A Arte de Falar Merda

Reli nesses dias Com licença da má palavra, um texto de Umberto Eco republicado em Pape Satan Alepe, pela Editora Record, em 2017. O texto está nas páginas 392 a 395 e fala sobre a estratégia política de blefar, falar coisas descabidas e, no melhor italiano, falar merda como fórmula intencional de retórica.

Umberto Eco não se referia especificamente ao presidente-eleito com seu Jairzinho à tiracolo. O texto original é de 2005. Mas poderia muito bem falar sobre Trump, sobre os Bolsonaros ou sobre o modelo de propaganda política de guerrilha de qualquer figura autoritária contemporânea, de Erdogan a Orban a Duda.

Ressalto três pontos importantes sobre falar merda:

Página 394: “Uma pessoa que diz que tem cem euros no bolso (e não é verdade) não faz isso só para que os outros pensem que tem cem euros no bolso, mas também para convencer-nos de que ele próprio acredita que tem cem euros no bolso.”

Parte dos ouvintes pensarão que essa pessoa é louca. A outra parte pensará que essa pessoa sabe do que está falando.

Quando alguém diz que vai “acabar com o kit-gay”, vai se passar por louco para aqueles que não acreditam que existe um kit-gay. Mas outros acharão que essa pessoa vai fazer de tudo para livrar o mundo da ditadura gayzista. E isso acaba sendo mais importante do que existir ou não um kit-gay.

Páginas 394–395: “O objetivo de falar merda não é enganar a respeito de um estado de coisas, mas impressionar ouvintes com pouca capacidade de distinguir o verdadeiro do falso — ou igualmente indiferentes a tais detalhes.”

O ouvinte apoiador, que não tem informação ou não se importa se a informação está correta, só quer ver a bravata, só quer acreditar no blefe. Não importa se a ameaça é real. Não importa se os professores estão impondo ditadura em sala de aula. É o teatro que essa pessoa quer. É a ameaça de que “se houver será reprimida”. Quer acreditar que quem fala merda vai agir.

Obviamente, quem fala merda não está interessado em cumprir esta ou aquela promessa. Quer apenas apoio de quem tiver mais apoio a dar. O que nos leva ao terceiro ponto.

Página 395: “Creio que quem fala merda confia também na falta de memória do auditório, o que permite que saia falando merda em sequência e em contradição uma com a outra.”

Essa técnica é um pouco mais complexa do que descrita por Umberto Eco. Dois pontos são importantes: o primeiro ponto é que as pessoas ativamente relevam informações contrárias ao que querem acreditar. Se o candidato disser que é à favor da liberdade de imprensa e que vai censurar um ou outro jornal, seu público apoiador irá relevar a censura, porque ele prometeu garantir a liberdade de imprensa.

É um pouco de “novilíngua”, e é um pouco da contradição do pacote de bolacha que diz: é mais fresquinha porque é congelada.

É óbvio para mim e para você, que sabe raciocinar e não se importa com a bolacha, que não pode ser congelado é o contrário de fresco. Mas a bolacha garante que exatamente porque é um, é o outro. É exatamente porque um político diz garantir liberdade de imprensa que a censura dele não pode ser censura de verdade. É só uma proibiçãozinha…

O segundo ponto é que, na política, tem sido muito utilizado a “desautorização”. Em vez de um político falar diretamente coisas contraditórias, sua entourage, seus capangas falam coisas contraditórias em seu nome. Um possível ministro da economia diz que vai recriar a CPMF, outro parente diz que não serão aumentados os impostos. O político vem em um terceiro momento reforçando seu autoritarismo sua autoridade anunciando a informação que melhor foi recebida pelo público. Se essa será a decisão implementada, não importa. Importa reforçar o apoio popular, não esquecendo que quem ouviu que será recriada a CPMF já apoiou o candidato e quem ouviu que não serão aumentados os impostos também já apoiou o candidato. A “desautorização” de uma dessas informações não diminui o apoio, apenas faz com que os meios de comunicação se passem por mentirosos.

De qualquer maneira, há quem goste de candidatos que falem merda. Eles são de baixo custo intelectual. Basta concordar. E temos bastante gente que não gosta de pensar.