Título da África do Sul na Copa do Mundo de Rugby relembra legado de Mandela
Na primeira conquista mundial, em 1995, seleção tinha apenas um jogador negro. No tricampeonato do último sábado, o primeiro capitão negro da história do time ergueu a taça
Após quatro décadas de Apartheid, como seria possível unir brancos e negros em torno de um objetivo comum já no ano seguinte ao fim da segregação racial? Nelson Mandela acreditou que o caminho era a torcida pela seleção sul-africana de rugby em uma Copa do Mundo disputada em casa. Mas até o dia da final do torneio, naquele 24 de junho de 1995, o então presidente do país não tinha certeza se sua aposta daria certo.
O rugby é o esporte mais popular do país. Os “Springboks”, como é conhecida a seleção do país, foram por muito tempo associados ao Apartheid. No início da segregação, apenas os times compostos por jogadores brancos tinham permissão para participar de campeonatos. Equipes formadas por atletas negros atuavam em torneios não reconhecidos. Enquanto a África do Sul foi banida dos Jogos Olímpicos pelo Comitê Olímpico Internacional durante 28 anos, por conta das políticas racistas do governo, os Springboks participavam normalmente dos torneios e eram frequentemente criticados em viagens ao exterior por não boicotarem as competições, como forma de protesto. Como revanche, as derrotas da seleção viravam celebrações para os negros nas townships, geralmente dispersas com canhões de água pela polícia.
Quando Frederik Willem de Klerk e Mandela, vencedores do Nobel da Paz de 1993, fizeram a transição que pôs fim ao Apartheid, a seleção que chegou à final daquela Copa do Mundo de 1995 tinha Chester Williams como o único jogador negro daquele time e, até então, apenas o terceiro da história dos Springboks. Portanto, como convencer os negros a torcer por um esporte, na época, praticado e assistido majoritariamente por brancos, que até um ano antes faziam da lei um instrumento para a perpetuação de privilégios e discriminação? Por algo que trazia pouca identificação, empatia e pertencimento?
No entanto, naquela decisão contra a Nova Zelândia, a seleção da África do Sul quebrou o protocolo no estádio Ellis Park, em Johannesburgo, antes da partida que daria ao país o primeiro título da Copa do Mundo de Rugby. Além do hino oficial do país pós-apartheid, o “Nkosi Sikeleli iAfrica”, que tem frases em 5 idiomas diferentes, os jogadores daquela seleção quase toda branca cantaram o “Shosholoza”, canção que simboliza a esperança e conhecida como o “Hino da África do Sul negra”.

O gesto foi um reconhecimento histórico àqueles que, por 46 anos, foram submetidos à invisibilidade. Vinte e quatro anos depois, a seleção sul-africana conquistou, no último sábado, a Copa do Mundo de Rugby pela terceira vez, contra a Inglaterra em Yokohama, no Japão, com 11 atletas negros entre os 31 convocados pelo técnico Rassie Erasmus. Com o primeiro título em 1995, os Springboks se tornaram uma seleção capaz de representar um país de fato, trazendo para o time quem antes comemorava sua derrota em campo.

O Apartheid deixou sequelas. A disparidade histórica entre pobres e ricos na África do Sul continua subindo, a ponto de os 10% mais ricos capturarem hoje cerca de 65% da renda nacional, fazendo do país “o mais desigual do mundo”. Com 57 milhões de habitantes, a África do Sul tem uma das maiores taxas de desemprego do mundo, de quase 28% e concentrada sobretudo entre os negros, que representam 80% da população. Entre eles, o índice de desocupação é maior, de 31%. Já entre os brancos, que são menos de 10% da população, o desemprego oscila ao redor de 7,5%, segundo o Relatório da Desigualdade Global, produzido pela equipe da Escola de Economia de Paris.
Se o que foi alcançado ficou aquém do esperado na África do Sul pós-apartheid, pelo menos os Springboks são a realização do que Mandela sonhou para seu país.