Uma pá de performances ao vivo para chapar em Chance The Rapper

O que fez a minha cabeça no som de Chance The Rapper desde a primeira vez que ouvi Acid Rap anos atrás foi o fato de não ser óbvio. Sou fã de rap há um bom tempo e quando alguém me descreve uma música, que eu não conheço, mais ou menos assim “é um boom bap, com sample de jazz, o refrão é legal e as rimas têm uma pegada política”, é óbvio que combina com o meu gosto e é muito provável que eu vá gostar. Mas se alguém me descreve — ou melhor, me descrevesse antes de conhecer o Chance — um som assim: “é rap, mas não é boom bap puro, nem trap, tem bastante trompete, tem horas que parece música da disney, tem muita influência de gospel, o cara dá vários gritinhos e faz uns nananana no meio, fala bastante de Deus, o flow é meio declamado, e às vezes rola uma batida acelerada que é tipo ghetto house, chamam de juke”. E aí?

É esse o efeito do Chance, pelo menos para mim. Te pega desprevenido, foge do óbvio — que, não me entendam mal, também é excelente muitas vezes, mas aqui o lance é outro. Com uma persona gigantesca, ele apenas sai da casinha, enfia um monte de textura, não tem o MENOR desejo de ser cool ou gangsta, joga o rap num caleidoscópio de gêneros musicais e vê o que acontece. Tudo o que se pode dizer no final das contas, meio atordoado, como se você tivesse tomado um LSD sintetizado numa folha da bíblia, é “que puta sonzera fodida, irmãozinho!”.

Artista independente, só streaming, grammy, etc, etc. Sim. Agora não é hora da cartilha geral. Aqui tô falando de uma pá de performance ao vivo para você chapar em Chance The Rapper. Boa jornada!

“Nostalgia” — Biblioteca de Chicago

Bom, temos que começar pelo começo. Mais precisamente por 2011. Nesse vídeo, vemos Chance — ainda sem a alcunha The Rapper –, aos 17 anos de idade, mandando suas rimas no evento que ele considerou decisivo para todos os rimadores de Chicago de sua geração: os open mics da YOUMedia. Realizados em bibliotecas públicas da cidade, as intervenções artísticas revelaram, além de Chance, nomes como Vic Mensa e Nico Segal (o antigo Donnie Trumpet). Aqui, o rapaz manda “Nostalgia”, que, mais tarde, seria incluída em sua mixtape de estreia, 10 Day (2012). Kids of the Kingdom singing about freedom…

Infelizmente, há quase nenhum vídeo ao vivo com áudio decente da época do 10 Day. Mas, se eu fosse você, já me ligava em músicas como “14,400 minutes”, “Hey Ma”, “Brain Cells” e “Windows”, além da colaboração com o The O’My’s, outra cria de Chicago, em “Wonder Years”.

“Paranoia” e “Interlude (That’s Love)”

Eis que o imperdível Acid Rap (2013) aparece e Chance entra de vez na rota do rap. Desse período, também há pouca coisa ao vivo com áudio de qualidade pela internet, mas duas canções da mixtape, de atmosferas totalmente opostas, foram registradas em belas performances. A primeira é a faixa mais introspectiva do solar Acid Rap: “Paranoia”, na qual o rapper fala sobre a violência em Chicago. Sempre achei denso o verso “I know you scared/You should ask us if we scared too”. Interprete como quiser.

Tem mais um “Paranoia” no Windy City LIVE!:

A segunda é “Interlude (That’s Love)”, canção que divide Acid Rap. Com influências de gospel e soul e letra ultramorosa, a faixa é uma das que resume da melhor forma a esquizofrenia musical da mixtape e da própria obra de Chance. Sem perceber, o baguio vai virando outro baguio!

Bônus: para não esquecer do onipresente deboche — “NaNa

E, claro, o Acid Rap inteiro.

“Sunday Candy” — Windy City LIVE!

Entre Acid Rap (2013) e Coloring Book (2016) existiu Surf (2015), projeto encabeçado por Donnie Trumpet em parceria com a Social Experiment. Chance rouba a cena no disco, atuando em canções como “Miracle” e “Warm Enough” e na belezura “Sunday Candy”, faixa — que mistura rap, gospel, juke e soul — dedicada à sua avó. Até hoje, acho uma das melhores dele. Daquelas que muda o humor.

A performance, além da Social Experiment, conta com Jamila Woods, dona de bela voz e parceira frequente de Chance. Lançou um baita disco em 2016 também.

PS: o público do programa é constrangedor.

PS: vale a pena conhecer esse gospelzão que é citado na música.

“Somewhere In Paradise” — SNL

Em dezembro de 2015, Chance fez sua estreia no SNL. Uma das músicas foi “Somewhere In Paradise”, faixa que vinha sendo apresentada em shows desde 2014, mas que não foi incluída em Surf (e nem em Coloring Book). Essa performance é uma das minhas preferidas dele em programa de TV, uma pena que a versão de estúdio da faixa perdeu tanta força, sem o trompete. God is so awesome, devil is a liar!

PS: só Chance pra conseguir fazer seu conterrâneo Jeremih falar sobre paraíso e amizade, em vez de putaria. LINK AQUI

“Angels” — The Late Show With Stephen Colbert

A expectativa para a terceira mixtape de Chance era grande. Após Surf, “Somewhere In Paradise” e “Sunday Candy” , houve muita gente que desconfiasse que o rapper se jogaria cada vez mais no gospel. Acertaram. A primeira amostra veio em outubro de 2015, com o lançamento de “Angels”, acompanhado do conterrâneo Saba — outro dono de um bom lançamento de 2016 —, no programa de Stephen Colbert. This what it sound like when God split a atom with me!

“Blessings” — Jimmy Fallon

Aqui o gospel chegou de vez. Anunciando o lançamento de Coloring Book, Chance apresentou “Blessings” no programa do Jimmy Fallon em maio de 2016. Além de Jamila Woods, o rapaz convocou um coral de crianças e o cantor gospel Byron Cage para não haver dúvidas que the shit just got religious. Divino. Don’t be mad!

“Summer Friends” — Live on GMA

Coloring Book já havia saído e Chance começava sua peregrinação pelos programas de TV e rádio com uma missão: tocar o máximo de músicas possíveis da mixtape. Isso deve ser uma bela vantagem de ser independente. Foda-se o single. Acompanhado de Francis & The Lights e o mago Peter Cottontale, Chance entregou uma comovente versão de Summer Friends.

PS1: “None of my niggas ain’t had no dad/None of my niggas ain’t have no choice”. Essa tripla negativa é fuego.

PS2: o flow do segundo verso é tão cativante que, mesmo numa versão intimista dessa, tem gente que arrisca seus passinhos. Se liga na moça no canto nos 3:00.

“No Problem” — The Ellen Show

Essa aqui é simples: Chance, 2 Chainz, Lil Wayne e SoX quebrando tudo no programa da Ellen DeGeneres. Baita performance. Esse som é tipo uma festa de hip hop pesada só que dentro de uma igreja.

PS: (04:06) por causa das tretas com a Cash Money, Lil Wayne muda o último verso dele para “If Cash Money try to stop me/ I’ma let them rob me/ Yeah right, like Ryan Lochte.” — o famoso “NADADOR AMERICANO” que causou nas olimpíadas. Chance e Lil Wayne vão ao delírio. (Tiraram do YouTube, mas tem nesse link).

Homenagem a Muhammad Ali

Chance mostrando suas habilidades como cantor nessa homenagem à lenda Muhammad Ali, numa premiação da ESPN. Só existe essa gravação da faixa, apelidada de “I Was A Rock”, e o rapper já confirmou que ela não vai sair em versão de estúdio. O verso “I was a rock n’ roller, but now I’m just a rock” e a canção toda são de arrepiar os pelos da picanha.

“All We Got” — BBC 1Xtra Live Lounge

Em mais uma etapa de cantar todas as faixas de Coloring Book, Chance aterrissou na terra da rainha para apresentar essa puta versão de “All We Got”, entrada (e não intro) da mixtape. Nessa versão, o rapaz faz uma oração ao amigo maluquinho e genial Kanye West, que produziu a faixa e, à época, havia sido interndo em função de um colapso mental. A parte final é bem mais minimalista (e bonita) do que a da versão original. Como diz o primeiro comentário no YouTube: os dois últimos minutos são ouro puro. That’s the holistic discernment!

“Finish Line” — SNL

Voltando ao palco do SNL, no programa especial de Natal, Chance se veste como o Super Mario que comeu uma flor mágica do Jardim do Éden e se junta à inspiradíssima conterrânea Noname — outra que lançou um DISCAÇO ano passado — para mandar “Finish Line/Drown”. A faixa, uma das minhas preferidas de Coloring Book, ganhou ainda mais poder ao vivo, com os coros e os metais acentuados. Na parte final, comandando a banda mesmo sem manda rima alguma, Chance parece uma mistura entre Kirk Franklin e James Brown, dominando o palco como poucos fazem hoje em dia no show biz. Gimme the water, I need the kind from Space Jam!

Obs: Esse é melhor ouvir no fone, a qualidade não tá das melhores.

“Sunday Candy” — Casa Branca

Versão ainda ainda mais gospelizada de “Sunday Candy”, festa de natal da casa branca, último mês do Obama. Só vê.

“Blessings (reprise)” — Magnificent Coloring Day

Essa talvez seja a mais foda da lista e merece ser o encerramento. “Blessings (Reprise)”, que fecha o Coloring Book, é apresentada no Magnficent Coloring Day, um festival em Chicago idealizado por Chance e que contou com nomes como Alicia Keys, Tyler The Creator e John Legend no line up. O coro de crianças de Chicago dá o tom. Are you ready? LINK AQUI

The people’s champ must be everything the people can’t be.

Ainda teve uma baita apresentação no Grammy (How Great/All We Got), mas é mais difícil de encontrar pela web. (Eu tenho salvo aqui, quem quiser é só pedir).

TINY DESK (“Juke Jam”, poema e “They Won’t Go When I Go”)

Depois de muita expectativa, nosso herói finalmente aterrissou pelo Tiny Desk. Em uma rápida performance, ele continuou sua missão de tocar todas as faixas de Coloring Book ao vivo. A escolhida da vez foi “Juke Jam” — em uma versão muito melhor — soulful! — do que a do disco. Também rolou um poema feito especialmente para a ocasião, além de uma releitura de “They Won’t Go When I Go”, do mestre máximo Stevie Wonder.

Se liga:

“First World Problems” — The Late Show With Stephen Colbert

No fim de setembro de 2017, Chance apresentou uma música inédita no programa de seu amigo Stephen Colbert. Segundo ele, o plano era tocar “Grown Ass Kid, canção a princípio incluída em Coloring Book, mas retirada por problema de direitos autorais na utilização do sample (aos 3:10). O entrave não se resolveu e a solução foi se juntar ao talentoso Daniel Caesar e compor uma música em coisa de dois dias. A intimista faixa ganhou o título de “First World Problems” no dia seguinte à performance no programa.

GOOD GOD!

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