AS MENTIRAS DE WESTER Vol. I

Doze

PAPA WAS A ROLLING STONE

****Com a música dos The Temptations — Papa Was A Rolling Stone, como plano de fundo, iniciamos esse capítulo e o mix de cenas.


Bruno deitado na sua cama com Wester dormindo. Ele fica encarando Wester dormir. Olha no criado mudo, fica encarando Wester. Olha de novo pro criado mudo.

Harrison acorda ao lado de Jacks. Fica olhando sério pra fora da janela. Começa a chover. Ele sorri e deita novamente ao lado de Jacks. Que acorda.

Carolina acorda sozinha. Pega o celular, pensa em mandar mensagem para Fares. Que desligou o telefone. Esta em casa, no seu quarto, pensativo olhando pro nada.

May acorda Junior para fumar um beck. Ele a beija e brinca com seu cabelo. Ela levanta e olha pra fora. Começando a chover.

Maurilio acorda ao lado de um garoto de programa. Ele vai até a janela do seu quarto. Nu. Começa a se masturbar na janela.

Renata pesquisando na internet fatos sobre o desaparecimento de Marcos. Toma várias xícaras de café. Encontra uma notícia que diz “Família desacreditada segue o caminho que assim Deus o quis”, ela fica refletindo.

— Deus o quis? Sério que li isso?

Os entrevistados pelo delegado não aparecem na mesma sala. 
 A entrevista é individual.
Dona Cândida: Seu delegado, já lhe disse que as coisas são complicadas por aqui. O senhor veio de longe para tentar resolver um mistério que para nós só acrescentou mais ainda a certeza que tínhamos.
Policia: Como assim?
Erasmo: Tenho certeza que eles mataram.
Keila: Sim. Eles mataram sim.

DUAS SEMANAS ANTES DA FESTA ANUAL DO BOI RALADO.

Bruno sai correr. O foco no seu olhar de tristeza tem de ser nítido. Ele esta muito triste. Corre mais. Começa a gritar de raiva. Expõe pra fora. Volta ao estado normal. Chora. Corre mais.

Harrison saindo do ap de Jacks, deixa Maurilio curioso. Ele fica encarando Harrison, que não nota.

Carolina sai para trabalhar e acaba se molhando até chegar ao ônibus. Ela manda mensagens para Fares que visualiza e não responde.

“Preciso de você!”

“Me perdoa pela noite passada. Mas você gostou de me ver bêbada, confesse”

“Sou uma pervertida mesmo”

“E burra por continuar a te mandar mensagens”

Fares lê.

E relembra da transa no chuveiro.

— Vai sua vadia — ela chupando ele — Quero ver se você é mesmo uma putinha como diz.

Ele pega ela pelos cabelos e leva até a cama.

— Gosta de apanhar?

Pega a cinta e bate nela. Ela melhora um pouco da bebida, se assusta com as atitudes dele. Ele começa a colocar força nas cintadas.

— Gosta disso?

— Para Fares. Não to te reconhendo.

— Ah sim. Claro porque você é a vadia que desconta em mim a raiva de fingir ser o que não é — beijando e socando nela.

— Para Fares.

— Não vou parar, vou foder você até você lembrar como eu sou um idiota em ser romântico e todo certinho com você. Você quer descontar raiva, desconta agora. No meu pau!

Fares fica olhando pro teto. Parado. Refletindo sobre tudo o que aconteceu.

Maurilio chega à casa de Wester, curioso.

— Vi aquele careca saindo da casa do Jacks hoje cedo.

— E eu com isso?

— Porra ele te dedurou Wes.

— O que é dele tá bem guardado!

— Começando a desconfiar desse seu Gran Finale.

— Por quê? Só porque você é um bostinha que não deu nada na vida.

— Não gosto quando você fala assim.

Renata chegando à casa de Wester, sem querer vê os dois conversando e se abaixa na janela da frente da casa.

— Por que peixinho? — Vai pra cima de Maurilio e o beija — Hoje prometo que farei um sexo inesquecível.

Renata PASMA. Não encontra o celular na bolsa. Se perde. Fica branca.

Não sabe se corre.

Se fica.

Se grita.

PASMA.

Keila: Eu fui culpada por apresentar Maurilio a Wester.
Erasmo: É a primeira vez que falamos sobre Wester?
Dona Cândida: Um mentiroso nato. Simples.

Jacks chegando à escola encontra Renata sentada, parada, perplexa.

— Nossa você viu um fantasma ou algo do tipo sobrenatural?

— Vi. Vi a morte. Do nosso amigo.

— Quê?

Renata mostra a foto dos dois agarrados no sofá. A foto não esta com a melhor qualidade, não dá pra discernir se é Wester e Maurilio. Um leigo diria isso claro; não quem conhecia Wester.

— Jesus. Como assim Rê?

— Fui lá pra ver se o Bruno estava com o traste e me deparo com isso. Na sala dele. O Bruno poderia aparecer do nada.

— Sim.

— Outra coisa que eu descobri. Onde a tal Mariana que aparece em quase todas as fotos que vi na casa do Marcos trabalha em Rio Negrinho. Pelo jeito ela desgostou da vida.

Renata mostra as fotos.

— Nossa amiga, você tá bem de detetive.

— Não é só pelo Bruno. É porque acolhemos no nosso grupo com todo o melhor coração; mas desde que aquela Aline disse que ele seria assassino, fiquei cabreira e também minha mãe de cabeça disse no terreiro que eu ia descobrir algo muito podre.

— Eu to chocado. De verdade. Achei que esse Maurilio fosse ativo também.

— O Wester é ativo?

— Não sei. O Bruno não me conta as intimidades dos dois.

— Achei que ele fosse passivo. Ele também não comentou comigo. Aí ó, perdemos nosso amigo mesmo ein.

— Nossa essa conversa tomou um rumo inesperado.

Eles param. Sentam um do lado do outro.

Olham-se.

E começam a rir.

— E você, tá transando enfim com Harrison?

— Claro que não. Você é doida? Insana? Eu ainda namoro, queri.

— Nossa, não se desgrudam mais. Achei que você e ele…

— Não né. Ele é meu amigo. Afinal, dormimos juntos sim, mas não nos tocamos. Só como amigos.

— Você esqueceu que esta falando comigo. Assim como você me conhece desde criança, também te conheço. Vejo no seu olhar algo diferente.

— Não estou trepando com ele.

— Mas queria?

Jacks para. Olha o teto. Reflete.

Bruno esta ajudando sua mãe com alguns documentos da escola quando é surpreendido por Junior.

— Oi migo. — Diz Bruno todo sorridente.

— Nossa, vemos um sorriso nesses lábios lindos.

— Sim. Nova era.

— Mesmo?

— Sim migo. Prometo que tudo vai mudar.

— O grupo sente falta de você. Da sua alegria. Não via sorriso há meses na sua cara.

— Preciso me livrar ainda de alguns demônios.

— Se precisar estou aqui.

Eles se abraçam.

— Nossa migo, não esperava isso de você.

— May gosta muito de você e fala sobre a amizade de anos de vocês. Quero que saiba que independente de namorarmos ela continuará te amando mais.

Eles riem.

— Mas o que te traz aqui?

— Emprego. Recebi a grana da morte da Kalinca mas não consigo sem trabalhar.

— Bem, minha mãe precisa de alguém que entenda de matemática.

— Olha. Sinceramente? Não entendo. Mas eu posso entender se você me ajudar.

— Volte mais tarde. Vou ver com ela e te aviso. Mas tá quase garantido. Só ela dar o aval.

— Sim. Obrigado amigo. Espero que possa te chamar assim!

Harrison esta treinando tiro ao alvo, Carolina chega.

— Ei.

— Ei Miss Furacão. Recuperada do porre?

Ela ri e abraça-o.

— Estou pra baixo, viu.

— Que deu? Eu e Jacks não estamos chateados. Falo por ele porque ele ficou com peso na consciência em ter te dado àquela bolacha. Mas eu disse a ele que não me arrependeria. Então, ficamos todos bem. Correto?

— Seu bobo. — Ri — Quem está estranho é seu amigo, Fares.

— Ué, que deu com ele?

— Não sei. Aquele dia ele foi um pouco violento, eu estranhei.

— Violento? O Fares? Nossa. To de cara.

— Então, também fiquei. Porque ele nunca havia tido uma atitude…

— Mas você também né.

— Sim, eu sei. Quis extravasar e acabei descontando nele.

— Extravasar?

— Acho que tem um tumor no meu seio. No direito.

Harrison choca.

— Não creio. Acha? E você não falou isso pro Fares?

— Não ainda. Pego o exame mais tarde hoje. Você é o primeiro, a saber, inclusive. Nem a May sabe.

— Sua doida.

— O quê? — Assustada com a reação dele.

— É que na escola nunca me contavam esses dramas. Eu sempre fugi dos problemas. Mas agora.

— Ai amigo. Me desculpa. Eu fiquei com raiva porque sei lá, queria extravasar e Fares anda meio quieto.

— O Fares é quieto. Mas ele precisa saber disso, ele é enfermeiro vai saber te ajudar.

— Eu sei. Quer dizer, não sei. Cometi um erro. Sei lá.

— Não cometeu não. É normal. Fale com ele. Eu não comento com ninguém mais, mas ele como seu namorado precisa saber disso.

Começa a tocar “Stevie Wonder — Superstition”.

Maurilio chega a companhia de tiro ao alvo e vê Carolina chorando no ombro de Harrison.

— Nossa. Que cara comedor. Come de noite o viadinho e de dia a putinha do enfermeiro. Eca. Péssimo gosto.

Pega uma arma. Carrega. Vai pro outro lado atirar.

Dona Cândida: Meu marido é dono da companhia de tiro ao alvo. Todos eles faziam aula de tiro. É normal. Acho que isso não quer dizer nada.
Keila: Uma vez vi Bruno ameaçar um cara na balada.
Erasmo: Ele sabe atirar. E segundo amigos, atira muito bem.

Wester encontra Bruno em sua casa.

— Achei que não vinha hoje.

— Tava cansado. Não vinha mas aí…

— Bruno, que tá acontecendo?

— Eu quero terminar.

— Sério?

— Sim.

— Beleza.

— Não nascemos um para o outro. Podemos tentar. Mas não é isso que eu sinto mais.

— Nossa e como você chegou a essa conclusão? Eu não penso assim.

— Wester, sem mentiras. Sem mais mentiras.

— Quando menti pra você?

— Você sabe que não tem liga, não tem conexão como no inicio. E você tem o direito de ser livre, eu também.

— Você tem outro?

— Não. Claro que não. Jamais faria algo assim.

— Bruno, seja sincero. Você tem outro?

SONS DE TIRO***.

— Eu não tenho outro. Eu não quero mais ficar nessa relação.

— Um dia diz que me ama, no outro termina sem mais nem menos Bruno. Admita.

— Wester. Acabou. Eu não tenho outro.

Wester vai pra cima dele e o beija.

Bruno corresponde.

— Fica mais essa noite.

SONS DE TIRO***.

— Não posso!

— Pode! Você quer ficar.

Ele solta de Wester com grosseria.

— Chega Wester. Deu. Não demos certo. Eu vivi pra você. Não foi recíproco.

— Foi sim. Também vivo pra você. Estou aqui planejando nossa casa juntos. Nossos filhos, se você quiser tiver filhos. Porra, eu quero que dê certo. Que dê muito certo. Não entendo. Errei em mentir uma vez que estava em um lugar e estava em outro. Mas eu precisava daquilo, me perdoe. Eu quero ficar com você.

Ao fundo toca “Bill Withers — Ain’t No Sunshine”.

Bruno paralisa e fica olhando pro teto.

Wester começa a chorar.

Bruno também.

Bruno recorda o que conversou há 10 minutos antes com Renata e Jacks.

Renata: Precisamos de algo que mova ele. Algo que ele acredite.

Jacks: Ué. Chega lá e diz que você quer terminar. Chora se preciso.

Bruno ri.

Bruno: Vou tentar.

Renata: Lembra na hora do chifre. Afinal aqui quem já não foi chifrudo? Ein Ein?

Bruno: Nem fale.

Eles riem.

XX

Ele volta ao cenário. Wester chorando.

Lágrimas de crocodilo.

Bruno chora mais um pouco.

Abraça Wester.

Erasmo: Corre uma história que Bruno se fazia de coitadinho porque não tinha pai.
Dona Cândida: A mãe dele o criou sozinha. E você sabe que um pai é indispensável.
Keila: Acredito que seja algo fora da orbita, algum distúrbio que ele tenha. Ele se mostrou perigoso naquela semana. Corria todo dia. Gritava em certo ponto da floresta; ouvi algumas vezes, sei lá, ele tinha esses acessos de psicopata.
Erasmo: Wester? Ah, bonito.
Dona Cândida: Wester, filho do James. Um pitel. Só que mentiroso.

Carolina preparou um jantar romântico. Velas por toda a casa. Rosas. E um presente pra Fares.

May liga: Amiga, posso ir ai um pouco?

Carolina: Não moreco. Eu vou ver o Fares.

May: Ele deu sinal?

Carolina: Não. Mas mandei mensagem dizendo que faria algo especial e que se ele não viesse, não viesse mais.

Quando Carolina olha no espelho, ele esta atrás dela com um buquê de rosas.

Fundo musical com Bill Withers — Lean On Me.

Carolina: Te ligo depois. Beijo.

May: Beijo amiga.

— Você veio. — Sorridente.

— Me perdoa?

Ela corre pro abraço dele.

— Eu preciso pedir perdão. Eu fui ridícula. Mesquinha e mimada…

— E eu patético. Me perdoa por te machucar. Por não atender, não responder…

— Fica quietinho. — Beija ele. — Estamos bem. Passou a tempestade.

Eles se beijam.

Harrison chega em sua casa e tem um convite embaixo da porta. De Jacks.

“Oi pessoa estupida. Ia te ligar, mas quis fazer à moda antiga. Te espero no meu apê hoje pra um bom vinho. Não aceito não como resposta! Ps.: Sei jogar Mortal Kombat no Super Nintendo. Vale?”

Ele sorri.

Renata esta em Rio Negrinho/SC.

Chega a uma farmácia antiga. Lá esta Mariana, sentada olhando pro nada. Cabisbaixa. Renata então entra no estabelecimento. Mariana levanta, e sorri.

— Boa tarde. No que posso ajudar?

— Oi, meu nome é Renata e você é a chave de quase toda uma situação.

Mariana fica assustada.

— Podemos tomar um café depois que você fechar? Não sou uma lunática antes que ache isso. Precisamos falar sobre Wester.

— Aquele podre não morreu ainda?

Renata sorri.

— Ainda não.

SONS DE TIRO***.

— Por que não me contou antes?

— Porque eu fiquei em choque.

Carolina e Fares nus, na cama.

— Eu sei que não é uma coisa que se conte depois de uma transa tão boa quanto a que tivemos. Mas, eu não to pilhada. Vou fazer a retirada do tumor na quinta.

Fares a abraça forte.

— Eu te amo. Quer casar comigo?

— Quê?

— Sim. Vai que eu deixo pra daqui a 10 anos e a gente morre. Ué, a vida é curta a gente sabe disso. Não podemos mascarar. Quero me casar com você no sábado.

— Como assim?

— Eu e você. Na floresta. Lembra que comentamos esses dias sobre isso?

— Amor, eu não quero que você…

— Primeiro nem ouse dizer que é por pena. Desde o primeiro olhar, — se emociona, enche os olhos de lágrimas ao fundo na letra de Lean On Me, o coral está cantando “If You ever need a Friend, Call Me” — porra desde a porra do primeiro olhar eu sabia que era você. Que era pra ser. Caralho. — Carolina começa a chorar emocionada — Eu quero casar com você. Quero ter filhos com você. No mínimo uns 4. Quero viajar pra Europa. Quero te levar pra Disney. Quero ver você formada, mestrada, doutorada, pós-doutorada. Quero ver você nas nuvens. Quero você pra mim. Pra sempre. E se não existe a porra do pra sempre como dizem, eu quero que exista você. Já basta.

Carolina o beija. As luzes se apagam.

SONS DE TIRO
 IMAGENS DE UM PARQUE ABANDONADO
 AO FUNDO “PAPA WAS A ROLLING STONE — THE TEMPTATIONS”

Renata: Então a figura é pior do que imaginei?

Mariana: Sim. Na escola sofremos muito. Meus pais se mudaram pra cá após o desaparecimento do Marcos.

Renata: Como era a relação deles?

Mariana: Sempre achamos que ele produzia certo tipo de bullying no Marcos. Ele acabou com minha reputação na escola. Fui a maior vadia nos últimos anos de Ensino Médio. Minha mãe até hoje diz que sou a vergonha da família. Ela acreditou nas mentiras dele.

Renata: As Mentiras de Wester.

PAUSA. RESPIRA.

Nossa, estou perplexa.

Mariana: Se quiser uma ajudante. Estou me disponibilizando.

Renata sorri: Com toda a certeza. Vamos colocar esse cara no lugar de onde ele nunca deveria ter saído.

Ao som dessa música ótima de Soul, Jacks dança com Harrison. Bebâdos, os dois começam a se agarrar.

— Sabe de uma coisa? Não posso mais segurar.

— O quê? — Pergunta Harrison rindo.

— Eu quero muito… sério… Muito… transar com você.

— Eu sei.

— Sabe?

— Sim. Você não disfarça quando eu levanto do teu sofázinho ao olhar pra minha calça. Mas eu perdoo. De boa.

Eles riem.

— Mas é só uma coisa que eu precisava falar.

— Ué. Não quer mais transar?

Eles aproximam os lábios (min 5:49 da música).

— Ué digo eu. Essa sua boca.

— Essa sua bunda. Porra. Que nojo eu um hetero enrustido me agarrando com a maior vadia dessa cidade. — Os lábios se encaixando — Quero te foder também.

Eles se beijam.

Ele joga Harrison no sofá. Tira sua calça. Começa a chupar Harrison.

— Nossa. Que porra você ein. Seu porra! — Diz Harrison ofegante.

Jacks sobe em cima de Harrison o beijando todinho.
 
 Quando olha pro lado, vê Renan de pé na porta.

Renan está de pé na porta.

Assistindo tudo.

Olhares de Jacks e Renan se cruzam.

SONS DE TIRO***.

***SONS DE TIRO: Imagine somente o som. Não esta interligando as cenas. É somente um tiro.

Quando for a hora, você vai saber quem atirou.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Mateus Bonez’s story.