
TESÃO NA MATURIDADE, COMO MANTER A CHAMA ACESA AO LONGO DOS ANOS
O que muda na sexualidade com a maturidade.
Texto: Denise Ribeiro
Os conflitos da sexualidade, que nos acompanham desde a puberdade, se intensificam na maturidade, quando passamos por profundas transformações hormonais. Para homens e mulheres incomoda a pergunta latente, que não quer calar: até quando sentiremos tesão? Mesmo mulheres bem resolvidas e homens orgulhosos de seu vigor sexual se debatem com questões de autoestima que acabam minando seu desempenho sexual. Para responder a algumas das dúvidas que nos fragilizam, chamamos a jovem jornalista Nathalia Ziemkiewicz, pós-graduada em educação sexual, palestrante e autora do blog Pimentaria, que trata de assuntos relacionados à sexualidade.
Nathalia e seu blog ganharam notoriedade e visibilidade em duas ocasiões: em 2013, quando publicou uma carta aberta defendendo Fran, uma garota goiana massacrada pelas redes sociais depois de divulgado um vídeo íntimo em que assume gostar de sexo anal. No ano seguinte, ela se insurgiu contra a decisão da justiça de Manaus de negar indenização ao ajudante de pedreiro Heberson, acusado injustamente por estupro e que contraiu HIV na cadeia.
Do ponto de vista do tesão e do desejo, o que muda com a maturidade?
Nada na sexualidade pode ser generalizado, mas existem dois aspectos que interferem bastante no desejo com o passar dos anos. Por mais saudável que tenha sido o estilo vida da pessoa e por mais jovial que seja sua forma de encarar o mundo, tanto o corpo quanto a cabeça mudam. Naturalmente, por volta dos 50 anos, homens e mulheres sofrem alterações hormonais — na menopausa e na andropausa, os níveis de testosterona caem. E a testosterona é o combustível fisiológico do tesão. O problema é que, além da natural queda hormonal, aparecem mais frequentemente doenças como diabetes e hipertensão, aumenta o uso de remédios como antidepressivos etc. Esse conjunto de fatores orgânicos leva, muitas vezes, à disfunção erétil, à pouca lubrificação vaginal e à perda da libido. Se eu não consigo ter uma ereção, se estou tão seca a ponto de sentir dor na penetração… são grandes as chances de eu evitar o sexo, entende? Existe ainda a parte emocional. Por exemplo: como ele(a) lida com o próprio corpo nesta fase da vida? Se acredita que sexo tem a ver com peito e pau duro, com posições de Kama Sutra e desempenho de filme pornô… provavelmente vai se sentir “inadequada(o)” e achar que não tem mais idade “pra isso”. Como lida com a saída dos filhos de casa, a aposentadoria, o casamento/divórcio/viuvez, a perspectiva em relação ao futuro? Nosso órgão sexual mais importante não está entre as pernas, mas acima do pescoço. Nunca, ao longo da História, vivemos tanto: por volta dos anos 1910, a expectativa de vida era de menos de 40 anos! Queremos chegar aos 100 anos, mas chegar com a qualidade de vida dos 50. E queremos chegar aos 50 com a disposição para o sexo que tínhamos aos 20…
Tenho encontrado mulheres com mais de 50 muito mais bem resolvidas com sua sexualidade do que as de 20 anos. Já seria um dos efeitos colaterais da maturidade?
Acho que isso depende mais da bagagem e da personalidade da mulher do que propriamente da data em seu RG. Mulheres com 50 anos ou mais nasceram na Revolução Sexual ou a viram emergir. Talvez ainda tenham ouvido de suas mães que “mulher deve casar virgem”, talvez tenham descoberto o direito ao prazer muito mais tarde. Se o mundo reprime a sexualidade feminina nos anos 2016, aposto que as “bem-resolvidas” aos 20 anos eram exceção. Nesse sentido, a geração dos 20 anos parece levar vantagem. Por outro lado, quem conseguiu amadurecer acompanhando as mudanças culturais pode ser mais livre mesmo, do tipo “eu já sei o que eu quero, o que eu não quero, o que funciona” e “dane-se que vão me chamar disso ou daquilo porque sei do meu valor”. A mulher livre conhece os atalhos do próprio prazer porque se masturba, não finge orgasmo apenas para agradar o outro, não tem vergonha de comprar um sex toy ou sugerir uma ida ao motel, não depende emocional e financeiramente de uma relação infeliz, não está nem aí para o que o outro vai pensar dela se quiser só um sexo casual. Agora, honestamente, tenho visto muito mais mulheres maduras que ainda estão presas a dogmas do passado, que nunca tiveram um orgasmo na vida, que não possuem intimidade para conversar sobre sexo com o parceiro de décadas.

Tenho a impressão de que mulheres maduras são mais liberais em sua visão da sexualidade do que os homens. É correta essa percepção?
Então, acabei respondendo um pouco disso acima. Liberais no sentido de aceitar/experimentar coisas novas? Então, depende muito de como ela lida com a repressão sexual (que sempre recai sobre as mulheres, nunca sobre os homens). É muito mais comum ouvir de um casal maduro que ele propôs uma visita ao swing ou um ménage, por exemplo, mas a companheira “é careta demais”. Por outro lado, muitas adorariam tentar cenários/fantasias/acessórios/cosméticos sexuais e eles torcem o nariz. Acho que os homens mais velhos, aí sim, têm muita dificuldade de lidar com a mulher madura bem-resolvida, aquela que não precisa de um provedor (de dinheiro, de alegrias, de companhia) e fala abertamente de seus desejos/aventuras sexuais. Os pais desses homens nem precisavam se preocupar se a esposa teria ou não orgasmos! Hoje eles estão assustados porque as mulheres não apenas notam como cobram um bom desempenho deles na cama, saca?
Você tem algum relato pra compartilhar conosco sobre as virtudes das mulheres maduras na cama, segundo a visão masculina?
Mulheres maduras bem-resolvidas sexualmente (porque nem todas são), segundo eles, sabem o que querem e como querem. Em vez de assumirem uma posição passiva de boneca inflável, conduzem o sexo porque estão seguras/confiantes — e isso não tem necessariamente a ver com estar literalmente por cima, não. Elas falam, pedem, gemem, perguntam, expressam o que estão sentindo. Pavor de homem em qualquer idade é mulher muda, aquela que eles não sabem se está gostando ou não. Também dizem que são mais carinhosas e compreensivas na cama, menos ansiosas e não ficam cobrando no dia seguinte… Mas, de novo, não
dá pra dizer que todas são assim.
Você é consultada sobre relacionamento sexual por mulheres com mais de 50 anos?
Com certeza. As queixas mais comuns delas, solteiras ou não, são falta de lubrificação vaginal e baixa libido. Mas existem aquelas que me pedem ajuda para comprar o primeiro vibrador porque, “sem os filhos em casa”, reinventaram o sexo com o parceiro — na cozinha, na sala, sem gemido abafado (hahaha). Ou porque estão de namorado novo, entraram no Tinder. Algumas também comentam sobre parceiros com disfunções sexuais que se sentem ofendidos quando elas tocam no assunto e sugerem uma visita ao médico — “porque aguentaram até que os filhos estivessem criados, mas agora não dá mais…”.
Percebo as mulheres mais velhas menos focadas em compromisso, fidelidade e ciúmes do que as mais novas. Confere?
Nossa, quero conhecer suas amigas, porque elas são demais!!! Quem se libertou da repressão sexual e do ideal do amor romântico (aquele da “metade da laranja”), certamente não tem apego à fidelidade e quer distância de qualquer coisa que ameace sua individualidade. É mais provável entre mulheres mais velhas que, por exemplo, já viveram uma longa relação ou um casamento. Elas têm experiência para identificar, quando maduras também emocionalmente, quais comportamentos não foram eficazes nas relações anteriores nem lhes fazem bem. Por exemplo: sofrer de ciúmes do parceiro e proibi-lo de sair com os amigos impediu uma traição? Ciúme é um dos sentimentos mais inúteis que existem, porque ele não impede o outro de fazer o que quer, só faz com que você sofra. Outro exemplo: compartilhar tudo com o parceiro, viver sob o mesmo teto… é a única (e a melhor) forma de ter um relacionamento que não sucumbe ao tédio da rotina? O outro é capaz de me dar tudo o que eu desejo (e eu sou capaz de satisfazê-lo por completo) ou seria mais honesto abrir a relação para um modelo não-monogâmica?
Que conselho você daria para as mulheres que de uma hora para a outra se veem sozinhas depois da morte do marido ou de uma separação?
A sexualidade é inata e intransferível. Nós nascemos com ela, nós continuamos com ela independentemente dos outros. Todo luto, seja pela morte ou separação de um parceiro, precisa ser vivido — para que a gente se conheça melhor, elabore os sentimentos todos e siga em frente. A naturalidade em relação ao sexo começa com a gente mesmo, com se permitir a ter prazer sem precisar de ninguém. Sexo solitário. Aí você entende que a sexualidade é sua! Depois disso, você pode escolher quando/como/com quem quer compartilhar essa sexualidade. E tudo bem levar tempo para se sentir confortável, tudo bem recusar um pernoite nos primeiros encontros, tudo bem estranhar o tamanho do pau ou o tipo da pegada. A dor de barriga passa. Claro que novidade pode ser assustadora, mas também pode ser excitante. Ter todas as possibilidades à mão, escolher o que quiser, dentro dos seus limites. Bem-estar sexual é um dos pilares para a qualidade de vida — quem diz é a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Muitas amigas minhas reclamam de inapetência sexual por conta da baixa autoestima. Como lidar com isso?
Então, se elas já identificam que a baixa autoestima atrapalha o desejo sexual, não há parceiro(a) que possa ajudar. Será que elas estão se comparando com elas mesmas 20 anos atrás, com a atriz do filme pornô, com a colega de trabalho dele? Uma história: fui fazer uma palestra numa sex shop em Belém (PA) e soube que, naquela semana, uma cliente de 50 e poucos anos apareceu para trocar uma lingerie que ganhou do marido. Disse que era sensual demais, que não tinha corpo para vestir aquilo, que se sentia ridícula. Olha a loucura! O cara entrou numa loja e escolheu uma lingerie que gostaria de ver nela — é óbvio que ele a conhece e sabe como é o corpo dela; levou porque a visualizou gostosa e erótica naquelas peças. A visão que temos de nós mesmos não costuma ser generosa. E se fizéssemos o exercício contrário? Será que o outro não tem uma barriguinha, uns pelos em excesso, umas cicatrizes imensas? Será que ele me dá tesão mesmo assim porque o que importa é a atitude e não a estética? Pois é. Se o caso é grave, recomendo terapia. Se é um leve mimimi, sexo à meia luz pode funcionar.
E os homens? O que os incomoda mais?
Eles se ressentem muito de serem os únicos a tomarem iniciativa para o sexo — e isso afeta a autoestima. Gostariam que as parceiras os procurassem e demonstrassem interesse, não apenas “respondessem” às investidas deles. Também se incomodam com o fato de o pênis, muitas vezes, ter perdido rigidez na ereção. Ou seja, não são necessariamente impotentes, mas não conseguem ficar tão duros e por tanto tempo. Como eu disse, o corpo passa por transformações com a idade…
