Foto: Estúdio Sampa.

ELA COLORE A VIDA COM JARDINS DE CHITA

Alfabetizada aos 82 anos, Tetê Brandolim virou artista e hoje se orgulha das mais de 300 obras que criou.

Texto: Roberta Nagatsuka

Sob as bênçãos de Paulo Freire, que acreditava piamente na educação de anjos e não de homens e mulheres, conheci Therezinha Brandolim, uma graciosa artista plástica, alfabetizada aos 82 anos pelo método do educador. Sua filha Maria Zulmira, ou Zuzu, também nos acompanhou na conversa sobre a primavera constante de sua mãe.

Provavelmente você pensou: “Uau, por que será que só aos 82 anos ela começou a ler e escrever?”. Tetê não teve a oportunidade de estudar adequadamente quando era criança devido ao trabalho na roça. Contudo, dedicou-se aos estudos em outras fases da vida adulta, por meio de programas de Educação para Jovens e Adultos. Sempre contou com o incentivo da família. Mas faltava algo, talvez aquele ajuste caprichado nas lentes da vida.

Pois bem, em busca de uma nova alternativa para a mãe, Zuzu teve um clique em 2013 e resolveu procurar o Instituto Paulo Freire. Lá conheceu a professora Jany Dilourdes Nascimento, especialista no revolucionário método de alfabetização de Freire. Jany fez um diagnóstico cuidadoso, incorporou às aulas elementos da vida de Tetê, como sua receita de pão, suas orações, além de um tecido que fez parte de sua infância e adolescência: a chita. E foi nessa festa de cores, foi a partir desse tecido afetivo, que o talento de Tetê aflorou.

Tetê descreveu a aula da professora Jany: “Um ensino muito delicado.”

O processo de aprendizado foi rápido, escrita, leitura e arte desabrocharam juntas. Sim, porque além de ganhar autonomia como estudante, Tetê ganhou uma nova profissão, virou artista. Autodidata na produção de quadros, que têm por base o recorte e a colagem de flores de chita, Tetê já criou mais de 300 obras, realizou exposições e foi selecionada como destaque em 2015 na quadragésima Semana de Portinari, organizada pelo Museu Casa de Portinari. Zuzu e a artista plástica Cristiana Camargo começaram a preparar o livro “O Jardim de Tetê”, entre outros projetos.

“Ensinar não é transferir conhecimento. Mas criar as possibilidades para sua própria produção ou construção.” Paulo Freire
Primeira exposição de Tetê.

Confio que, para algo acontecer, este desejo precisa nascer primeiro aqui, dentro de nós. Mas, às vezes, ele fica ali paradinho, adormecido… Contar com pessoas que nos apoiem neste encontro com o nosso propósito de vida é realmente uma dádiva. Mudanças podem ocorrer em qualquer fase da vida, concorda? Hoje, Tetê está alfabetizada e é artista.

Tetê sorri ao lado de sua filha Maria Zulmira e de seu genro Ulrich Zens, pessoas também fundamentais nesta fase. Como ela mesma diz: “Eles são ouro!”

As dores físicas provenientes da idade estão ali. Porém, Tetê passa por elas de forma mais amena, a arte preenche seu dia a dia e colabora muito com a sua qualidade de vida física e mental. Durante a entrevista, ela sorriu e em seguida declarou: “Ah, me sinto muito bem.”

Tetê Brandolim descobriu seu talento na fase 8 da vida, número que faz referência ao símbolo do infinito — sem ponto de partida ou de término, seus traços estão em contínua ligação. Ela é um autêntico exemplo da força interior que floresce no exterior, uma belíssima história de reinvenção após os 80 anos.

Alto Astral por Tetê Brandolim

Siga Tetê nas redes sociais e acompanhe todas as novidades:

Facebook: Galeria Tetê Brandolim ~ Instagram: @tetebrandolim

Proponho um exercício final: feche os olhos, silencie o ambiente e imagine-se em uma sala com as janelas fechadas e repletas de relógios espalhados pelas paredes. Você só ouve o tilintar dos ponteiros que avisam, segundo a segundo, que a vida avançou e você pode — ou não — estar no mesmo lugar, assim que despertar. Permaneça quanto tempo sentir vontade. Ao abrir os olhos, respire profundamente.

Antes das letras e da arte entrarem efetivamente na vida de Tetê, os dias eram longos: “Antes eu olhava para as paredes, agora faço jardins coloridos.”

E você? Em qual lugar deseja estar?

Sugestão de leitura:

  • Pedagogia da Autonomia — Saberes Necessários à Prática Educativa, Paulo Freire, Editora Paz e Terra.

Roberta Nagatsuka é publicitária, pesquisadora de temas relacionados ao comportamento humano e apaixonada por conhecer culturas, pessoas e seus universos particulares. Superacredita nas relações construídas a partir de laços firmes, daqueles difíceis de desfazer.