O futuro do jornalismo televisivo: como atrair os telespectadores no século XXI?

Com Anna Luiza Rihan e Letícia Rodrigues

Na frente das câmeras, entrevistamos Ricardo Boechat (Bandeirantes), Mari Palma (Globo) e Dudu Camargo (SBT). Por trás delas, os executivos André Luiz Costa e Zico Góes. Em busca de respostas, procuramos o elemento que os faz serem tão bem-sucedidos.

O século XXI teve como principal fenômeno a avalanche causada pela internet. Com ela, diversas atividades sociais foram alteradas por sua dinâmica rápida e direta. Não foi diferente em relação à atividade jornalística, importante para a sociedade e apontada como “quarto poder” politico. A mudança é certa, porém não se definiu claramente que caminho, forma e aproximação ela tomará. Mais especificamente em relação ao jornalismo televisivo, existem várias estratégias.

Na televisão, a bancada e os jornalistas engravatados e estáticos, de fala firme, constante e expressão séria, formam o modelo mais antigo e conhecido de se apresentar um jornal. Modelo que ainda se mantém, mas, com os avanços da internet e as novas gerações cada vez mais informadas, algumas mudanças têm aparecido.

Um dos exemplos mais recentes dessas pequenas mudanças está no Jornal Nacional, da Rede Globo. William Bonner e Renata Vasconcellos abandonam por diversas vezes a bancada, chegam a andar pelo estúdio durante a apresentação de uma notícia e até conversam com correspondentes internacionais em formato 3D. Estas mudanças seriam para dinamizar o jornal e torná-lo mais autêntico, menos padronizado, em função da busca pela audiência e pela renovação, já que na fase atual da pós-modernidade em que nos encontramos, a líquida, de acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, os diferentes aspectos e relacionamentos se tornam rapidamente obsoletos com a avalanche de inovações tecnológica. Isso também vale para a relação entre produtor e consumidor de conteúdo jornalístico.

Mari Palma elabora sobre seu estilo e sua autenticidade aprovados pelo público

A Rede Globo tem apostado em várias modificações de caráter atual para seu conteúdo. Uma delas é Mari Palma. Jovem, carismática e moderna, ela atribui o reconhecimento do público à sua veracidade diante das câmeras. Usa suas próprias roupas e fala do seu jeito, sem se preocupar com algum tipo de personagem estereotipado. Segundo ela, as pessoas gostam daquilo que é verdadeiro, afirmando que, graças a sua personalidade, os jovens se identificam com ela. Segue abaixo um trecho da entrevista com a apresentadora do boletim noticioso diário G1 em 1 minuto:


Conte um pouco sobre sua trajetória profissional no jornalismo.

MARI: Eu estou na Globo há quase 9 anos — foi meu primeiro e único trabalho. Comecei como estagiária na equipe de chats para internet, depois fui para o G1 trabalhar com redes sociais — nesse período, fiz muitas coberturas em vídeo, fui para a rua quando tinha algum factual, aprendi bastante. Depois, fiquei três anos como editora do site do programa Bem Estar, fazendo mais e mais vídeos. Até parar no G1 em 1 minuto.

Você imaginava fazer sucesso com o público e crescer na televisão em tão pouco tempo (passando pelo G1 em 1 minuto e Bem Estar, começando em 2015?

MARI: Eu evitei “imaginar” muita coisa quando o G1 em 1 minuto começou. Quando você cria expectativa, a chance de você se frustrar é muito grande. Então eu coloquei na minha cabeça que aquele era o meu novo trabalho e que eu teria que fazê-lo com seriedade e comprometimento, como eu tinha feito em todos os outros anteriores. A única diferença é que agora seria um trabalho mais “exposto”, digamos assim — o que poderia ser muito bom ou muito ruim. Então tinha duas opções: ou o público ia gostar ou o público não ia gostar. Quando eu percebi o retorno positivo, fiquei muito feliz. Foi um sentimento muito novo, muito bom, de gratidão mesmo. Sobre ter crescido na TV, não sei se foi em pouco ou muito tempo — eu, sim, tive um crescimento muito grande como profissional porque aprendi muito nesses dois anos, mas não quero parar aqui. Tenho muito mais pra aprender e muito mais pra crescer.

Muitos telespectadores declaram nas redes que só assistem determinadas programações por saberem que você, em algum momento, aparecerá apresentando o boletim. Além da grande capacidade e competência como jornalista, você acha que o fato de ser jovem, usar uma linguagem popular e roupas na moda contribui com a grande visibilidade que está alcançando?

MARI: Primeiro, obrigada de verdade a todas essas pessoas que falam isso, é muito legal! Enfim, eu sempre digo que tudo que é verdadeiro funciona. Pode parecer uma frase meio clichê, mas eu sou na TV igual eu sou no resto da minha vida. As roupas que eu uso são minhas, o jeito que eu falo é o meu jeito de falar mesmo… e acho que isso funciona porque é de verdade. No caso dos jovens, acho que existe também uma identificação, principalmente dos que estão na faculdade de jornalismo. Isso é muito bacana.

Você achava possível apresentar boletins noticiosos sem mudar o seu estilo (vestimenta, corte de cabelo, piercings, tatuagens…)? Já havia pensado nessa possibilidade?

MARI: Acho que no passado não era considerada essa possibilidade. Hoje, com um jornalismo moderno e atualizado com a sociedade, fico feliz de poder trabalhar sendo quem eu sou, não existe coisa melhor.

Como acontece a seleção de pautas para o G1 em 1 minuto? Vocês levam em consideração horário, público…?

MARI: A gente faz tudo a muitas mãos e a gente olha tudo: a pauta do dia, todas as matérias chamadas na home, a lista de últimas notícias, nossos sistemas internos que trazem os principais destaques do dia, as reportagens das afiliadas pelo Brasil afora. Como a gente tem o foco em um público muito abrangente, a gente seleciona a pauta baseando no critério de relevância da notícia e, sempre que o dia permite, inclui uma ou outra notícia mais curiosa que chama a atenção do público.

Você acredita que dentro de alguns anos o jornalismo, como um todo, será mais informal, com personalidades mais jovens e mais dinâmico, a fim de acompanhar as novas gerações?

MARI: Eu acredito que o jornalismo vai se reinventar cada vez mais, de uma maneira ou de outra. E acho que vai ter espaço pra todo mundo — para os mais jovens e para os mais velhos também, afinal eles ensinaram e ainda ensinam muito pra gente.


É possível apontar vários pontos positivos ganhos pela transparência e autenticidade da jornalista para os consumidores de notícia. Isso é fundamental para atrair telespectadores no século da modernidade líquida.

Como manter uma relação de confiança com o público?

O diretor-executivo de jornalismo da Band e Bandnews, André Luiz Costa, nos concedeu uma entrevista no estúdio. Ele reconhece que o jornalismo televisivo deve passar a verdade para quem está assistindo: “O telespectador, hoje, não é atraído por um jornal que se faz só pela aparência e seriedade de antigamente nem por um jornalista que é só a embalagem, ou seja, não age de tal forma na vida real, além da tela da televisão”. Dessa forma, fica claro que é realmente preciso dispor de uma maior transparência quando se transmitem informações, de maneira autêntica, até porque as pessoas estão cada vez mais próximas das notícias e do real, graças à instantaneidade da internet. “Hoje em dia, no jornal, a gente não só conta a notícia, até porque isso os telespectadores já sabem pela internet instantaneamente. A gente tem que levar a notícia com algum diferencial: um gráfico, uma comparação, uma análise, uma entrevista exclusiva”, afirma André Luiz.

O diretor deu exemplos dessa autenticidade no fazer jornalístico dentro da própria empresa. O maior deles é Ricardo Boechat. Âncora do Jornal da Band, ele também pôde nos responder perguntas rápidas e afirmou que simplesmente “é ele mesmo” enquanto apresenta o telejornal. Ele se diz real, autêntico, o que os telespectadores estão procurando e exigindo cada vez mais. Boechat também declarou: “Com relação a um público mais jovem, é natural minha comunicação, já que tenho seis filhos, aprendi na marra a alcançar esse público também”. Ele levanta assim, de forma descontraída, outra questão relevante: a da audiência jovem.

Atualmente, é difícil decifrar uma fórmula para atrair o público jovem. André Luiz reitera que “não há fórmula. É um conjunto de forma, autenticidade e linguagem. Sozinhos não fazem muito, mas como conjunto são um boa tentativa de atrair o público jovem”. As pessoas têm a tendência a achar que o jovem detesta jornalismo, porém isso não é verdade. “Tem uma frase que é perfeita para a situação: ‘Os jovens não detestam publicidade, eles detestam chatice’. Digo o mesmo do jornalismo”, alega Costa. Por conseguinte, ele também aprova dar voz às pessoas jovens da redação para saber o que é chatice e o que não é. Afinal, só eles sabem.

Quando se trata de jovens na televisão, o primeiro veículo que vem à mente é a antiga MTV. Zico Góes, hoje diretor de produção e conteúdo dos canais Fox, pode falar com propriedade sobre essa temática. Afinal, ele já ocupou esse mesmo cargo na MTV, emissora com um público-alvo específico: o jovem. Fazendo analogias entre as duas emissoras e a busca pelo público, ele traçou limites entre uma audiência abrangente e outra mais direcionada, comentando sobre as dualidades entre televisão e internet (as quais colaboraram para a gradual decadência da MTV como era conhecida) e aspectos sobre o futuro do jornalismo com a tecnologia. Segue a entrevista na íntegra concedida por telefone.

Trazendo à tona assuntos como a linguagem e o cotidiano do jovem que o aproximam da televisão, Zico pontua argumentos em geral válidos. O relacionamento certo com o público é essencial. Deve haver um cuidado com a escolha da execução total dos programas para atingi-lo. No caso do jovem, é justamente o “não se levar a sério”.

Esse ponto foi comprovado por uma pesquisa com jovens de 17 a 20 anos. Apesar de vários deles terem abandonado o hábito de assistir televisão, alguns ainda se mantêm fieis e as respostas apontam uma aproximação mais descontraída na hora das notícias. Esse levantamento destaca a condição do jovem de fugir da seriedade e das estéticas estritas como nos velhos tempos, o que a sociedade em geral também tem feito.

Em entrevista, Dudu Camargo, jovem jornalista, trata sobre seu sucesso no meio em tão pouco tempo

Em se tratando de jovem, com o mais novo apresentador do meio jornalístico, Dudu Camargo, de 18 anos, percebe-se que há uma preocupação em entreter e informar o público de maneira original e autêntica. Dudu apresenta o Primeiro Impacto, jornal matutino do SBT. De terno e gravata, mas sem o uso de uma bancada, ele caminha pelo estúdio. Além de ter linguagem do cotidiano, sem gírias, com vocabulário de fácil acesso. Em seu programa, o apresentador também apresenta a previsão do tempo com objetos para ilustrar, como guarda-chuvas e boias entre outros, a fim de divertir seus telespectadores. Camargo sempre começa e termina o boletim de forma bem-humorada e às vezes até com músicas e danças, alcançando os jovens ao não se levar a sério.

Ele pretende ser a síntese de um jornal mais moderno, autêntico e transparente. No vídeo, Dudu conta brevemente sobre sua trajetória, seu programa e seu posicionamento para um jornalismo mais dinâmico e autêntico no futuro.

A partir das afirmações do apresentador, é possível constatar que há uma certa impaciência ao se ver notícias, principalmente por parte do jovem. Situação decorrente de uma dinâmica tecnológica muito veloz, que obriga a televisão a acompanhá-la para manter a atenção do telespectador e não perdê-lo. Para isso, são usados como pauta assuntos factuais, ou seja, pontuais, para que possam ser entregues de forma rápida a quem assiste de casa, para que a televisão não perca em conteúdo para a internet.

Dudu também falou sobre sua estratégia de estabelecer um relacionamento nas redes sociais com os telespectadores. É essa relação que o público quer, uma que o faça se sentir relevante sem um tipo de hierarquia da informação, em que há somente um emissor e um receptor. Na era da individualidade e valorização da esfera individual e privada, deve ser dada voz a todos os lados.

De fato, existem abordagens diferentes para criar uma relação de confiança com a audiência. Novos formatos e modelos, autenticidade, transparência, preocupação com a verdade, análise profunda dos fatos, linguagem acessível, colaboração em rede, aproximação e proximidade em relação ao público são elementos fundamentais para a televisão atrair telespectadores no século XXI. Em geral, deve haver uma preocupação e um cuidado com o público em ter uma relação real e não artificial. O público deve ter sua voz na televisão também, coisa que, antes, somente era possível pela internet.

A televisão tem alcançado novos patamares. É errôneo e apressado, sem qualquer tipo de ponderação, prever o seu fim. Assim como em relação ao rádio, ela encontrará novas formas para se manter presente na sociedade. Já vemos hoje um grande exemplo disso: o Netflix. Portanto, não perca o controle da televisão e se mantenha atento à tela, pois novidades estão por vir, pensando justamente em você.

)

Mattheus Goto de Noce

Written by

19 anos, estudante de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e em busca do verdadeiro significado da vida.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade