A Escuridão no Retrovisor

“shallow focus photography of car dashboard” by A. L. on Unsplash

Mario dirigia à noite pela duzentos e noventa, e tudo que se podia ver pelo retrovisor era a escuridão. Ele não notou logo, estava preocupado em acelerar e manter o carro na pista. Depois, também, achou que fosse normal. Não costumava dirigir à noite.

A lua cheia iluminava a estrada à frente. Os faróis do fusca quase não se faziam necessários. Ou úteis. A cabeça de Mario repassava as conversas das últimas horas: eu posso, não pode, eu posso, não pode, eu mando em mim, tu tem responsabilidades, eu sou adulto, Sabrina ainda não é! Só então reparou que a noite pelo espelho retrovisor era muito mais escura do que o caminho através do vidro para-brisas.

Corrigiu o espelho com as mãos, para lá e para cá, algumas vezes. Nada. O carro sacudiu um pouco. Firmou os olhos no percurso à frente. Pensou na areia, no mar, no vento, nas ondas que voltaria a pegar.

Mario nascera em dezenove de fevereiro sob o signo de Peixes, afirmava a mãe. Ninguém o prenderia em um Aquário, nem mesmo a Astrologia. Mario cresceu com um pé em terra firme e outro batido de ondas, coberto de algas vermelhas e de sal. Foi à escola, contando as horas para ver de novo o mar. Reclamava do verão, dos turistas ocupando sua praia. Vendeu água e sorvete, estendeu toalhas, prendeu barracas e, quando todos iam embora, voltava para o mar e lá ficava até o próximo verão.

Mario torceu o retrovisor mais uma vez, depois o empurrou para cima. Não só o espelho interno, mas o esquerdo também não mostrava mais nada. Ainda assim, o fusca não desacelerou. À direita, a lagoa era visível, dois barcos pequenos ancorados. Ainda não era água salgada, mas que seja. Era água. As rodas traseiras silenciaram sem avisar. O ponteiro do velocímetro manteve-se trêmulo no cento e vinte. Mario virou a cabeça, torceu a direção sem querer e quase saiu da estrada. Apesar da lagoa enluarada ao lado, o caminho percorrido não estava lá. Quem sabe mais nada esteja lá, desejou.

Mas Mario aprendera a não se preocupar. Enquanto vendia sorvete e estendia toalhas, enquanto prendia barracas e amaldiçoava os turistas, Mario sonhava o sonho infantil de viver das coisas que a prainha oferece. O incômodo não era grande. Sabia que iriam embora logo. Esqueceriam de suas interações, como esquecem os amores de férias. Mario sonhava com o mar — azul como o seus olhos que esqueceriam ser escuros, porque tudo é mais claro em um sonho. O sonho era maior que ele, agora, maior que a estrada, maior que a cidade. O sonho que havia adormecido e agora acordava. Tudo iria ficar bem. Sempre.

A escuridão tocou o porta-malas. Mario soube, porque sentiu o peso da bagagem sumir. Acelerou mais. Podia ser perigoso, será que os carros atrás dele o viam? Apertou o pisca-alerta. O barulho irritante incomodava, mas o que fazer? Ligou a lâmpada de teto, surpreendido que ainda funcionava, e arriscou olhar para trás.

Dizem que quando olhamos para o abismo…

A escuridão se enxergou nos olhos negros de Mario, enquanto as duas pupilas buscavam um ponto de luz para se fixarem. Não havia nada lá. Não havia bancos traseiros ou estrada percorrida. Nos olhos de Mario, não havia ponto fixo, caminho ou objetivo.

Então, o peito ficou mais leve. Acelerou. Euforia de livramento. O peixe de volta ao mar, a praia sem turistas. Sabrina lembrará de mim como um sonho. Se é que pensarão um no outro um dia. As memórias vão se misturar com as de outros veraneios. As histórias continuarão a ser contadas com outras personagens.

Mario já não via as próprias mãos na direção, mas acelerou. Tinha certeza de que o caminho à frente, a praia, a areia e as ondas do mar estariam sempre lá, mesmo que ele nunca as visse de novo.