Quanto custa uma calça comprida?

Desde que eu trabalhava no Fórum em Florianópolis, me incomodava muito o fato de se precisar utilizar “vestimenta adequada” para entrar nos prédios públicos (fórum, tribunal de justiça etc.). Sempre me perguntava: e quem não tem calça comprida, não pode entrar? A trilha sonora desses pensamentos era, repetidas vezes, uma música do Zé Ramalho chamada “Cidadão”. Nela, ele descreve o drama de um pedreiro que construiu um edifício, mas não pode olhar pra ele sem ser interpelado por uma pessoa que lhe pergunta por que ele olha assim admirado: tá querendo roubar? Ele também constrói uma escola, mas seu filho, que não tem chinelos, não pode lá estudar. E é assim que o cantor retrata essa segregação social em que a gente tem bem determinados os papéis que a cada um, de acordo com o que tem no bolso — ou com o tipo de roupa que carrega esses bolsos -, é permitido ou se faz proibição.

Esta semana, um amigo não conseguiu entrar no Ministério Público do Rio porque usava bermuda. Precisou comprar calças compridas, num camelô em frente à Central do Brasil, pra conseguir subir os seis andares com uma sensação indigesta de que aquele prédio não existe pra todo mundo. E dizer que aquele prédio não existe pra todo mundo é dizer que a justiça não existe pra todo mundo — a justeza, além de cor, tem classe social e vestimenta predileta. Assim como a saúde não foi feita pra todo mundo. Em última instância, viver é pra poucos e quem pode coloca um “sobre” na frente da palavra e tenta se defender da perversidade dessa sociedade.

Fazendo um recorte do nosso sistema carcerário, e do perfil das pessoas que a gente encontra nele, me parece um paradoxo muito claro: as pessoas que mais precisam entar nesses prédios, porque a pobreza é convidada de honra do banco dos réus, simplesmente são impedidas. O acesso físico bloqueado acaba sendo convertido na representação simbólica que a justiça carrega para os donos das calças curtas: uma quimera indecifrável recheada de medo e imponência, que emerge do oceano das desigualdades sociais que banha as avenidas e ruas da cidade e se propõem, irrefutável, a amaldiçoar os “des”calçados.

Meu amigo comprou uma calça comprida, usou, e depois doou pra uma pessoa em situação de rua que “morava” na frente do prédio da Central do Brasil. Certamente, em algum momento, será muito útil a ela.

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