Qual o problema no mercado de saúde?

Existe uma grande discussão quando tratamos do mercado da saúde no Brasil e também ao redor de todo mundo, sobre recursos financeiros. Vários estudos são realizados, contas e dados analisados, mas ainda não se chegou a conclusão se o problema é ou não apenas a falta de recursos.

No Brasil, vários estudos dão conta de que não faltam recursos e explicam que o recurso seria suficiente se bem empregado e gerenciado. Não duvido que tenhamos sim ingerência nos gastos na saúde, tanto no setor público como no privado.

Gráfico by IPEA

Também existem estudos que ligam a necessidade constante de atualização de novas tecnologias em saúde e que faltam recursos para isso. Faltam também recursos para remunerar adequadamente médicos e prestadores de sérvios e muitos reclamam, com razão, que os preços no setor sofreram uma espécie de congelamento e que quando reajustados (menos de 1% dos casos), o reajuste não passa nem perto de repor a inflação.

A lei 13003 de junho de 2014 entrou em vigor e foi um marco importante para garantir algum substrato ao setor no que tange ao reajuste de valores. Na prática, Operadoras de Saúde Suplementar vem encontrando brechas para permanecer da mesma forma, ou seja: sem o corrigir adequadamente os contratos.

Não há conclusão objetiva se o problema é de financiamento ou gestão no mercado de saúde brasileiro. Fato é que hoje há um movimento forte de profissionalização no setor privado que elevou a produtividade e eficiência permitindo ainda a sobrevida dos agentes do mercado.

Assim há indícios de que ambos os problemas convivem (Má gestão e falta de recursos. Explico abaixo.

Falta de recursos:

  • Inovação e novas tecnologias médicas aumentam o custo de procedimentos e exames;
  • Necessidade de investimento crescente num mercado que precifica sempre para baixo. Isso aumenta o prazo de retorno e impacta obviamente, no retorno sobre o investimento (ROI);
  • Concentração de especialistas e determinadas áreas (mais complexas) oneram os gastos, pois privilegiam procedimentos complexos em detrimento dos simples. Assim o sistema se sobrecarrega de custos, que poderiam ser evitáveis;
  • Novas tecnologias de retaguarda exigem investimentos em estruturas de T.I. que hoje representam grande parte dos investimentos no setor;
  • Reajustes são aplicados aos gastos (custos e despesas) sem a devida compensação de reajuste nos valores dos procedimentos. Achatamento de margem é uma realidade no setor. Em alguns casos a margem já foi completamente eliminada;
  • Erros médicos e ingerência elevam os custos assistenciais e impedem aumentos de produtividade que poderiam gerar vetores de aumento nas margens.

Gestão ineficaz:

  • Setor de saúde, com algumas exceções, ainda sofre com modelos de gestão arcaicos ou simplesmente ausência de modelo de gestão;
  • Muitas empresas do setor são conduzidas por médicos sem capacitação em gestão, que tem foco nas ferramentas para trabalho do médico e ignoram necessidade de ferramentas básicas de gestão empresarial;
  • Movimentos de certificação de qualidade no setor é uma tendência forte e vem melhorando os resultados, porém a manutenção desses programas pode estar comprometida pelo aperto financeiro dos players com falta de margem para sustentar os programas;
  • Relacionamento com operadoras de saúde e com o governo (SUS) é ainda nebuloso e apresentam contratos que muitas vezes são desrespeitados e conduzidos de forma unilateral em detrimento aos prestadores;
  • Muitos operadores de saúde não são cobertos pelas regulações da ANS gerando um mercado com regras completamente diferentes daquelas orientadas pela agência. Com isso normativas e legislações deixam de serem aplicadas a esses operadores, criando um mercado paralelo no setor.

Como é facilmente visto acima, o setor de saúde ainda tem muito mais perguntas do que respostas. O fato é que o modelo hoje possui lógica invertida onde prestadores ganham por ato médico ou serviço realizado e não pelos resultados que entregam, sejam para os pacientes em termos de saúde ou para o mercado em termos de eficiência e inteligência no uso dos recursos disponíveis.

Temos 3 pontas soltas:

GOVERNO: que não consegue mais manter o SUS com mínimo de qualidade, porque não há recursos nem gestão e delegou a responsabilidade para operadoras que também encontram dificuldades de atuar com rentabilidade no modelo atual;

OPERADORES DA SAÚDE SUPLEMENTAR: que sofrem com as normativas que elevam os custos, pois obrigam cobertura de itens não negociados com os beneficiários desequilibrando os contratos. Sofrem ainda com o modelo em que o prestador recebe por produção e não por resultados.

PRESTADORES: que recebem por produção e que são obrigados e ceder na queda de braço com operadoras, recebendo cada vez menos e sendo obrigados a investir constantemente em tecnologia e conhecimento, sem conseguir reverter isso em nenhum ponto percentual de margem.

Onde isso tudo vai dar eu ainda não sei.

Fato é que projeções indicam que os gatos com saúde tendem a cair no Brasil e isso pode agravar ainda mais a situação do mercado. O gráfico abaixo mostra a projeção para retração dos gastos com saúde para países selecionados.

Gráfico by The Economist

O modelo parece esgotado. Até quando ele irá se arrastar pelo chão e agonizar ninguém sabe. Enquanto é relativamente fácil prever e entender as falhas no modelo atual, é muito difícil enxergar uma saída para o mercado de saúde que não passe por uma completa reorientação de todos os agentes envolvidos.

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Originally published at www.geekonomics.com.br on March 3, 2016.

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