AS MENTIRAS DE WESTER Vol. I

Cinco

A NAMORADA TEM NAMORADA

Os anos que sucederam a boa vida de Wester não o fizeram se perguntar “Por que estou necessitando de atenção?” ou então “Por que meu pai é tão rico que nunca ajudei aos pobres?” Wester não é esse tipo de cara. Dois dias para o carnaval, a turma de Bruno estava disposta a fazer de tudo para comemorar e Wester tinha um inimigo chegando ao bairro do seu coração frio.

— Gostaria de um café, por favor! — Pedia a moça loira, de olhos verdes, corpo magro e um desespero em sua mochila. — Pra levar? — Perguntava a moça do balcão — Pode ser — respondia ela olhando pros lados com medo de alguma coisa.

Naquela mesma manhã, Jacks e Bruno chegavam a mesma padaria.

— Você parece que dormiu tão bem. — Dizia Bruno.

— Ando transando.

— Com quem posso saber?

— Ai Bru, não é o momento. Ninguém sabe você será o primeiro.

— Cuidado, Renata pode ver no copo.

Os dois rindo sentam ao lado daquela moça.

— Mas me diz como tá seu namorico?

— Ele não me pediu em namoro ainda.

— Não acredito! De certo vai deixar pra noite especial de carnaval. Mas sei lá, pra mim namoro de carnaval não rola sabia. E vocês já estão transando há 4 meses quase.

— Ai Jacks, você é tão rápido. Nem conta quem tá namorando também…

— Não estou namorando. Estou conhecendo alguém bacana.

— É meu ex né? Acha que eu nasci ontem?

— Olha Bru, acho sim que você nasceu ontem.

— Desculpa me intrometer na conversa de vocês onde fica a clinica do Doutor Max? — perguntava a menina branca com cara de doente.

— Nossa gata, você tá bem? — Bruno olha o copo dela — Tomando café preto ainda. Cê é doida.

— Vamos levá-la ao hospital.

— Não posso ir ao hospital.

— Por quê?

— Eu abortei.

Jacks e Bruno paralisaram por alguns instantes. Olham no meio das suas pernas, ela começa a sangrar.

— Caralho, vamos já pro hospital. — Bradava Jacks.

Como num filme, em segundos, adentrava ao hospital Jacks e Bruno com a estranha a tira colo.

— Moço, ela não tá nada bem. — Dizia Bruno ao enfermeiro Fares.

— O que aconteceu? — a menina desmaia de medo.

— Ela disse que abortou. E tava tomando café preto e parecia estar muito mal.

Jacks vai até o hall e liga para as amigas que também surgem no hospital.

— Quem é a mina? — Renata indagava.

— Não sabemos. O nome dela é Fernanda.

— Mas da onde surgiu essa medonha? — May irritada.

— Sei lá. Fomos beber café quando Bru me colocou na parede por eu estar transando com Renan, aí graças a Deus e a todos os orixás — Oxalá!- Renata resmungava — essa menina entrou no meio da conversa. Nada é por acaso.

— Seu besta. Vamos lá Renata, ver o que tá acontecendo.

— Não vai entrar?

— Não. Não curto hospitais. Fico esperando vocês aqui.

Bruno vai até Jacks.

— Não terminamos aquele assunto.

— Olha. Sério. Você é meu melhor amigo. Mesmo eu sendo quase um pai pra você. Não podemos brigar nem discutir isso. Sim, é o Renan. Estamos transando há alguns dias e estou mais feliz que nunca. E você também esta feliz com o Wester então…

— Mas não ia brigar. Somos adultos. Quero que você seja muito feliz.

— Sua cobra. Quer ver minha derrocada.

— Sim, quero.

Eles se abraçam.

— Gosto do teu cheirinho Bru.

— E eu do seu.

— Devíamos parar agora. Porque posso ter uma ereção aqui no hall do hospital. Souberam da onde surgiu essa guria?

— Sim, já apareceu o irmão dela. Ele tá vindo pra cá.

— Ah sim. Avisou o Wester?

— Ainda não. Ele ia viajar, acho que chega a tarde.

Na cama de hospital pós a raspagem feita em seu útero, Fernanda olhava pro teto desesperada. Chorava. Não sabia o que fazer. Não sabia pra onde correr. Apesar que, correr nessa hora não seria uma boa pedida. Seu irmão, Harrison adentra as portas do quarto indignado, chorando, pedindo por ela.

— O que você foi fazer da sua vida minha irmã?

— O que você tá fazendo aqui?

— Seus amigos me chamaram. Estão preocupados com você.

— Não são meus amigos. Como você…

— Sem perguntas irmã, você passou por um estresse muito grande. Onde tá aquele filho da puta?

— Que filho…

— Sem paranoia e sem rodeios, quero saber quem era o pai.

— Você não pode saber, irmão. Porque, ele morreu.

— Não mente pra mim. Se mentir vai ser pior.

— É sério. Ele morreu. No acidente do final de semana em Moema. Não estou mentindo. Estou mal e você vem encher a porra do meu saco. Eu quase morri. Sai dessa porra de quarto, agora.

— Olha, vim ajudar de coração. Mas no fundo sabe mesmo eu quero que aconteça? Que você se foda. Que esse sangue volte se transforme numa hemorragia e você morra. Sua vagabunda. Você é o desgosto do nosso pai. Espero do fundo do meu coração — se aproximando do seu ouvido — que você morra! MORRA. M-O-R-R-A. Entendeu?

Harrison sai do quarto, Bruno ouviu sem querer tudo. Entrou no quarto, abraçou Fernanda que chorava tanto que chegou a passar mal.

— Calma menina. Tudo vai se resolver. Não fica assim.

Na saída do hospital, Harrison encontra May.

— Conversou com sua irmã, como ela está?

— Pra mim, morta!

Ele bate a porta. May e Renata se olham.

— Nossa, que ser humano fofo.

— Parece você quando está na tpm.

— Filha da puta!

Fora do hospital, o enfermeiro Fares pedia aos amigos que — Se algum de vocês pudessem ficar com ela essa noite…

— Fares, hoje é pré carnaval, como assim alguém ficar? — Jacks querendo tirar o corpo fora.

— É que como o irmão foi embora, sabem né… — Wester chega — Oi pessoal, pode deixar eu fico.

— Nossa Wes, que admirável isso.

— Nossa, vim correndo. Fiquei preocupado. Uma vida que se foi.

— Que poético, Wester. Eu Mayara, estou de cara com sua caridade.

— Sua debochadinha. Gosto de fazer o bem.

— Que deu Jacks? — Perguntou Bruno quando o viu no celular.

— Eu to arrecadando fundos para pagar a conta. Ela não tem SUS. Ou é e graça a operação que fizeram?

— Ei, nem se preocupem. Eu vou custear tudo.

— Nossa Wes, sério? — Bruno brilhava com aquela atitude linda.

— Sim, ajudar o próximo. Vocês passaram o dia todo aqui.

— Obrigado pelo Bruno, que fique claro. — May irritada.

No quarto, Wester se aproximou de Fernanda. Acariciou o seu rosto. E em um instante ela acorda assustada.

— Teve pesadelos, monamour?

— O que você faz aqui?

— Queria foder a vida da minha amiga né? Sua vagabunda.

— Wester, eu posso explicar tudo.

— Não vou dar tempo. Pagarei sua conta e você vai sumir. De novo.

Enquanto eles conversavam, Jacks e Bruno traçavam metas.

— Onde vamos deixar ela, quando sair daqui? — Perguntava Bruno.

— Olha. Ela pode ficar no meu apê. Sabe que eu não gosto de estranhos, mas, já que a ajudamos. Ela não vai me roubar né?

— As vezes os conhecidos são mais perigosos que estranhos.

— Verdade.

— Falou com Renan hoje?

— Sim. Ele ia vir mas preferi que não viesse.

— Por que?

— Constrangedor para ambos né. Eu sou a vadia que ficou com o ex do melhor amigo.

— Ai você. — Se abraçam — Obrigado por ficar comigo aqui hoje.

— Sempre estarei aqui pra você, meu lindo.

Wester saiu do quarto e Fares o levou pra uma sala escura.

— Cara, o que você disse pra ela? Você ameaçou ela?

— Sim. E isso não é da sua conta. Seu enfermeirinho de bosta.

— Acha que pode pisar em todo mundo porque é riquinho né?

— Não acho, eu posso! Agora, se me dá licença…

— Bruno vai ficar chateado quando souber que você não presta.

— Nossa, e você vai contar né? Porque você é muito do bem, vendedor de drogas. Né?

— Olha você não vai me persuadir….

— Beijo me liga.

Logo, encontrou Bruno.

— Que deu, Bru?

— Queria você comigo hoje no esquenta.

— Eu vou. Já pedi a minha nona pra ficar com ela.

— Ai menos mal. O Jacks disse que ela pode ficar na casa dele.

— Ah, ela me disse que vai voltar pra sua amanhã mesmo. Já deixei tudo pago aqui. — Fares fica olhando os dois conversando, vai pra fora, fumar um cigarro.

— Nossa Fares, você fuma. — Jacks pergunta.

— Há 2 meses.

— Me dá um. O meu acabou.

— Seguinte, posso ir nesse esquenta?

— Nossa, você? Que nunca sai de casa? Nossa, que mais vai acontecer hoje pra me surpreender. — Eles riem.

— Quero conhecer a galera. Só fico dentro desse hospital.

— Sim. Deve ser um saco.

— Posso levar meus amigos?

— Deve. E traga gays. Amo gays.

Algumas horas depois. Quase perto das 22h da noite, perto do esquenta da turminha do barulho, alguém se aproximou do evento e ficou observando. Era uma menina, de óculos, meio gordinha e com um violão dentro do carro. Queria fazer amizades. Mas ficou somente observando. Seu irmão, chegou perto, ele, um pouco magro, de óculos também, cabelos encaracolados e olhos verdes como uma esmeralda, se aproximou falando baixinho.

— É aqui?

— Então, não sei — acendeu um cigarro — estou em dúvida. Não vi quem queria ver.

— Se dizem que ela abortou …

— Foi aquele filho da puta do Wester. Mais uma mentira dele que eu peguei no ar. Af. Por que não matamos ele quando tivemos a oportunidade?

— Porque somos do bem — enrola maconha na seda — e jamais voltaremos a assassinar alguém.

— Me perdoa irmão por ter te colocado naquela treta, mas Wester mentiu pra nós.

— Sim. Mas Fernanda também mentiu.

— Será que eles transaram?

— Não. Acredito que ela engravidou do padrasto. Era um vagabunda, mas agora já descansa em paz.

Na festa, o telefone de Jacks toca.

— Oi Fares.

— Oi querido. Ei, a amiga nova de vocês já foi embora.

— Ué, mas ela não tinha que ficar de repouso? — Jacks chama Bruno e Wester — Não to entendendo.

— Então, veio uma guria aqui dizendo que era namorada dela e ai foram embora. Ela foi de boa. — Jacks agradeceu o enfermeiro, o convidando pra comparecer na madrugada, contou a Bruno e Wester, que esse último ficou super cabreiro com a saída do hospital da sua inimiga.

Renata sobe na caixa de som:

— Agora, a música do nosso bloco.

Começa a tocar Rita Lee — Lança Perfume/Chiquita Bacana Versão ao vivo do Multishow

— E pensar que já são 10 anos desse bloco ein. Vi todos vocês crescerem. Comecei com os pais, agora saio com os filhos.

— Claro, porque você é uma bicha velha. — Respondia Bruno.

— Ai Bruninho, maneira nos elogios ein.

— Meninos, um brinde a nós! — Propunha Renata ao grupo.

Fares chega.

— Nossa, olha quem veio. O enfermeiro virgem. — Brincava May.

— A morena da Renata também! — Ela ri para Jacks.

— Oi, esses são meus amigos. — Fares apresenta seus amigos, e fica encarando Carolina. Que responde.

— Nossa Jacks, quem é aquela?

— Sorry Jack, Chucky is back!

— Que?

— É a crush da Renata.

— Vish, ela é sapata?

— Não sei, se aproxima dela e vê no que dá. Só não conta que eu aconselhei isso.

— Ei, eu vou sair e depois volto okay? Não briga.

— Você sempre faz isso né Jacks. — Bruno bebendo sentado no colo de Wester.

— Amor, eu preciso dar uma saída.

Jacks sai e encontra os dois irmãos fora da festa.

— Oi. — Cumprimenta os dois.

— De quem é a festa?

— É de um bloco de carnaval. Das gays da cidade. Se quiserem chegar, todos são bem vindos. Claro, sem preconceitos e dogmas.

— Não temos isso.

— Nossa, você é uma sapata né? Achei que era um menino. Já to bêbinho. Nem liga. Entra.

— Podemos mesmo?

— Sim.

Jacks se aproxima e entra no carro de Renan. Enquanto Bruno e Wester se beijam loucamente ao som das músicas da festa. Renata e Fares xavecando Carolina que se sente envergonhada. Então, os irmãos adentram a festa, May vai até eles.

— Uau, quem são vocês? — May encarando o menino.

— Somos, os irmãos Puchalski. Ela se chama Kalinca e eu, Junior.

— Junior, que nome lindo.

— Nossa, eu poderia me apresentar irmão. Vou pegar uma bebida.

— Gostei da sua irmã, seria uma cunhada perfeita.

Os dois riem. May não perde tempo e o agarra. Kalinca então, resolve dar uma volta na festa quando avista Wester e Bruno se beijando. Enche os olhos de lágrimas. E então, eles se encaram. Wester não apresenta nenhuma reação.

— Nossa, quem é aquela? — Pergunta Bruno.

— Não faço a mínima ideia, quer fazer as honras? Vou ao banheiro.

— Sim.

Bruno vai até Kalinca.

— Oi.

— Oi.

— Prazer, Bruno. Bem vinda ao bloco gay da cidade.

— Interessante cara. Curti, curti. Meu nome é Kalinca. Eu e meu irmão — aponta pra Junior e May se pegando no sofá — Nossa, ele é ligeiro.

— Acho que a vadia é a minha amiga May. Abafa. Fique a vontade.

— Legal. Já me sinto em casa.

Wester se aproxima.

— Hello Novata. — Kalinca não disfarça a raiva e amassa o copo.

— Nossa, aconteceu algo? — Perguntava Bruno desconfiado.

— Não. Esse cara me lembrou um ex. Sim, já fiquei com caras.

— Ah, sim. Permita-me apresentar. Wester. O deus grego desse deus grego aqui. Veio de onde?

— De perto. Bem perto.

— Bem, vou pegar mais gole. — Bruno se afastava.

— O que veio fazer aqui com seu irmão chapado?

— Você sempre provocou bullying em mim né? Mas dessa vez não. Só vim ver se esta tudo certo com a Fernanda.

— Não acertei as contas com vocês duas ainda. Duas vacas. Mas hoje eu não vou me irritar com você. Sabe onde fica o escritório do meu pai, passa lá e fala com o Maurílio.

— Vocês dois continuam ainda de falcatruas né?

Wester sai rindo dela. Ela fica com muito ódio e sai dali. Vai lá fora fumar um cigarro. Jacks volta todo feliz.

— E aí, gostou?

— Sim. Sim. Só preciso mesmo fumar um cigarro.

— Olha, também vou fumar com você.

— Como veio parar aqui nesse fim de mundo chamado Itaiópolis?

— Ah, meu pai tem umas terras aqui. E eu só estou de passagem.

— Ah, cool.

Enquanto elas fumam, sangue começa a escorrer do porta-malas dela. Kalinca nota. Mas não dá moral. Com cuidado passa um pano sem que Jacks note.

— Sabe quando você tá com muita raiva e quer exterminar meio mundo? — Começa a falar num tom estranho, Jacks como esta bêbado entra na onda.

— E como sei. Já passei tanta raiva nessa vida. E quando vejo Nostradamus ali sentado com aquelas lésbicas suburbanas me dá mais raiva ainda.

— Ele quebrou seu coração?

— Digamos que quase, o amigo dele quebrou.

— Minha namorada também quebrou o meu. Engravidou do padrasto. Era uma vagabunda.

— Putz. Que barra. Ah, mas — se aproxima dela e abraça, Kalinca fica sem reação — aqui nessa tribo a gente acolhe. Ninguém fica deprê. Vem, vamos dançar e curtir. Esquece quem te fez mal.

— Por você, vou tentar!

Os dois entram e o sangue continua a escorrer.

Durante a festa, Fares fica surpreso com o convite de Renata.

— Que tal nós três transarmos?

— Ai Renata. — Balbuciou Carolina.

— Nossa. Vocês são fogo.

— Nós não, a Renata que tá com fogo no rabo.

Renata beija Carolina. Que corresponde, rindo. Renata então beija Fares. Que também corresponde.

— Viu? É fácil. Podemos sair daqui?

Carolina e Fares se olham e topam a ideia.

Bruno e Wester saem da festa e vão para um motel para fazer sua festa privada. Mas antes, enquanto aquecia a banheira, Wester ligava para Maurílio.

— Hei, ela foi embora?

— Sim. Paguei um bom dinheiro e ela disse que vai sumir.

— Ta falando com quem, Wes?

— Com meu pai.

— Ah sim.

— Seguinte, amanhã te ligo e conversamos Pai — Maurílio ri do outro lado e responde — Beleza, filho.

Respirando tranquilo, Wester foi ao encontro de Bruno na banheira. E transaram loucamente a noite toda.

De manhã, os quartos do apê de Jacks estavam todos ocupados. Renata, Carolina e Fares haviam aproveitado muito. May havia se saciado do novinho que conhecera naquela noite, e Jacks dormia abraçado com sua nova amiga, Kalinca. Com Chained to the Rythim da Katy Perry de fundo, todos iam se espreguiçando e sorrindo como num lindo bom dia.

Não muito longe dali, algo estranho aconteceu. Quando amanheceu o dia, um corpo havia sido enterrado, um homem tinha desaparecido e uma mentira havia sido contada.

Mais uma.

fotografia: lesbian & gay pride (025) 30.Jun12 Paris, France. — por Philippe Leroyer.

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