Relatos de um gago 03/07/15 — Começo

A gagueira é uma das piores mazelas que pode recair sob um ser humano. E quando esta pessoa trabalha com comunicação, então, o problema torna-se ainda maior. Eu, como Jornalista, tenho que lidar, literalmente, com desafios diários. Seja para falar ao telefone, seja para participar de uma entrevista coletiva, seja para apurar qualquer coisa com qualquer fonte. Não quer dizer que eu não faça essas coisas. Faço. Algumas vezes bem, outras vezes deixando a desejar. A gagueira nunca me impediu de fazer nada, nunca foi um muro alto demais para escalar. Mas as cicatrizes que foram deixadas pelo meio do caminho foram duras. São duras.

Mas, ao contar esta história, como toda boa história, deve-se começar do começo. Da minha primeira lembrança como gago, do meu primeiro conhecimento de mim mesmo como sendo uma pessoa gaga. Eu devia ter uns seis, sete anos. Estava com meus pais no elevador, subindo de volta para casa. Meu pai, embreagado, discutiu fortemente com minha mãe e gritou dizendo que ambos iriam se separar. Nunca aconteceu, e nada mais ocorreu uma briga como aquela. Nem meu pai é um bêbado. Muito pelo contrário. Os dois são pessoas maravilhosas e que sempre estiveram, e estão, ao meu lado, em todos os problemas de minha vida. Mas aquilo nunca mais saiu da cabeça.

Provavelmente eu já fosse gago antes disso, não lembro, mas vejo aquilo como uma pedra de toque de todos os meus problemas posteriores com gagueira. De lá para cá, um caminho extremamente longo de tentativa de suplantar isso, com fonos, desabafos e “técnicas” para falar mais, falar melhor e, acima de tudo, ser visto como uma pessoa fluente. Desde cedo comecei a fazer fonoterapia, e tive resultados até consistentes. Mas nunca consegui concluir o tratamento. Fosse por dificuldade financeira, por desistência mesmo, ou por pura preguiça. Mas o arrependimento sempre voltava. E nunca foi embora.

Sempre, desde cedo, foi uma coisa muito angustiante para mim saber falar, me sentir articulado, e simplesmente não ter a capacidade de expor aquilo que eu estava pensando. É sentir-se burro, incapaz, rebaixado frente à outras pessoas. Este Medium será exclusivamente para contar essa trajetória, desde meus sete anos até hoje, aos 29 anos de vida. Este primeiro texto visou isso: abrir as portas do maior fantasma da minah vida, e que, se não assusta mais como antes, ainda surge como uma âncora que arrasta para baixo as minhas expectativas e minhas metas, tanto pessoais quanto profissionais.

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