AS MENTIRAS DE WESTER Vol.I

Dois

Meu nome é Maria da Glória Hillson. Sou de uma linhagem de alemoas bravas.

Se eu estivesse viva, teria 44 anos. Morri muito nova, e acredito que o lado de cá é um pouco entediante. Quase sempre. Mas quando comecei a ver a vida dos que estavam a minha volta, desse lado, me senti abençoada. Renovada. Sempre vivi muito bem, tive um filho somente. Adotado. Não podia ter filhos. Acredito que frustrei muito meu marido, James Alcano. Rico, lindo e um pai exemplar. Mas que quando se viu tendo que cuidar sozinho de uma criança de 8 anos, acabou se perdendo em algumas situações que não valem a pena falar agora.

Meu foco aqui é falar sobre meu filho. Wester. Menino bom, mas que também foi se perdendo ao longo do caminho árduo que chamamos de vida. Sem ser tão óbvia, mas já dizendo que, meu filho não é um menino mau. Ele faz coisas más. Acredite. Quando ele tinha 3 anos, tacou fogo em uma caixa cheia de gatinhos recém-nascidos. Achávamos, eu e James que um dia isso seria esquecido. Quando tive meu primeiro avc ele sofreu muito. Lembro que ele tinha 6 anos, mas as longas horas em um hospital o deixavam tão aflito, tão cansado. Me deu pena. Mas aí, dois anos depois eu bati as botas.

Deveria ter colocado uma bala na minha cabeça. Ver o sofrimento de Wester, acabou me pegando de jeito, o sobrenatural não consegue manter você sem sentimento por tanto tempo. A bala teria me levado para algum lugar mais escuro e eu não o veria tão cedo. Mas seguimos firmes.

Com 10 anos, Wester descobriu que tinha um gosto peculiar. E não era por mulheres. Nem por homens. O gosto peculiar de Wester era fazer animais sofrerem. Ele adorava ver os bichanos agonizar. E tinha um sonho de abrir uma casa onde mau tratos acontecessem de forma espontânea. Um tanto doentio. James de tão ocupado no trabalho, não conseguiu ver isso em seu filho.

Quem via Wester tão fofinho na escola, ou em reuniões da alta sociedade, não sabia o que ele fazia nos intervalos e na saída. Ele maltratava animais. Algo que começou tão cedo, foi ganhando força quando ele ficou com a primeira menina.

Mariana, 13 anos. Acredito que a experiência pra ela foi muito pior. Ele tirou sangue dos seus lábios, alegando gostar de carnificina. Mariana, correu 20 km. Mas na escola ninguém acreditava que o príncipe encantado seria assim.

A segunda vítima não sobreviveu.

Marcos, 15 anos. Após o treino de futebol, Wester convidou o menino para um suco em sua casa. Marcos era gay enrustido, e Wester ainda não havia experimentado a ideia.

— Como é ser gay Marcos?

— Como assim, Wes?

— Ué, todos zoam você no vestiário e você não retruca. Deve ser viado.

— E se eu for? Isso vai interferir na nossa amizade?

— Claro que não! — Ele se aproximou tirando a calça de Marcos.

— Que cê tá fazendo? — Assustado indagou.

— Deixa eu experimentar. — Então começaram a se tocar, Marcos pirava em cada chupada de Wester em seu pau. Marcos então por sua vez, ficou apaixonado pelo menino. E acredito que no fundo, Wester também havia gostado. Mais do que com Mariana dois anos antes. Apesar que, Mariana não fazia o estilo dele. Não justifica a mordida, mas enfim.

Passado alguns dias, já no finalzinho daquele ano, Marcos convidara Wester para um piquenique no parque. Coisa de menininha. Wester que tinha acordado num mau dia, respondeu de forma grosseira. Deixando Marcos, triste.

DIÁLOGO VIA MENSAGEM DE TEXTO
Modelo Celular Wester: Motorola Razr V3
Modelo Celular Marcos: Motorola V120x specs

— Marcos, sério? Piquenique é coisa de menininha!

— Nossa Wes, tá bom, não convido. Eu vou sozinho. Eu convido outras pessoas.

— Acha que ficarei com ciúmes? Sabe quantas pessoas querem ter o que você já teve de mim? Todas daquele colégio. Você é um mero filho de gari. Fique na sua.

Acredito que meu filho precisava de mãe. Tenho que pausar pois pra mim, é difícil partilhar isso. Meu filho aos 15 anos tinha se tornado um arrogante e mimado humilhando as pessoas que não tinham a sorte dele.

Continuando.

— Olha Wester, fique na sua você seu merdinha! Acha que dinheiro compra tudo? Que dó. Sexo melhor que o seu, encontro em qualquer esquina. E sim, meu pai é um gari e o amo. Tenho muito orgulho dele. Seu infeliz. Deixa eu te encontrar, vou encher sua cara de soco. Seu filho da mãe! Pensa que é quem? Babaca!

— Risos. Muitos risos.

Depois da humilhação, Marcos se sentia sujo por ter entregue seu coração a um mau caráter como Wester. My Immortal tocava no rádio e era a explosão de Evanescence no mundo todo. Marcos chorava e pensava em cometer diversas besteiras. Coisa de adolescente, sabe? Adolescente quando se desilude acha que o mundo todo tem que pagar e que morrer é a melhor forma de protesto.

Eles nunca mais trocaram olhares. No último ano do Ensino Médio, Marcos soube de diversos casinhos de Wester e que quase todos terminaram em briga ou seja, muita baixaria. Marcos ainda gostava dele, óbvio. Um dia recebeu uma mensagem.

DIÁLOGO VIA MENSAGEM DE TEXTO
Modelo Celular Wester: Blackberry Pearl
Modelo Celular Marcos: Nokia 3310

— Nossa, como você tá bonitão. Até músculos criou. Achei que viesse me bater aquela vez lá, mas nem veio. Que pena!

— Quem?

— Ai Marquinhos, não se faça. Sabe que é o melhor sexo da sua vida.

— Aff. Que nojo.

Wester enviou uma foto. Ver no site da tim.com.br/midia?

— Não tenho um blackberry, não posso visualizar.

— É meu pau. Sei que sente saudade dele.

— Cara, você é um babaca né? Credo. Parecia ter futuro.

— Futuro será meu pau no seu cu.

— Credo cara. Cresce.

— Ai, falou a adulta. Bichinha sem graça. Pobre é pobre, não adianta né? Muito pobre. Só rio de você. XX.

— Rica. Fina. Vai a merda.

Wester pensou em ameaçá-lo. Mas como disse, pensou bem. Não ia se queimar. Esperou uns dias, e no torneio de escolas, pegou Marcos se beijando com outro menino. Wester ficou tão furioso que acabou indo até Marcos.

— Nossa, me trocou por um bem lindão né? Da favela.

— Cara, eu já disse pra você sair de perto. — Vai se afastando e Wester o pressiona.

— Não gosto de perder. Não gostei como acabou.

— Continua humilhando as pessoas, você vai bem longe!

— Vem cá, me beija.

— Sai Wester, sai daqui.

— Quero um beijo, só um beijo porra!

— Não quero. Sou filho de gari esqueceu? Vai pra merda!

Sem pensar, Wester começou a segurar no pescoço de Marcos, o afogando. E ele ficando sem forças, foi se esvaindo, sua vida ia se esvaindo enquanto Wester em um breve momento de raiva o assassinava. E eu aqui, virava as costas e chorava. Não podia fazer nada. E ninguém os viu naquele cantinho. O cantinho da morte.

Wester consumiu o corpo em chamas no terreno baldio próximo a escola. A escola em polvorosa dias depois a procura de Marcos. Ninguém viu. Ninguém sabia de nada.

Wester continuava sua vida do jeitinho que sempre levou. Ele se formou no Ensino Médio. Entrou pra faculdade de Engenharia Civil. E nunca nem em silêncio, nem sua alma comentava aquele fato. Com o fogo, ele queimou todo o sentimento e aquilo se tornava loucura.

Desde pequeno ele contava mentiras. Contava mentiras bobas. Pra ter atenção. Mas com tudo isso passando na cabeça, acredito que a mentira maior que contou foi dizer que amava o próximo. A maior de todas. Wester não ama ninguém. Suas mentiras vão crescendo a cada dia. Quando ele deseja coisas boas no final do ano, quando ele diz amar os meninos e meninas que transa, quando diz que paga impostos, quando diz ao seu pai que será a última vez que passará a perna na empresa, quando diz que sente saudades de mim, sua mãe.

Suas mentiras são perigosas.

Já fazem 10 anos que Marcos desapareceu e ninguém nunca mais o viu. Wester foi até a escola para prestar condolências ao seus pais.

— Meus sentimentos sempre Seu Ramos e Dona Marlete.

— Obrigada querido. Você vem todo ano. Você é um anjo.

— Eu tinha brigado com Marcos uns anos antes, mas sempre gostei muito dele.

— Ele também sentia o mesmo.

— Sério? — Pela primeira vez, vi meu filho assustado de verdade.

— Sim. Ele escreveu várias cartas pra você. Achei alguns anos depois. Estamos morando na cidade vizinha.

— Nossa, to chocado. Quero ver essas cartas. — Aflito, trêmulo Wester estava.

— Sim. São todas de amor. Ele dizia amar o menino proibido. O menino do blackberry. — Ela começa a chorar.

— Calma, calma Dona Marlete. Esse desaparecimento e perda foi difícil pra todos nós. Se eu pudesse voltar no tempo… — abraçando ela e pensando.

Pela primeira vez Wester esqueceu a riqueza, esqueceu as mentiras, chegou em casa, sentou no sofá e começou a chorar. Começou a se arrepender de algumas coisas, de alguns pecados.

Mas para minha tristeza, foi só por uns minutos.

Voltou a sua rotina. Voltou as suas mentiras. E encontrou uma nova vítima, mas dessa vez prometeu fazer diferente. Mas sabemos que isso não será diferente.

Foi no feriado de 7 de setembro, ele resolveu visitar a cidade vizinha e aproveitar para ler as cartas que Marcos escrevia pra ele. Chegando na cidade, começou a encarar os meninos, focando sempre nos mais novos. Queria sexo. Sexo selvagem.

E então, depois de uma boa olhada na multidão enquanto a folia da festa iniciava, encontrou sua presa. Um menino lindo, apurado das calças que se preparava pra mijar ali por perto, foi então que ele, resolveu atacar. Olhar sedutor, histórinha fofa, ver as estrelas. Meu filho é um psicopata. E isso me deixa mais triste ainda porque daqui infelizmente não posso fazer nada. Essa coisa do sobrenatural acaba por me deixar confusa várias vezes. Queria mandar uma carta no centro espírita, mas na maioria dos casos né, não rola. Aí já tentei me comunicar pelas cartomantes que ele visitava, charlatonas malditas, não me ouviam. Darei um jeito. Pois não posso deixar ele ceifar mais uma vida. E vejo no olhar, que esse menino irá sofrer também.

***foto ilustração 1: Don’t Lose Your Head — Rosie Hardy
foto ilustração 2: 20161129–122410–163 — James Kuhn
música my immortal — evanescence (2004)

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