais funcionam em situações sociais específicas têm mais chance de se dar bem na sociedade, e assim pessoas com comportamento mais apropriado ao ambiente social prosperam, e as com comportamento menos apropriado; se afundam numa lama social. Lógico que se dar bem significa muita coisa: se você copia o que o seu amigo que se dá bem em uma entrevista de emprego diz, você se dá bem nela; se você copia o comportamento da sua mãe, que tem alguns casos na justiça e ganhou vários, você se dá bem no tribunal. Assim por diante: as pessoas que imitam os mais bem sucedidos mais se bem sucedem. É bem parecido com os genes, que os indivíduos com melhor comportamento passam o seu gene pra frente: porém com a diferença de ser um mecanismo de ajuste mais rápido. E, evidente, inversamente também: os que possuem comportamento ruim não são imitados (não passam os seus comportamentos pra outros), e os que tentam os imitar acabam na mesma lama social dos próprios.

Em última análise, o que temos da cultura é a seguinte imagem: o comportamento compartilhado entre vários indivíduos pra se ajustar ao ambiente (e, é claro, se ajustar uns aos outros também). No começo dessa parte, foi citado que a cultura é um processo. O que se quer dizer com isso é que: a cultura se ajusta ao ambiente e sempre tende à perfeição em consonância com o ambiente, porém o ambiente está sempre em mudança — 0 ambiente não é algo estático, parado, imóvel: é uma variável que realmente varia. A cultura é um processo porque se ajusta ao ambiente, e o ambiente muda; e a cultura sempre tenta seguir as mudanças do ambiente, porém nunca o alcança, pois o ambiente permanece mudando. O ambiente muda por duas razões: a própria natureza em si mesma possui ciclos de mudança e mudanças permanentes eventuais; e o homem modifica o ambiente. Então a cultura não só se ajusta ao ambiente natural, mas também ao ambiente que o próprio homem cria. Por exemplo: temos o costume de desligar o celular antes de qualquer sessão de filmes. Naturalmente não existem filmes, então esse costume não faria sentido na natureza — o costume surge, porque ninguém gosta de ouvir ligações no meio do filme, e quem é ligado no decorrer do filme sofre pressão social pra desligar a ligação e o celular. As pessoas não gostam de ir no cinema com alguém que deixa o celular ligado, então aqueles que deixam o celular ligado no filme não são convidados pra sessões futuras com os amigos. Alguns costumes são uma mistura entre coisas puramente ambientais e coisas feitas pelo homem. Mas é crido que os exemplos e explicações dadas já são o suficiente pra compreender a natureza da cultura.

2. De Onde vem a Discriminação e a Intolerância?

Não é possível falar de alguma coisa sem conhecer sua essência, então vou começar com algumas definições.

O que é “intolerância”? Intolerância é discriminação ilimitada (sem ouvir o que o outro tem a dizer) sobre determinado indivíduo ou grupo por possuir ou não determinada característica.

Quais são, então, as origens disso? As origens se encontram em nosso passado animal. Exemplificando: vamos supor que existem dois grupos de indivíduos: A e B — e tais possuem características distintas. Vamos supor que A seja matriarcal e B seja patriarcal. Tais tipos de sociedade têm dois tipos distintos de organização hierárquica social; e, sendo assim, se um indivíduo A for pro grupo B, ele terá comportamentos muito distintos do grupo B e, assim, alguns indivíduos podem se sentir confusos ao verem dois tipos de comportamento diferente e qual deles tomar será uma dúvida. Se, então, um indivíduo do grupo B for pro grupo A, tem chances de ele não se adaptar e influenciar indivíduos não formados a não se adaptarem e, assim, causando consequências na população em geral.

Suponhamos, por exemplo, que existem duas espécies fictícias de lobo: o lobo branco e o lobo rosa. O lobo rosa vive em climas quentes, enquanto o lobo branco vive em climas frios. O lobo rosa possui diversos instintos, adaptações físicas e costumes que são adaptados especialmente a climas quentes: como exemplo, o lobo rosa tem o instinto de entrar em rios gelados de 4 em 4 horas. Ele adquiriu esse instinto geneticamente, pois o clima é tão quente que os que não faziam isso morreram, e os que faziam; ficavam vivos. E assim esse instinto foi passado geneticamente pra frente. Imagine agora que um lobo rosa acabe se misturando com um grupo de lobos brancos: ele continua agindo em conformidade com os instintos adquiridos geneticamente e demora um tempo até se acostumar com a nova “cultura” dos lobos brancos. O lobo rosa, por ter um instinto de entrar em rios gelados de 4 em 4 horas, logo morre quando tenta conviver com os lobos brancos em seu clima. Mas o problema não é esse: o problema é que ele pode se misturar com os lobos brancos e passar sua genética de entrar no rio gelado, e de alguma forma ele conseguir passar isso pra uma parte considerável da população de lobos brancos, eles podem muito bem se tornarem ameaçados de extinção completa. E o outro problema é que o lobo rosa, além de trazer seus genes nada aptos ao frio, ainda traz sua cultura também nada apta ao ambiente dos lobos brancos. Se a cultura dos lobos brancos fosse caçar de dia, pois eles têm pelos brancos que se disfarçam na neve, a cultura dos lobos rosas é caçar à noite, quando a temperatura é mais amena e se gasta menos energia se movimentando. O lobo rosa influenciaria alguns indivíduos do grupo dos lobos brancos e faria eles cambalearem entre seus costumes e os costumes do lobo rosa. Isso causaria uma “desadaptação” da cultura e uma “desadaptação” dos genes (se o lobo rosa conseguisse se misturar aos brancos).

Evidentemente, porém, existem características do lobo rosa e de sua cultura que podem acabar sendo úteis aos lobos brancos. A visão melhor dos lobos rosas no escuro (eles caçam à noite) pode ajudar os lobos brancos a identificarem presas na neve, já que a maioria das presas também se camuflam. O lobo rosa pode ter uma organização cultural de seguir o alpha na caçada e se organizar através de sons levemente diferentes de latidos e uivados — e isso ajuda na coordenação de ataques dos lobos brancos, que não possuíam isso antes; já que é um tanto difícil identificar um ao outro no meio da neve.

É possível que a entrada de novos genes e de uma nova cultura sejam tanto positivos quanto negativos.

A intolerância, é, então, finalmente, um mecanismo inerente de diferenciação pra evitar os riscos negativos de misturar as culturas e os genes. Tal intolerância é feita através de extrema rejeição a tudo aquilo que seja diferente, tanto em aparência quanto em costume. Se um lobo branco comporta-se diferente dos outros, eles simplesmente os abandonarão e não mais o deixarão participar do grupo: pois a diferença de comportamento pode causar consequências negativas se o comportamento dele não for adequado ao ambiente (e não há como saber se é ou não adequado a priori. Apenas observando o grau de sucesso de longo prazo que os portadores do comportamento obtêm). Se um lobo branco nasce levemente azulado, mesma coisa.

Um questionamento que surge dessa definição é: mas se não é possível saber se o comportamento do lobo rosa é adequado ao ambiente, por que o lobo rosa é discriminado? Não seria melhor testar e ver? Nesse caso não, pois o próprio teste é algo muito arriscado. Se o lobo rosa, de fato, tiver comportamentos bons aos ambiente, os ganhos dos lobos brancos são simplesmente uma vida levemente melhor. Se não forem, por outro lado, a perda é um risco de extinção absoluta. As perdas em deixar testar são maiores que os ganhos em deixar testar, então a posição ótima da situação é de fato excluir ele do grupo e não deixar que ele teste.

Quem mexe em programação conhece bem esse ditado: “pra que mexer no que já tá funcionando?”. Porque, nesse caso, se você mexer, a chance de extinguir uma sociedade inteira é extremamente alta.

A natureza nos impôs um mecanismo pra não deixar que mexamos em algo sem necessidade: e é por isso que a discriminação e a intolerância existem.

3. A Origem da Linguagem

A linguagem é qualquer forma de comunicação de informação entre dois indivíduos. Não importa se comunicam algo através de seu corpo, se comunicam algo usando palavras, se comunicam algo através de expressões faciais: tudo é linguagem.

Os animais mais complexos possuem linguagem, como cachorros, que comunicam certas coisas através de latidos com a tonalidade dos latidos. Por que, afinal, gastar energia comunicando coisas aos outros indivíduos? Não parece, à primeira vista, algo racional gastar energia pra ajudar os outros. Se analisarmos de um ponto de vista do indivíduo não, mas se analisarmos do ponto de vista de uma espécie sim. Cada indivíduo de uma espécie que passar informação a outros da mesma espécie vai, consequentemente, ajudar a sobrevivência da espécie. Se um ser humano vem correndo, de rosto amedrontado e gritando na sua direção, de instinto você vai olhar curiosamente na direção dele por vários minutos pra ver se tem algo realmente errado. Isso acontece porque, se há algum motivo pra um ser humano sair correndo e gritando, provavelmente esse motivo se aplica a outros seres humanos. Se o cara gritando tá correndo de um tigre, você deveria correr também. E praticamente ninguém sai correndo e gritando por motivos fúteis, então você não precisa perceber o tigre por si mesmo pra já sair correndo. Você tem mais chance de sobreviver se olhar fixamente na direção que o tigre vem antes mesmo de ver o tigre — que é o que faria caso visse o cara. Pois, se não estivesse olhando na direção em questão, você provavelmente não perceberia a tempo de sair correndo. Ou seja: de fato, você recebeu informação do cara — a informação de que você deveria prestar atenção no lugar de onde ele veio. Esse tipo de comunicação é o tipo mais primitivo: linguagem corporal e sons não articulados. Já foi explicado como a linguagem primitiva surgiu no trecho que explica o que é a cultura de maneira indireta: a linguagem corporal e os sons não articulados se deram da mesma maneira que a cultura se deu — um processo de seleção natural em que, os grupos que possuíam a linguagem corporal pra comunicar o estado do ambiente sobreviviam e passavam seus genes pra frente e os grupos que não, não passavam os genes; pois morriam. Se o cara não te instigasse a analisar o ambiente ao sair correndo, gritando e com face de medo, você; bem como todo o grupo de pessoas que o cerca, teria morrido através do tigre. Note que, mesmo que o cara correndo e gritando não tivesse sido o suficiente, a primeira pessoa a morrer gritaria extremamente alto enquanto era morta pelo tigre — e aí as pessoas olhariam e correriam. Isso é, também, comunicação no sentido que foi exposto no começo do texto. E tal comportamento: de ver o colega de espécie correr e analisar de onde ele veio, ou de ouvir alguém gritando e já automaticamente olhar na direção, foram ambos geneticamente adquiridos pelo processo já indicado.

A linguagem atual usada pelo ser humano, e usada pra escrever esse artigo, é a linguagem simbólica. Existem objetos e relações entre esses objetos, e relações entre as relações. A linguagem simbólica pretende representar tudo isso: a cadeira (objeto) está na cozinha (relação) e a cozinha onde a cadeira se encontra realmente existe (relação de relação). A linguagem simbólica emergiu na interação humana do exato mesmo processo que a cultura, bem como a linguagem primitiva. Aprenderam a referenciar certos objetos primeiro pra poder comunicar como estão os recursos aos outros etc. Por exemplo: inventaram a palavra planta, pra dizer que havia planta em tal lugar. Acontece que inventarem uma palavra que descreva absolutamente todo o tipo de planta é extremamente ambíguo. Você pode tentar estar dizendo que a planta é boa ou ruim ao seu colega. Planta pode ser alimento, remédio ou veneno. Depois de inventarem as palavras planta e animal, por exemplo, a palavra animal é igualmente ambígua. Pode ser um animal perigoso ou um pra comer. Então o mesmo processo de seleção se deu: as palavras planta e animal se espalharam, e os grupos que não adotaram tinham mais chance de morrer. Depois as palavras planta e animal ganharam palavras relacionais: planta veneno, planta comida, planta remédio. Animal perigoso, animal comestível. Novamente os grupos que adotaram sobreviveram, e os que não, tiveram mais chance de serem mortos, pois o seu colega poderia apontar planta, e você, achando que é comida, comeu ela, e ela é venenosa, então você morreu. Aí chega o resto do grupo e ele começa a chorar e diz: planta. Aí todo mundo, que estava com fome, acha que o colega quer ajudar a combater a fome, aí comem e morrem. Parece um exemplo absurdo, mas interpretações ambíguas podem muito bem levar a isso.

Através desse processo de seleção de grupos que, crescentemente tiveram uma língua que cada vez mais correspondia ao que existe no mundo real e às relações e leis pensamentos subjacentes à linguagem e à estrutura da realidade, criamos uma linguagem extremamente complexa que permite uma vida em sociedade civilizada.

Tanto mais a sociedade é complexa e possui instrumentos extremamente específicos, tanto mais a sociedade tem a capacidade de sobreviver. Um caminhão ajuda bastante no tempo de transportar comida a uma vila em crise, por exemplo. Sem tal instrumento, tal vila poderia simplesmente morrer de fome sem nada pra realmente impedir. Um segundo exemplo é o McDonald’s: imagine como seria difícil coordenar toda a cozinha, todos os pedidos, todas as especificações de pedidos sem uma linguagem complexa. “Tire o tomate do segundo BigMac”. A crescente complexidade e evolução da sociedade, e a necessidade por comunicações pra dar comandos muito específicos, exigiu uma crescente complexidade e evolução na transmissão de informação.

E, claro, a linguagem não é puramente genética. As tradições linguísticas, adequadas ao ambiente, foram selecionadas; as palavras, igualmente; assim como os costumes apropriados também foram selecionados pelo ambiente. A linguagem é, em grande parte, uma evolução não genética, mas cultural — ou seja: mimética. A linguagem é um dos comportamentos compartilhados que copiamos uns dos outros. Aquelas culturas que não copiaram esse comportamento simplesmente não existem mais, ou estão confinadas a jamais prosperarem como nós.

Parte II — O Tribunal

1. Conservadorismo, Reacionarismo, Progressismo.

Estará sendo comentadas as respectivas posições culturais chamadas progressismo, reacionarismo e conservadorismo. Suas doutrinas políticas são desimportantes pros objetivos do presente artigo.

A posição chamada progressismo advoga pela mudança societária rápida e sem se importar com as coisas passadas e presentes; a posição chamada conservadorismo advoga pela conservação dos elementos presentes na sociedade atual com mudança lenta; e a posição reacionária advoga pelo retorno a alguma parte do passado da sociedade em questão.

1.1. Progressismo (ou Igualitarismo)

O progressista tem como valor último o progresso: diz que a sociedade, se progredir, apenas tem a ganhar. E por progresso, se quer dizer mudança. É interessante ver o jogo linguístico que é feito entre progresso e mudança pelos progressistas: está implícito, na definição que eles dão a si mesmos, que a sociedade mudar na direção que eles consideram boa é equivalente à sociedade progredir. Ou seja: a sociedade que aceita gays como sendo algo normal, que condena severamente qualquer tipo de discriminação, que acha que o homem é exatamente igual em todos os aspectos que a mulher, a sociedade que acha normal uma criança arrancar a própria genitália, a sociedade que considera normal mulheres xingarem e agredirem homens e homens não xingarem e agredirem mulheres, a sociedade que se declara contra o racismo e no Twitter tem um monte de negros falando que os outros negros são “palmiteiros” por pegar gente branca etc; essa sociedade, pra eles, é a sociedade boa, é o progresso. É a direção da perfeição. A despeito do fato de essa sociedade que os progressistas desejam ser boa ou não, vamos concordar que a definição linguística de que eles são “o progresso” (ou seja: a direção boa) é uma definição arrogante. Seria como criar uma ideologia chamada verdadismo: essa ideologia é a ideologia de quem segue a verdade. Se subentende, no nome, que todos aqueles que não seguem o verdadismo são a favor da mentira e da falsidade. Isso é uma forma extremamente suja e arrogante de desqualificar os inimigos de ideologia.

A despeito disso, entremos em outros detalhes: o progressismo diz que a mudança rápida na direção que eles querem é progresso. Evidentemente isso não é uma ideologia “solta no ar”. Eles possuem uma justificativa pra isso: acreditam que todos são e devem ser tratados de maneira igual, portanto qualquer tipo de discriminação ou de reconhecimento de diferenças é intrinsecamente mal. Então a sociedade na direção da igualdade de tratamento e igualdade em características reconhecidas é uma sociedade, inseparavelmente, boa pra eles.
Acontece que, em primeiro lugar, há razões pra acreditar o contrário em ambas as afirmações: tanto as pessoas não são iguais, quanto não devem ser tratadas igualmente. As pessoas não são iguais por duas razões: a primeira é a genética e a segunda é a mimética. Pessoas negras, por exemplo, possuem melhor resistência ao sol que pessoas brancas. Elas, por fato, não são iguais em ao menos um aspecto notável e óbvio. O motivo pra isso é evidente: elas evoluíram, por milhares de anos, pra suportarem o sol melhor que as pessoas na Europa, já que na Europa não há tanto sol. O segundo exemplo que pode ser citado é a diferença entre homens e mulheres. Durante milhões de anos, o papel de cada um foi, majoritariamente, os homens caçam e as mulheres cuida do lugar onde residem e dos inaptos à caça (como crianças e doentes). Por causa disso, mulheres desenvolveram ouvidos que captam mais sons agudos que homens (pra perceber bebês chorando), homens desenvolveram melhor inteligência espacial (melhor coordenação motora pra não errar os alvos), mulheres desenvolveram melhor o sistema imunológico (se você nunca notou, mulheres conseguem suportar a mesma doença que homens sem ficarem tão mal quanto eles), homens desenvolveram mais força etc. Cada um se especializou biologicamente nos seus papéis, e por isso existem diferenças físicas entre homens e mulheres.

Da mesma maneira, cada ambiente, ao longo de milhares de anos, exigiu uma cultura e genética diferente pra sua plena sobrevivência. A Europa é um ambiente hostil e frio, então exigiu pelos pra não perder temperatura; e uma certa inteligência social pra conseguir resolver os problemas que o ambiente impunha: pois alguém sozinho normalmente não conseguia resolver. A Ásia, por outro lado, é especialmente ventanosa, então os asiáticos desenvolveram pálpebras mais fechadas e com mais pele pra poeira não entrar nos olhos deles. A África tem sol em demasia, então africanos desenvolveram uma pele que consegue suportar radiação solar; além do fato de que por alguma razão existe um grupo bem específico de africanos que são os mais rápidos humanos que existem. As diferenças culturais entre asiáticos, africanos e europeus, ademais, são também resultantes de uma combinação de suas características genéticas e de seu ambiente formador de cultura. Evidente que existem inúmeras outras características genéticas e culturais pra cada um dos povos: mas, pra ilustrar o ponto de suas diferenças serem existentes, o já citado basta.

Não é necessário entrar no mérito da raça: não importa se raças humanas existem ou não. Apenas é necessários sabermos que existem diferenças genéticas e culturais entre grupos humanos de ambientes diferentes.

Além do fato que cada indivíduo, mesmo entre o mesmo grupo, possui certas diferenças genéticas e culturais uns com os outros. Até mesmo possuem comportamentos não culturais: ou seja, determinados por si mesmos e não inicialmente compartilhados. Então é possível afirmar não apenas que cada grupo de cada ambiente humano é diferente, como também cada pessoa é diferente de cada outra (muito embora possam existir pessoas exatamente iguais, isso não é importante ao debate de agora).

Sabendo que cada grupo de pessoas é diferente, podemos afirmar que é plenamente possível haver mais de um tratamento pra tais grupos. Um pitbull representa 60% de todos os ataques de cachorros a seres humanos, e esse comportamento exige que tenhamos mais cuidado com pitbulls que com outras raças. Reconhecemos um pitbull pela aparência e assim já ficamos céticos e mais cuidadosos na presença de um: é assim que o tratamento diferenciado funciona. Tal tratamento é perfeitamente legítimo a priori, pois se você não sabe se o pitbull confirma a estatística ou não; a posição mais racional é procurar não ter o seu braço arrancado — e absolutamente ninguém que pense corretamente te condenaria por isso. Isso se aplica plenamente aos diferentes grupos humanos.

O mecanismo de discriminação natural em nós nos faz evitar coisas que não conhecemos e coisas que já temos experiências ruins com. Se já tivemos experiências ruins com rockeiros mais de uma vez, evitaremos entrar em contato com pessoas que se vestem de preto. Isso acontece pelo mesmo motivo citado do pitbull. É plenamente racional evitar grupos que você sabe que possuem mais propensão a fazer comportamentos que você desaprova: se você não gosta da banalização do sexo, deveria se abster de contato com funkeiros, que normalmente possuem esse valor. Se você não gosta de controle social, não deveria entrar em contato com fascistas. Assim por diante.

Mas evidentemente: isso é só um julgamento a priori, antes da experiência com o indivíduo em questão. Não é possível manter um preconceito depois que você entrou em um contato com um indivíduo de um grupo que você condena, gostar do indivíduo e manter-se dizendo que o indivíduo em questão é ruim apenas por estar no grupo. Pra exemplificar, suponhamos o seguinte: você entra em contato com funkeiros, e funkeiros banalizam o sexo. Você não gosta que banalizem o sexo, logo você começa a evitar eles. Se, algum dia, você acabar conversando com um funkeiro chamado João, e ele demonstrar que ele próprio não banaliza o sexo de todas as maneiras possíveis, você não pode afirmar que João banaliza o sexo mesmo assim. Se João não banaliza o sexo, mesmo que faça parte de um grupo que banalize o sexo, não é que uma das suas crenças está errada; na verdade, apenas significa que João é um indivíduo que não banaliza o sexo e faz parte de um grupo que banaliza. A maior parte dos indivíduos daquele grupo definitivamente banalizam o sexo, pois a cultura inteira deles é baseada nisso. No entanto, João não banaliza. Negar a realidade individual não faz sentido; apenas ser cético quanto à realidade individual se baseando em seus grupos. Ou seja: pensar que João banaliza o sexo por ser funkeiro faz sentido antes de conhecê-lo, mas depois que você sabe que João não banaliza; não faz sentido mais acreditar nisso.

Então as pessoas não só são diferentes, como devem ser tratadas diferentemente, antes e depois de se conhecer elas. Se deve tratar pessoas diferentemente depois de conhecê-las por uma razão óbvia: não faz sentido tratar sua mãe como você trata seu pai, assim como não faz sentido tratar seu amigo funkeiro como você trata o seu amigo rockeiro. Cada um requere formas diferentes de interação e, sobretudo, cada um deve ter traços bons ou ruins. Tais traços devem ser exaltados e combatidos, em conformidade com a sua vontade e com a gravidade de tais traços.

1.2 Conservadorismo

O conservador tem como valor último a estabilidade: diz que a sociedade, se progredir em passos lentos, apenas tem a ganhar. Afirma-se que “progredir” em determinada direção pode ser feito, mas apenas por novos elementos culturais sendo lentamente absorvidos. Um ceticismo ante à razão, pra chegar em valores societários, é também parte da doutrina. Então os conservadores afirmam: prefirimos a estabilidade do agora em detrimento de andar na direção do que nos parece “certo” racionalmente. Tem-se um apreço ao processo natural da criação da cultura e não se quer que tal mecanismo seja jogado fora em prol de uma “justiça social”, “igualdade” ou qualquer coisa do tipo. Mas é notável duas coisas nessa posição: ela dispensa julgamentos entre o certo e o errado. Se preocupa apenas com manter o que é natural à sociedade, de início. A segunda coisa é que a definição de “natural” à sociedade não se resume apenas às vontades humanas e ao ambiente.

Existem conservadores que, pra resolver a primeira coisa citada, são também cristãos, pagãos etc. Deixam sua doutrina moral na religião ou em alguma filosofia enquanto sua doutrina social fica no conservadorismo. Não é pretendido comentar sobre tais religiões; apenas sobre a parte conservadora do conservadorismo. Em suma: sua doutrina social/cultural.

A segunda coisa citada é, literalmente falando, uma problemática: se, por exemplo, o estado criar uma instituição que treina pessoas asiáticas pra morrerem e mantém tal instituição por 400 anos, essa instituição no final torna-se adaptada pela cultura. A cultura se ajusta a tal instituição e ela se torna “natural”: mas aí há um problema. Não é tudo que parece ser natural, cotidiano, normal que é algo com origem na natureza de fato. Apenas a coisa ser um costume ou algo cotidiano não a legitima por si mesma como algo natural pois, como vimos, um costume absurdo e incondizente com a natureza pode muito bem se manter por milhares de anos sem ninguém notar. Não é porque, em primeiro lugar, que ele se manteve, que ele é natural. Pode apenas ser um caminho que começou de maneira antinatural e acabou de entranhando na sociedade; assim como pode também ser uma força lutando contra a natureza permanentemente que acabamos tomando como costume por erro de análise.

Apenas defender um costume por defender, sem observar suas origens históricas e verificar elementos ilegítimos em sua existência, é uma grande burrice que os conservadores cometem. Não os culpo, pois não têm uma metodologia de análise pra tal fim; e portanto seria impossível descobrirem tais coisas.
Existe duas maneiras pra descobrir a origem dos costumes naturais e antinaturais: verificar se existe alguma instituição coercitiva enforçando certo costume de maneira permanente e verificar se alguma presença ideológica implica na destruição do próprio mecanismo de ajuste social da cultura com a natureza e com o homem.

A primeira forma de identificar é extremamente óbvia: sabemos que a sociedade se ajusta à natureza de maneira natural, então sabemos também que qualquer coisa que precise de força contínua pra continuar sendo um costume está indo contra a natureza.

Por exemplo: no país fictício chamado Abortônia, o estado mantém o seguinte costume: todos os terceiros, sétimos e oitavos bebês nascidos no mês serão mortos. Não é difícil concluir que, sem o estado forçando tal costume, o costume não existiria. Ele é, portanto, antinatural.

Num outro país igualmente fictício chamado Clodovilândia, o estado faz com que todos usem cintos de segurança ao entrar em seus carros: não é, novamente, difícil concluir que, sem o estado pra enforçar tal costume; pouca gente o faria, de maneira que não seria plenamente cultural, mas bem mais particular ou subcultural. Isso é também uma situação antinatural (mesmo que eu pessoalmente acredite que botar o cinto antes de andar de carro é algo bom e eu o faça).

No nosso terceiro exemplo, no país fictício chamado Bananil, o estado controla o currículo de todas as escolas, públicas e privadas, de maneira a incitar indiretamente determinadas metodologias de pensamento e análise em seus alunos. Não é, de maneira evidente, difícil concluir que, se não fosse o estado usando a violência pra controlar os currículos das escolas, as pessoas aprenderiam metodologias de pensamento e análise totalmente distintas uma das outras. A homogeneidade de pensamento forçada pelo estado, ou seja: aquilo que chamamos de senso comum é, portanto, antinatural.

Se ainda não foi notado o padrão: qualquer controle social do estado é, por definição, antinatural, uma vez que ele força a cultura em determinada direção e faz esforço contínuo pra que ela não deixe de ir em tal direção (pois se está lutando contra a natureza). Apenas uma cultura completamente livre de agressão institucionalizada contra si pode ser chamada de cultura natural, como os exemplos acima demonstram.

A segunda forma de identificar um costume antinatural é ver se a origem ideológica dele é, implícita ou explicitamente, contra o mecanismo de ajuste. Um exemplo de tal costume é um costume que seja baseado na antidiscriminação. O fato de que, hoje em dia, piadas racistas e homofóbicas são radicalmente consideradas más, não se deve a um ajuste da cultura; mas sim a uma origem ideológica no igualitarismo, que se diz “contra qualquer tipo de discriminação”. Mas como já vimos, discriminação é natural à cultura, então qualquer costume que seja inerentemente antidiscriminatório será, também, inerentemente antinatural.

Se tiver curiosidade de saber de onde o igualitarismo veio: veio do iluminismo. O iluminismo é a origem de todo o desajuste cultural que existe hoje em dia.

1.3. Reacionarismo

O reacionário tem como valor último a estabilidade e a ordem: diz que a sociedade, se regredir em alguns aspectos e, em outros, se manter no status quo, apenas tem a ganhar.

É praticamente óbvio que essa doutrina está sociologicamente errada de princípio. O valor fundamental dela, que é “se manter parado” quanto à cultura, não faz sentido, tendo em vista que o próprio ambiente muda. Se tentarmos nos manter parados eternamente, o que vai acontecer não é uma sociedade funcional; mas, na verdade, uma sociedade totalmente desfuncional em relação ao ambiente: pois, enquanto estaremos com o costume de se banhar em água gelada uma vez por mês e a próxima era do gelo chegar, absolutamente toda a sociedade morrerá de doenças do frio.

No entanto, o reacionarismo pode estar certo em algumas situações: se, por exemplo, algum costume atual estiver corrompido por ideologias contra a própria ideia de uma cultura, por organizações coercitivas etc (os dois parâmetros que foram apontados pra identificar costumes nocivos); devemos voltar ao passado pra resgatar os costumes corretos. Uma sociedade que esteja corrompida por costumes que o estado mantém pela força, ou que, pior, esteja corrompida pelo igualitarismo/iluminismo, deve ter os costumes gerados por tais ideologias e agentes expurgados. O retorno ao passado não é em si mesmo bom, porém no caso onde o futuro é a destruição do propósito da cultura; ele se torna uma ferramenta útil.

O primeiro passo pra salvar a cultura do igualitarismo é reconhecer que as pessoas são desiguais e devem ser tratadas diferentemente. Isso é um ato reacionário. O segundo, igualmente reacionário, é rejeitar absolutamente toda a cultura forçada pelo estado em nós: apenas a cultura natural deve permanecer.

2. Contra o Consumismo

O consumismo é uma palavra usada pra designar duas coisas: a doutrina que diz que apenas ser felizes enquanto consumidores, e a doutrina que diz que temos o dever de consumir pra manter “a economia girando”.

A doutrina que diz que apenas seremos felizes enquanto gastarmos é falsa: não é, na verdade, possível, ser feliz gastando infinitamente; porque a própria ciência econômica já refutou tal conceito: a utilidade marginal decrescente nos mostra isso. No deserto, após quatro dias sem tomar água, ao ver um copo d’água, você ficaria extremamente satisfeito. “Eu não irei morrer agora!” — pensa. Você bebe o copo d’água e fica satisfeito. Se você encontra o segundo copo d’água no deserto, você também o bebe, pois ainda resta sede, mas usa uma parte dele pra lavar suas mãos e pés sujos. Se encontrar um terceiro, você o joga atrás do pescoço e no cabelo pra se refrescar no calor do deserto; até que chegue no momento onde encontrar um copo d’água ou não não fará diferença pra você — o momento onde a utilidade do copo será zero. Suas vontades materiais possuem, todas, a propriedade de seguir a lei da utilidade marginal decrescente. Se você quer muito um livro, e a primeira coisa que vai fazer quando tiver dinheiro é comprá-lo, você ficará bastante feliz na primeira vontade realizada. Assim que você tiver um pouco mais de dinheiro, vai comprar o patinete, que você queria também, mas não tanto quanto o livro. Pra cada gasto mais que você tiver que realizará seus desejos, mesmo que seja um gasto ilimitado, você se sentirá menos satisfeito. Sendo assim: cada vez que você gasta em algo que quer, vai estar menos satisfeito que da última vez que gastou (a menos que um novo desejo importante e grave tenha surgido). Não é, portanto, uma fonte confiável e estável de felicidade um gasto eterno: é, na verdade, a pior fonte de felicidade possível, já que você apenas vai estar feliz enquanto estiver usufruindo dos bens que comprou, e usufruir de tais apenas é possível por tempo limitado e, cada próxima usufruição será menos satisfatória que a última. Assim: gastar não pode lhe trazer felicidade, apenas momentaneamente — e cada vez menos.

A doutrina que diz que devemos consumir de maneira imediatista pra manter a economia girando não nos é, ademais, uma doutrina natural. Não é uma crença que nascemos com, nem uma crença gerada pelo ambiente. É, na verdade, uma crença que nos é impingida através de meios culturais indiretos. Como analisamos antes: no país fictício chamado Bananil, o governo controla os currículos da escola e faz sua população ter uma determinada metodologia de análise e de pensamento — e isso é algo antinatural. Se os meios culturais estão corrompidos pelo estado, é natural que haja alguns elementos culturais que sejam de conhecimento comum e sejam, simultaneamente, errados e antinaturais, ou pelo menos apenas antinaturais. A economia pode se manter funcionando de duas formas: ela pode ser uma economia próxima em diferença temporal entre consumo e produção e pode ser uma economia bastante diferente temporalmente entre consumo e produção. A atitude de gastar todo o dinheiro imediatamente pra fazer a economia girar só faz com que os produtores da economia produzam coisas simples e rápidas de produzir — ou seja: menos complexas. A criação de riqueza é reduzida, pois os consumidores forçam os produtores a preferir rapidez do que complexidade/qualidade. Demora-se mais tempo, de maneira evidente, pra produzir coisas boas e difíceis, do que pra produzir coisas rápidas e de baixa qualidade. O tempo que toda a economia guarda o dinheiro é visto pelo produtor como tempo-pra-produzir. Se, por exemplo, no país fictício chamado Corrimentolândia todos poupam e gastam pouca coisa, os produtores vão fazer produtos inovadores, complexos e bons (que exigem várias pessoas altamente qualificadas pra operar as máquinas, e tal treinamento exige tempo) pra tentar fazer os consumidores gastarem o que tinham poupado com eles. Eles, efetivamente, procuram criar o produto mais incrível pra tentar forçar o cliente a, assim que ver o produto, não ter outra opção além de gastar nele. Se a Corrimentolândia começasse a implantar políticas de aceleração de consumo, eis o que aconteceria: os produtores iriam produzir coisas mais rápidas, piores e menos complexas a fim de conseguir atender às rápidas demandas dos consumidores. Então, na verdade, a questão entre gastar de maneira imediatista e desesperada e poupar como um velho chinês se resume a se a população quer coisas complexas e boas a custo de esperar um pouco, ou se querem tudo ruim e rápido agora. Não é uma questão de acelerar ou desacelerar a produção. A quantidade de empregos e de produtos não é muito variável, porém o tempo pra se alcançar tais empregos e produtos é. Produtos e empregos de maior especialização e qualidade é o que existiria numa economia mais complexa e menos acelerada do ponto de vista de diferença temporal consumidor-produtor. A crença, portanto, de que “ou gastamos como neandertais, ou a economia entra em colapso” é falsa. Além de que a afirmação que “consumimos do jeito que consumimos por causa do capitalismo” é, igualmente, falsa. Apenas consumimos por causa das políticas inflacionistas do governo, do keynesianismo (cálculo de aceleração da economia através de gastos públicos, subsídios a empresas de curto prazo etc) na hora de gerenciar a economia etc. Existem centenas de incentivos ao consumo feitos pelo governo que nos forçam a gastar da maneira que gastamos. A culpa não é do livre mercado, mas sim do governo, a existência do consumismo. Claro que pode haver consumismo no livre mercado, mas nas condições atuais, pode-se dizer com absoluta certeza que é mais certo dizer que o governo causou o consumismo, que o mercado (uma vez que o governo mantém, de maneira indefinida e imparável, seus programas pra incentivar e forçar a população a gastar com a desculpa que “isso acelera a economia”).

3. Com Quem Devemos nos Importar?

Existem duas posições advogadas pela mentalidade popular: a posição de que você deve se importar com absolutamente todo mundo, e a posição de que você não deve se importar com ninguém além de si mesmo. Respectivamente, de maneira comum, chama-se a primeira posição de altruísmo e, a segunda; de egoísmo.

Se você levar o princípio do altruísmo ao seu máximo absoluto, pra cada ação que você fizer, você vai antes pensar se isso ajuda todas as outras pessoas. Ao dividir um pedaço de bolo, por exemplo, você irá primeiro dar a todas as outras pessoas — porém é notável que as outras pessoas adotando o seu princípio de altruísmo radical, também darão o pedaço de bolo aos outros invés de comê-los eles mesmos. Assim: o bolo nunca é comido por ninguém, porque ele é repassado infinitamente. A posição do altruísmo radical é logicamente absurda. Por outro lado: se você pegar o pedaço de bolo pra si mesmo antes de dar aos outros, não há nenhuma contradição lógica. É plenamente possível — tanto você comer o bolo inteiro, quanto você comer uma parte do bolo, sozinho.

Porém: não é tudo que é logicamente possível que é o mais correto, ou que é o mais adaptado ao ambiente. Lembremos que é logicamente possível existir um homem com uma banana no lugar do pênis. Apenas dizer que o egoísmo radical é logicamente possível não implica nele ser a melhor alternativa, ou mesmo nele estar certo. Afinal de contas: temos, de maneira evidente, nossa parte individual em nós mesmos, bem como nossa parte coletiva — o ser humano é inerentemente, enquanto vive na sociedade, detentor de dois sentidos pra si mesmo: o sentido próprio, e o sentido societário, de vida. O sentido próprio do que deve ser a vida do indivíduo é construído por si mesmo, não pelos outros. O sentido societário, por outro lado, do que deve ser a vida, é construído pelo seu entorno. A maioria das reclamações modernas sobre o trabalho ser tedioso, não ressoar no indivíduo, não ser compatível com o valor dos trabalhadores em questão é fundamentada numa separação das 8 horas de trabalho do indivíduo como sendo uma parte societária enquanto o indivíduo deseja ter um sentido próprio pra sua vida. Ou seja: o indivíduo sempre gostaria de passar o máximo de tempo possível cuidando de suas aspirações pessoais. Por isso as pessoas dizem “trabalhe com o que você ama”: o que você ama são suas próprias aspirações, enquanto o que você deve aos outros por viver em sociedade é normalmente tedioso. É chato passar 8 horas ligando pra desconhecidos pra avisar que a operadora de telefone tem um novo plano pra oferecer a eles. É, no entanto, interessante, passar 8 horas pintando um quadro, se você gosta de pintar. É, no entanto, interessante, passar 8 horas escrevendo, se você gosta de escrever. A diferença entre a sua vida pessoal e a vida societária é que a vida pessoal é o que você faz porque você gosta e a vida societária você faz porque, sem fazer, você não pode desfrutar dos benefícios da humanidade.

O egoísta radical afirma: apenas faça o que quiseres. A sua obrigação com a sociedade é nula, e mesmo assim podes viver em sociedade de maneira plena. Mas isso é uma afirmação incorreta. Primeiro que, se você não servir aos interesses dos demais através do trabalho (você gostando do trabalho ou não) ou de empreendedorismo, você não ganhará dinheiro pra sobreviver. Segundo que, se os outros reconhecerem você como um cara que não se importa com ninguém além de si mesmo, eles não te ajudarão na busca dos seus próprios objetivos. A sociedade e a civilização tem seus benefícios inteiramente baseados em trocas: você serve ao próximo no que você é bom, e o próximo serve você no que ele é bom. Os dois acabam na vantagem no final. Portanto: com a finalidade de ter a melhor vida possível, aquele que segue o egoísmo radical não terá sucesso. Então o egoísmo é sociologicamente/materialmente inviável, enquanto o altruísmo é em princípio logicamente impossível.

Se, radicalmente falando, nenhuma das duas alternativas é viável, deve haver ou um equilíbrio entre elas, ou uma terceira alternativa. A terceira alternativa se consiste em se importar apenas com aquilo que você naturalmente se importa: seus amigos e sua família. Não é à toa que você não se importa com desconhecidos; é por um motivo: gastar toda a sua energia e tempo ajudando todo mundo que tem problemas que você vê na rua é uma posição que viria a custo de toda a sua vida individual. Apenas é possível manter sua vida individual enquanto você restringe o número de pessoas com quem você se importa e a quem ajuda. Evidentemente: você não precisa se importar com colegas de trabalho, de classe, de curso etc. Eles estão na sua vida de maneira involuntária: você não escolheu eles estarem na sua vida e, muito menos, eles são necessários à sua vida. Seus amigos podem ter vindo de algum ambiente que você frequentou, mas se são amigos apenas enquanto você frequenta tal ambiente, sua amizade não é real e sim involuntária. Mas notemos que, não é porque você não tem a necessidade de se importar com tais, que você deve os tratar como lixo também. Não é preciso ofender alguém apenas porque você não se importa: mantenha uma neutralidade amigável, no mínimo, enquanto estiver lidando com relações involuntárias. Assim como, se você não gostar da sua família naturalmente, não é necessário ser bondoso com eles: apenas na medida em que você não torna o ambiente desagradável, uma vez que conviver com gente que você fez te odiar é ruim pra si e pra eles. Se importe e se sacrifique, então, apenas por aqueles que você gosta naturalmente. Essa é a posição mais adequada na problemática do egoísmo vs altruísmo.

4. Interesses Privados Podem ser Criticados?

“Meu corpo, minhas regras” é um argumento muito comum que confunde o fundamental direito à liberdade com a libertinagem. Se é verdade que temos o direito de nos vestir como quisermos, não segue disso que é verdade que ninguém possui o direito de nos criticar por nos vestirmos como tal. Na verdade: tal argumento é um salto lógico. É verdade que somos livres pra fazermos o que quisermos — no entanto: a igual liberdade de expressão e ação do outro permite que sejamos criticados por fazer algo e que sejamos ostracizados caso algo que façamos ao outro seja considerado, por ele, realmente grave. Logicamente falando, afirmar que eu sou livre, logo ninguém pode me criticar, é como se eu afirmasse “eu matei um cachorro — e essa é a minha liberdade. Portanto você não pode deixar de falar comigo apenas porque eu exerci a minha liberdade”. É absurdo dizer que a liberdade torna tudo aquilo que fazemos certo, ou mesmo, que torna tudo aquilo que fazemos incriticável. O direito à liberdade não implica no direito a fazer coisas sem ter críticas e boatos. A mente das pessoas não pertence a você, bem como suas opiniões e palavras. A habilidade de criticar e de ostracizar aquilo que consideramos ruim é absolutamente fundamental pro convívio em sociedade, aliás, pois melhora a nossa própria vida e a de outrem. Se eu não pudesse te dizer que, antes de você ir na entrevista de emprego, você deveria cortar o cabelo, porque a empresa que você vai fazer entrevista é rígida com essas coisas; você jamais teria o conhecimento que a empresa que vai te entrevistar é rígida com essas coisas, e por conseguinte, jamais poderia escolher corretamente. Quando alguém te critica, a pessoa apenas tá te dando uma informação que ela acredita que seja verdade e que possa te ajudar a navegar pelo mundo e fazer a decisão certa. Está implícito ao homem que diz pra você ter cuidado com andar de saia curta no bairro dele, que existem muitos tarados no bairro dele, então ele te comunica de maneira indireta pra você ser mais cautelosa quanto à vestimenta e quanto à prestar atenção no bairro dele. Claro que existem pessoas que te xingam gratuitamente invés de fazer críticas construtivas, e tais pessoas normalmente só querem o seu mal de fato, porém mesmo elas possuem este direito: e você possui o direito de xingar de volta. Ou, se quiser, o direito de ignorá-las completamente. Porém você deve ter cautela ao analisar a intenção da crítica da pessoa: muitas vezes que nos sentimos ofendidos, as pessoas apenas queriam seu bem com a crítica, e não enxergamos isso por causa de nosso orgulho.

Parte III — Conclusão

Devemos defender a desigualdade natural, pois a igualdade simplesmente ignora a realidade das coisas e ignora o mecanismo de criação da cultura. Não devemos defender as desigualdades antinaturais (causadas pelo estado).

Devemos ser conservadores e reacionários: conservadores onde identificarmos que a origem do costume não é o estado nem a doutrina progressista; e reacionários onde identificarmos a origem dos costumes ser o estado ou o igualitarismo.

Devemos defender a discriminação e a intolerância, enquanto tais forem racionais: referentes a grupos considerados ruins, e não a indivíduos específicos que participam de tais grupos, caso eles não sejam ruins como os grupos. Mas caso sejam, ou caso não se tenha nenhum conhecimento a respeito, a discriminação é perfeitamente válida.

Jamais devemos podar a habilidade das pessoas de criticar — apenas, se estiverem erradas, refutar elas.

Consumir de maneira imediatista e impensada é uma atitude incorreta de busca de felicidade e não se faz necessário pra sustentar o crescimento econômico de qualidade.

Não devemos ser egoístas nem altruístas, mas se importar com quem gostamos ou de quem aprovamos os valores e ações.

Makino

Written by

Makino

Um defensor absoluto da verdade, justiça, voluntariedade e da honestidade.

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