Recortes do escritor frustrado

Matheus Viana
Sep 2, 2018 · 4 min read

Um som estridente e familiar ressoa por todo o quarto ao anunciar mais uma manhã de inverno terrivelmente seca, uma brisa fria insiste em adentrar por uma fresta da janela balançando as cortinas de seda meticulosamente fechadas, o escritor se apruma fugaz, desligando sem demora o causador de tanta algazarra, sua manta desliza para longe de seu corpo como quem solicita mais 10 minutos de sono; sua mãe costumava arrumá-lo dentro das cobertas todos as noites antes dele dormir, que se divertia ao imaginar ser um casulo prestes a eclodir e transcender-se em mariposa; por algum motivo há inspiração transbordando-lhe os poros neste dia, veste em seus pés meias felpudas e em seu corpo o roupão costumeiro e deixa o quarto escuridão adentro.

Alegra-se ao retornar à cozinha após a higienização matinal ao som do crepitar da chaleira da qual viria a servir seu chá; sua mãe costumava servi-lo na cama logo ao amanhecer, uma xícara de chá de gengibre adoçado com um longo fio de mel, seu predileto; usa um palito que mergulhou no ketchup que ficara intocado na mesa do jantar outrora posta, para escrever no guardanapo algo que lhe alfineta a mente, pouco se incomoda com a ferramenta, ou onde escreve, contanto que seja capaz de receber o afago de seus pensamentos materializados em palavras, mas a cada dia fica mais difícil se expressar.

Ao abrir a velha porta de entrada, que range, dá de encontro à cerração que o faz ser cauteloso ao caminhar pelo jardim que circunda seu lar; sua mãe dedicou muitas de suas horas livres àquele jardim, que a recompensava com flores de todas as qualidades e aromas, hoje, no entanto, vê-se apenas grama baixa que luta contra as intempéries para manter-se viva; chega com dificuldade em seu carro, onde entra, e ainda absorto em devaneios se vê paralisado ao observar a silhueta de sua casa através da névoa, momentos de silêncio depois e com um zumbir nos ouvidos volta a si, desperto como de um sonho, ainda tomado pelo torpor se ajeita e parte rumo à cidade.

Por sorte está sendo um dia tranquilo na redação, onde ele consolidou carreira revisando textos jornalísticos de toda pompa, e em sua sala na companhia de seu café, exerce sua função com maestria; sua mãe disse-lhe certa vez que um trabalho bem executado não tarda a resultar bons frutos, não muito tempo depois, recebeu sua primeira honraria por contribuições ao folhetim estudantil; mesmo sendo consagrado em sua profissão, sempre almejou viver da escrita, mas está constantemente desmotivado, como se a rotina tomasse-lhe a inspiração, assim como ele, ávido, toma seu café, mas essas questões já perderam o frescor em seus pensamentos e já que a vida é por si só problemática, os sonhos vão ficando de lado.

Após o expediente encontra-se pontualmente com seu velho amigo no restaurante de sempre, onde dividem longas histórias em um jantar regado a vinho do gelo; já em sua fase adulta, dedicava-se a estar na companhia de sua mãe, e mesmo que vez ou outra ela não fosse capaz de lembrar de seu nome, ainda tinha ótimas histórias na memória para contar, e isso era um alento; em meio a uma garfada comenta de sua inspiração repentina e recebe uma animada resposta de incentivo, que lhe parece desproporcional, mas como seu amigo sempre fora o tipo de pessoa com argumentos bem assertivos, prefere não questioná-lo, após deixarem uma boa gorjeta, saem rumo ao estacionamento, lá trocam algumas palavras e olhares ternos de despedida e seguem por caminhos opostos, cada qual de volta à sua própria rotina.

Em seu quarto a brisa fria ainda insiste em adentrar pela fresta da janela, a escuridão se faz presente de tal maneira que ele não tem certeza se seus olhos ainda estão abertos, não demora e sua mãe preenche-lhe os pensamentos, ela afaga seus cabelos e sussurra baixo uma canção que o fazia dormir quando criança em um ritual só deles, o sono paira e dança, e enquanto seu corpo entrega-se aos poucos, sente suas memórias esvaindo-se a cada verso. Sua mãe é sua inspiração, as lembranças dela o motivam a tentar manter os pés firmes no presente, mas as vezes ela é a única coisa de que ele é capaz de se lembrar, no entanto isso não o preocupa, agora tudo o que almeja é estar com ela e dormir embalado ao som de sua canção.

Matheus Viana

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bit.ly/prismattco

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