Nós todos deviemos ameríndios

Tradução brasileira de texto de Bruce Albert[1] ao Le Monde, de 19 de abril de 2020. Tradução de Maurício Pitta. Original intitulado Face au coronavirus, « nous sommes tous devenus amérindiens ! ». Disponível em https://www.lemonde.fr/idees/article/2020/04/19/covid-19-nous-sommes-tous-devenus-amerindiens_6037067_3232.html, acesso em 20 de abril de 2020.

Claudia Andujar, Forêt amazonienne, Para, série Sonhos Yanomami [Rêves Yanomami], 1971 (2015). 100 x 100 cm
© Claudia Andujar, Collection du MEG — Musée d’ethnographie de Genève. Fonte: https://revueexsitu.com/2017/09/07/les-esprits-de-lamazonie-au-musee-pointe-a-calliere-une-experience-ephemere-et-envoutante/

No dia 9 de abril, o novo vírus SARS-CoV-2 fez sua primeira vítima fatal em meio ao povo yanomami. Trata-se de um adolescente de 15 anos, proveniente de uma comunidade da bacia do rio Uraricoera, no Brasil, invadida maciçamente por garimpeiros clandestinos.

Apresentando sintomas respiratórios característicos, desnutrido e anêmico em virtude de sucessivas crises de malária, o jovem Alvaney Xirixana foi transferido de uma instituição sanitária a outra por vinte-e-um dias com uma simples prescrição de antibióticos, sem nunca ter sido submetido a um teste de triagem do Covid-19. Ele finalmente foi testado apenas no dia 3 de abril, depois de uma nova hospitalização, desta vez em estado crítico, precisando ser posto em um respirador, e veio a falecer no dia 9 de abril. Alvaney, vítima do descuido absurdo de servidores de saúde locais, se tornou provavelmente e sem querer um “superdifusor” da doença, resultado de numerosos contatos que ele teve, ao longo de três semanas, com membros de sua comunidade, com seus amigos e com o pessoal de saúde. Assim, a ameaça iminente de um novo desastre sanitário de grandes proporções pesa novamente hoje sobre os Yanomami.

Este povo já tem conhecido epidemias assassinas (especialmente de sarampo e de infecções respiratórias) a cada aparição de novos protagonistas da “fronteira branca”, que avança sobre seu território: nos anos 1940, com a Comissão de Fronteiras; nos anos 1950, com o Serviço de Proteção as Índio; nos anos 1960, com os missionários evangelistas; e nos anos 1970, com a abertura de uma seção da Transamazônica. Após o fim dos anos 1980, e regularmente após isso, seu território foi invadido por hordas de caçadores clandestinos de ouro — hoje, são por volta de 25.000 — , dentre os quais muito provavelmente se encontra a origem desse primeiro caso de Covid-19, além da propagação (entre outros) da malária, da gripe, da tuberculose e de doenças sexualmente transmissíveis.

O caso de Alvaney Xirixana é o trágico símbolo da vulnerabilidade extrema na qual se encontram os povos amazônicos (e todos os povos autóctones) diante da contagiosidade e da virulência do SARS-CoV-2. Já massivamente contaminados pelos Brancos que invadem suas terras para arrancar minerais, madeira ou animais selvagens, sem acesso à assistência sanitária decente, eles estão mais uma vez condenados pura e simplesmente a ser dizimados, em meio a uma indiferença praticamente geral.

“O povo da mercadoria”

Esta catástrofe sanitária deveio comum, causada pela emergência de um novo vírus zoonótico, proveniente do desmatamento e da comodificação de espécies animais selvagens, e deve hoje, mais do que nunca, nos pôr a pensar. Por sua destruição implacável de ambientes florestais, de sua biodiversidade e dos povos autóctones que são seus sábios habitantes [habitants avisés], o “povo da mercadoria” que nós somos (segundo a expressão do xamã yanomami Davi Kopenawa) torna-se a sua própria vítima ao retornar sobre si mesmo as consequências de sua hybris predatória.

Torna-se, assim, evidente que o destino fatal [sort funeste] que nós temos reservado aos povos ameríndios até o presente — cujas terras nós continuamos a devastar cegamente — terá sido, afinal, uma prefiguração disso que nós nos infligimos hoje a nós próprios, desta vez, em escala planetária. Como lembrou Claude Lévi-Strauss com sabedoria, ao denunciar o “regime de envenenamento interno” no qual o Homo industrialis se perdeu: “[…] todos índios doravante, estamos fazendo de nós mesmos o que fizemos aos outros.

[1] Bruce Albert é antropólogo, diretor de pesquisa no Institut de Recherche pour le Développement e co-autor de A queda do céu: palavras de um xamã yanomami (Companhia das Letras, 2015), junto a Davi Kopenawa.

Doutorando em Filosofia pela UFPR. Cosmo- e biopolítica, espectrologia, pluralismo ontológico, fenomenologia, pós-estruturalismo.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store