A criança, a mulher e o boi

Certa vez, a filósofa Marilena Chauí mencionou, em uma de suas apresentações, um fato bastante elucidativo acerca do comportamento da classe média paulistana. Para ela, trata-se de um mistério, sustentado por uma espécie de dupla conduta dessa parcela da população, a depender, certamente, dos espaços em que seus privilégios são assegurados ou ameaçados. Segundo Marilena, os indivíduos que compõem essa parcela da população podem ir da civilidade doméstica à brutalidade no espaço público num piscar de olhos.

Pois bem. Parece que a classe média tijucana guarda certas semelhanças com a paulistana. Explico. Estava eu num supermercado da Tijuca nesta tarde, numa sessão qualquer, quando sou surpreendido por pessoas correndo e alguns gritos eufóricos. Coloquei a cabeça para fora do corredor a fim de saber o que acontecia, quando pude ouvir melhor os gritos de “pega ladrão”. Enquanto isso, uma multidão brotava do aparentemente inabitado supermercado (a classe média fala baixo, em nome da boa educação) e se lançava até a porta do estabelecimento. Imediatamente assaltado pelas notícias de linchamentos motivados por casos semelhantes nos últimos meses, corri também até à porta, na tentativa de poder intervir caso algo do tipo viesse a se anunciar.

Charge do cartunista Vitor Teixeira.

No mesmo instante, confundindo-se com o imperioso clamor de justiça dos que gritavam “pega ladrão” — em frente ao estabelecimento e do outro lado da rua (a classe média é solidária) — . ouviam-se apelos vindos, desta vez, de dentro do supermercado. Outra multidão corre no sentido oposto para poder ver, caída num chão repleto de sangue (que, confesso, provocou-me, num primeiro momento, certo assombramento), uma velhinha que fazia compras, desequilibrou-se e bateu a cabeça numa prateleira. Rendeu-lhe um talho enorme na testa e um contingente de pessoas um tanto histéricas sem saber lidar com uma senhora machucada no chão.

O ponto que me motivou a escrever este texto, no entanto, vem a seguir. A distância entre os dois fatos, que se desenrolavam ao mesmo tempo, era pequena o suficiente para me permitir escutar comentários dos que observavam ambos os acontecimentos. De um lado, expressões chorosas, lamuriando a má sorte da senhorinha de ter caído e sangrado no meio do supermercado. As pessoas eram pró-ativas, e das muitas mãos se estendiam guardanapos, algodões, toalhas e panos molhados, copos com água, celulares e muitas boas intenções. Do outro, entre os que maldiziam o meliante, um senhor comentava que haviam pegado o ladrão (pude ver: era um garoto, lá com seus 12 ou 13 anos de idade). Parece que um carro o havia interceptado e o menino, que pilotava uma bicicleta, assim como a velhinha, também estava caído ao chão. Das pessoas em volta deste senhor, pude ouvir, quase em uníssono: “deveria ter passado por cima!”.

“Feito um equilibrista desajeitado, nossa sociedade caminha na linha tênue entre justiça e vingança — e, portanto, entre civilização e barbárie — , sujeita, frente à menor imprevisibilidade, a perder completamente o controle de seus passos.”

Confesso que, neste momento, traduzi-me em incompreensão, sem saber ao certo os mecanismos que justificavam a banalidade da vida de um garoto e que, ao mesmo tempo, defendiam (através de práticas e discursos) a vida de uma senhora. Ela, tomada por um acidente; ele, réu sem processo, acusado, julgado e condenado à morte (ainda que não executada) sem garantias de qualquer defesa ou contraditório. Esse apelo à selvageria, certamente, não pode ser considerado um espetáculo amador. Trata-se, na verdade, de um ato muito bem ensaiado, dirigido, por exemplo, pelos diversos programas de TV sensacionalistas e discursos de ódio promovidos por “jornalistas” que buscam fazer da violência brutal — uma resposta dada a uma parcela da população insatisfeita com a segurança pública em nosso país — plataforma de carreira como alternativa à mediocridade de suas análises e de seu trabalho comunicativo. Uma tragédia que se torna pior num país sem democracia dos meios de comunicação, com uma imprensa manipulada e comprometida com a ideologia dominante.

O cartunista Vitor Teixeira, novamente, denunciando o sensacionalismo dos meios de comunicação, responsáveis pela difusão de discursos de ódio.

Nesse momento, lembrei de um artigo recente de Maria Rita Kehl, intitulado “Justiça ou Vingança”, em que ela dispara: “Sou obrigada a concordar com Friedrich Nietzsche: na origem da demanda por justiça está o desejo de vingança. Nem por isso as duas coisas se equivalem. O que distingue civilização de barbárie é o empenho em produzir dispositivos que separem um de outro. Essa é uma das questões que devemos responder a cada vez que nos indignamos com as consequências da tradicional violência social em nosso país”. Feito um equilibrista desajeitado, nossa sociedade caminha na linha tênue entre justiça e vingança — e, portanto, entre civilização e barbárie — , sujeita, frente à menor imprevisibilidade, a perder completamente o controle de seus passos.

Partindo das minhas incompreensões, sem a pretensão de esgotar a análise desse fenômeno social — o qual precisa ser observado a partir da contribuição de outros saberes, como a criminologia e as ciências sociais —, escrevo para que nos perguntemos sobre o tipo de sociedade que temos nos proposto a construir. Num momento em que se aprovam na Câmara dos Deputados projetos como a PEC 171/1993 (que dispõe sobre a redução da maioridade penal), vale uma tentativa de nos debruçarmos acerca dos conceitos de justiça com os quais temos pactuado. Como lembra Leonardo Sakamoto, em seu artigo “Linxar deve ser terapêutico. Se envolver inocente então, melhor ainda”, “ao criticar linchamentos públicos não defendo ‘bandido’, mas sim o pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver (minimamente) em harmonia. Em suma, abrimos mão de resolver as coisas por nós mesmos para impedir que nos devoremos”.

Em relação à classe média, especificamente, presumo haver uma bondade seletiva, que se manifesta através de diversos símbolos. Por exemplo, por meio da relativização de seus discursos de ódio, moldados de acordo com a parcela da população a que são destinados. Esse comportamento esquizofrênico apresenta-se, também, a partir da recondução de seus comportamentos morais mediante disparos que ou lhe garantam posições e privilégios, ou se instalem como ameaça. Por fim, há também certa prepotência da classe média em se auto-eleger como detentora da justiça e paladina da moralidade, tentando imputar a setores da sociedade, atingidos por iniquidades que a própria classe média ajudou a montar, preceitos morais e condutas permitidas ou condenáveis. Tudo isso, como lembra Marilena Chauí, a partir de um sustentáculo de poder ideológico que é, hoje, detido pela classe média; poder esse que opera a partir de ideais conservadores, reacionários, beirando um protofascismo.

Uma das marcas desse tipo de sociedade fascista é o não reconhecimento da humanidade do outro. Nesse sentido, gostaria de terminar este texto com uma imagem que, a meu ver, dá conta de expressar a minha inconsistência diante desta tarde de agosto. Quando o menino se levantou, depois de ter sido quase atropelado pelo veículo, ainda um tanto desequilibrado, ainda teve tempo de olhar para trás. Era medo que eu puder ver em seus olhos — o mesmo medo da senhora caída no chão, que falava ao celular com alguém da família, enquanto me olhava com os olhos cheios de lágrimas. Como mensurar a dor de um ser humano diante da impotência, da pobreza, da tristeza, da morte, da doença, da fragilidade? Como permitir, de um lado, que se mate em nome de justiça, e de outro, que se salve em nome da construção de uma sociedade igualmente justa? Entre a criança e a mulher, lembrei novamente de Maria Rita Kehl: “Quando se trata de experiências limite, é preciso escutar os poetas. Torquato Neto, por exemplo: ‘Leve um homem e um boi ao matadouro; aquele que berrar é o homem. Mesmo que seja o boi’”. Quais berros estamos dispostos a escutar? O silêncio, diante do berro que não ouvimos, tem sido bastante barulhento.

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