ESPELHO, ESPELHO MEU

Seria eu mais velho do que eu?

Texto: Valéria Midena

“Historiazinha de quarta-feira, porque tem feijuca no quilão. Agência Estado tinha um enorme banheiro feminino, com um espelho grande ao fundo. Minha amiga Cacao, um dia, entrou no banheiro, olhou-se no espelho e gritou: ‘Nossa, que mulher parecida comigo, só que mais gorda e mais velha!”

Deparei-me com esse post no Facebook na semana passada, escrito por uma ‘facefriend’ muito querida, excelente jornalista e também (talvez ela discorde) impagável cronista.

Adorei. Há algum tempo vinha pensando em escrever um texto sobre esse momento da vida (que, acreditem, chega para todos nós), mas não sabia como começar. Post lido, problema resolvido — começo então com a historiazinha de minha amiga.

Num dia qualquer, normalmente entre os 40 e os 50 anos, sem querer a gente olha para o espelho com um certo distanciamento e um pouquinho mais de atenção. E aí, o susto: quem é essa pessoa?

O espelho habita nosso cotidiano desde o começo das nossas vidas. Tem uma função importante já na primeira infância, ajudando a nos descobrirmos e nos apropriarmos de nós mesmos. (Lacan chama de “fase do espelho” o período entre os seis e os dezoito meses, quando a criança, ainda impotente e sem coordenação motora, antecipa imaginariamente a percepção e o domínio de sua unidade corporal. Aí nasceria o primeiro esboço do ego.)

Essa relação com a imagem no espelho segue muito intensa pela segunda infância e pela adolescência, períodos de crescimento corporal e de transformações profundas e quase diárias. Num período em que a vida é pautada por fases pré-determinadas (ensino fundamental, ensino médio, universidade), e em que vivemos em permanente ansiedade pelo ingresso na fase seguinte, por meio do espelho investigamos cotidiana e atentamente cada novidade em nossa imagem: se o peito já cresceu, se os pelos ainda não vieram, se a espinha já sumiu… Na busca por descobrir quem somos e como somos, testamos mil possibilidades de cabelos, roupas e acessórios, ensaiando frente a ele, por horas e horas, nosso jeito de andar, de falar, de sentar, de dançar. É uma época em que a relação com o espelho é forte e íntima, pois ele nos auxilia no processo de construção de nossa imagem e de nossa identidade.

Entre os 20 e 25 anos, essa relação começa a se atenuar: o crescimento cessa e as transformações físicas já não equivalem a mudanças de fase. Entramos no mundo adulto com nossa imagem razoavelmente forjada não apenas junto ao espelho, mas também dentro de nossas cabeças — já sabemos mais ou menos quem somos, como somos, do que gostamos, a que grupo pertencemos. Não precisamos mais ficar nos observando e analisando tão proximamente, todos os dias.

A partir daí, nasce uma nova relação com o espelho, um pouco mais fria, quase distante. De amigo confidente, ele passa a objeto utilitário — um arrimo naquele momento de passar o batom (na boca já conhecida), de fazer a barba (com seus pelos e falhas já mapeados) ou de orientar a simetria do nó na gravata. Seguimos, claro, olhando para nossa imagem ali refletida, mas sem vê-la de fato — acreditando já conhecê-la, deixamos de observar, investigar, (re)descobrir.

E assim seguimos em frente. 20 e poucos, 20 e muitos, 30 e tantos, 40. Sem atentar para as sutis mudanças que se sucedem em nossos corpos, caminhamos convictos de sermos os mesmos, fixados naquela imagem de adulto que, dentro de nossas cabeças, construímos de nós mesmos.

Nesse percurso, muitas vezes também não percebemos que a forma como os outros nos vêem vai se alterando. Certo dia, alguém se dirige a nós usando ‘senhor’ ou ‘senhora’, mas não damos muita importância… achamos até bem educado. Em outro, acontece de novo. E de novo. De repente, com exceção de nossos pais e nossos tios, todos estão usando ‘senhor’ ou ‘senhora’ para falar com a gente.

Mais ou menos na mesma época, acontece a história da roupa — aquela roupa que é a nossa cara, que a gente tem há anos e adora porque nos faz sentir muito lindos (e que nos dá um certo orgulho, pois nos cabe superbem, tanto tempo depois, vejam só!). Aí um certo dia a gente resolve usar a tal roupa, veste, realmente ela cabe direitinho, mas surge um estranhamento: a composição final, a somatória daquele corpo com aquela roupa parece dar agora um resultado diferente daquele que conhecíamos tão bem. A roupa continua a caber mas, subitamente, deixa de nos servir.

Nesse momento, olhamos mais uma vez para o espelho, mas agora voltamos a nos ver. E então descobrimos que a imagem que está ali não é a mesma que havia se congelado dentro de nossas cabeças — ali tem uma pessoa, como bem disse a amiga Cacao, parecida com a gente, porém mais velha. Na imagem do espelho, nos vemos num futuro que, não havíamos pecebido!, já chegou.

O difícil desse reencontro com nossa imagem é aceitar a fragilidade e a impermanência de nossos corpos — reconstruir a imagem física que temos de nós mesmos requer generosidade e desprendimento. Mas por outro lado, perceber que, independentemente de nossa (nova) imagem, continuamos a nos sentir os mesmos de sempre, apropriados de nossas escolhas, nossos desejos e projetos…. hummm… isso dá uma liberdade, e um poder… ;o)


Arquiteta por formação, designer por opção e esteta por devoção. Valéria Midena não se identifica com small talks — sua praia são as reflexões analíticas, os conteúdos relevantes e as emoções verdadeiras. Apaixonada por artes visuais, design, música, literatura e cinema, é autora e editora do sobretodasascoisas. Em horário comercial (e às vezes em outros também), atua em projetos de planejamento e estratégia de marca.