A mulher perfeita

Mulher no espelho, Pablo Picasso
Mesmo se formos consideradas ideais, não seremos perfeitas. É isso um problema?

Na semana passada, o documentário da Lady Gaga — “Gaga: Five Foot Two” — me chamou a atenção. Apesar de só ter escutado os hits dela, cliquei no play da Netflix e não me arrependi. A imagem que eu tinha de Gaga era extremamente superficial; e, para ser sincera, ainda é. Mas, pude ver que uma mulher podre de rica, famosa pra caramba, considerada um símbolo sexual, cheia de talento artístico (as views dela no Youtube não são por acaso. Tem muita gente que gosta!), independente e inteligente possui ansiedades muito semelhantes às minhas. E, quem sou eu? Não ganhei Globo de Ouro nem Grammys!

E isso foi assustador. Percebi que tanto ela quanto eu e, provavelmente, você, estamos no barco do perfeccionismo. Não digo “caminho” porque isso geraria a ideia de que ainda não chegamos lá… mas, ah! Como chegamos! Mesmo se formos consideradas ideais, não seremos perfeitas. É isso um problema?

Enquanto crescia, ser considerada “perfeccionista” não era uma crítica para mim, e, talvez, não fosse para você. Ser perfeccionista era a única opção, o jeito de conquistar um espaço social, nem que fosse o de nerd que passava os recreios lendo na biblioteca. Nunca fui reprimida por ser perfeccionista; só elogiada. Mas, a partir do momento que percebi que os meninos recebiam mais aplauso acadêmico do que eu, com notas iguais, comecei a ser perfeccionista em dobro. Eventualmente, em dose tripla, para compensar o fato de que eu não era lá aquela adolescente linda.

Sempre ouvi falar que a gente deve fazer nosso melhor. Esse conselho, oferecido por estranhos e por gente amada, tem muita verdade embutida. Pense em quão mais feliz o mundo seria; em quão mais bonito, limpo, agradável. Mas, mesmo com toda a humanidade fazendo seu melhor, o mundo não seria perfeito. O mundo é feito por gente, e gente é estranha: paranoica, agitada, depressiva, alegre, triste, ansiosa, tranquila, imprevisível. Imperfeita.

E eu sou uma pessoa como qualquer outra, assim como você. Mas, quando buscamos perfeição ao invés do melhor, as coisas se complicam. As neuras aparecem com força total.

Não me lembro de um dia da vida em que não procurei a perfeição. O problema é que nunca a alcanço. Eu corro, corro, corro e nada. Ela não quer nada comigo. Depois de um tempo, cansei de correr, mas não consigo parar. Eu até respiro melhor e faço pausas para tomar aquela aguinha no meio da maratona, mas ela não tem fim. Não há tranquilidade em uma vida levada desse jeito: nem os momentos mais pacíficos são desfrutados em sua totalidade. Tudo é minuciosamente calculado, até mesmo o tempo livre. É frustração atrás de frustração, e a felicidade é interrompida pela certeza de que algo imperfeito acontecerá em breve — o que é verdade.

Em minhas raras tentativas de abraçar a imperfeição e o feitio do melhor, desisti pela pressão social rotineira. Há horário para tudo. Preciso de experiência em Mandarim para conseguir um emprego. Fingir sorrisos é rotina para quem não está a fim de socializar e prefere ficar com um livro tapando a cara na maioria das vezes — e, para o convívio social, ser feliz o tempo todo é necessário. E, se você é mulher, as coisas se agravam: seja gentil, delicada. Seja perfeita. Parece que não existe escapatória desse lema.

Mas não posso mais seguir assim. Ferre-se o lema. Eu quero ser uma mulher imperfeita.

Quero chorar sem sentir culpa e sorrir sem ter medo.

Preciso ter certeza de que quase tudo na vida é instável, menos a certeza da instabilidade. E quero estar tranquila com isso.

Desejo viver sem a exigência própria e cansativa da perfeição, mas sempre na caminhada calma e leve do melhor. Passadas inconstantes, mas conscientes. Tropeços. O ato de voltar a ficar em pé, não importa como: se for como uma diva, ótimo; se for de pijama, também.

Eu quero viver de verdade, e escrevi esse texto para lembrar disso.

Como uma amiga me disse: “você é uma pessoa!”. Parece estúpido, mas, convenhamos: se nem as máquinas são perfeitas, como podemos exigir isso de nós? A verdade é que a expressão “pessoa imperfeita” é um grande pleonasmo.

Então, passo a passo, te convido a repetir, para sempre: ferre-se o lema!

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