A mulher de giz

Pedro me mostrou, pedro, pedro mostrou o desenho de giz no chão da rua dos Andradas. Treze, 13, um, três andares abaixo do apartamento dela. Na calçada. Pedro me disse que ela desenhou um portal de giz no chão. Fez o ritual lá em cima, no apartamento dela. E pulou para atravessar o portal exatamente desenhado de braços abertos. Foi um ritual quase impossível, mas ela conseguiu.

Desculpe, é difícil para mim arrumar as palavras. Quando eu era pequeno, um mago roubou um pedaço da minha mente. Eu não lembro, foi o Pedro que me, o pedro que, o pedro que me contou.

Um mago roubou um pedaço da minha mente e fez mais difícil pra mim arrumar as palavras. Meu pai, ele, o meu, o meu pai, ele também era um mago, pedro me disse, e me deixou poderes muito importantes para o mundo todo. Mas o mago negro veio e roubou um pedaço da minha mente, para que eu não pudesse pronunciar corretamente os encantamentos.

Pedro é muito inteligente. Ele é filho da minha mãe com outro homem que veio depois que o mago negro venceu meu pai. Ele é mais novo que eu, mas muito esperto também. Às vezes, eu acho que ele também é um mago. Mas Pedro me diz, me diz, pedro me diz, pedro me diz que não. Diz que ele é profano, como nossa mãe. Mas ele é corajoso e vai cuidar de mim, se o mago negro voltar.

Ela, ela… ela era minha namorada. O mago negro fez ela esquecer, mas ela era minha namorada.

Ela é muito inteligente também. O ritual que ela estava pesquisando para atravessar o portal, só pessoas muito especiais conseguem fazer. Eu não entendo. Eu deveria entender, mas o mago negro roubou um pedaço da minha mente. Agora eu vejo com clareza, mas antes eu não via. Porque minha mente não estava completa, mas aqui, agora, agora, aqui e agora, agora está completa. E eu vou começar a lembrar logo logo.

Minha namorada é muito inteligente. Ela pesquisou esse ritual, o Pedro me disse, que era pra atravessar o portal. Mas eu não consigo entender ainda.

Eu lembro que o pedro me contou que ela saltou do décimo, décimo terceiro andar, número 13, um, três, até o desenho de giz na calçada da rua dos Andradas. E passou para o outro lado. Voltamos para casa e ele me contou devagarinho pra eu entender com meu cérebro que faltava um pedaço.

Mas o Pedro não sabe que de noite eu voltei lá. Eu fui na casa da minha namorada, porque ela tinha me dado a chave, eu peguei a chave da bolsa dela, mas ela sabia, eu acho que ela me pediu pra pegar, e eu precisava conhecer o ritual. Eu precisava descobrir como ela fez o ritual, porque a minha mente não me deixava entender como ela tinha feito o ritual.

Daí, eu não, eu não, daí eu não entendo.

Pedro me disse que o ritual era feito com uma fita de cor vermelho-vivo, como esse dos teus sapatos, para marcar o espaço do ritual. Mas a fita na porta da casa dela era amarela com letras pretas. Eu não sei ler ainda. Agora que, agora, que minha mente está livre, eu vou aprender. Verbena era espalhada com um defumador. No ritual. Mas o cheiro na casa dela era de caramelo queimado misturado com o cheiro do suor da minha mãe quando chorava.

Pedro disse que o ritual era feito com vinho judaico, mas eu só vi whisky nas garrafas e no copo. Um copo. E eu não entendo.

Pedro me disse, o pedro, pedro me disse que ela espalhou pó de canela para demarcar a janela e purificar o ar antes de saltar. Mas na janela só vi um pó branco no vidro e na travessa.

Então, olhei o giz desenhado lá embaixo. Impossível que ela acertasse pular lá de cima direitinho naquela mulher desenhada de giz. Lá embaixo.

Mas eu tentei.

E foi assim que cheguei aqui.

Senhor, me desculpe. Eu não sabia fazer o ritual, mas prometo que vou aprender. E vou aprender a falar direito. E vou entender como tudo aqui funciona. Porque agora, aqui, agora, aqui e agora, minha mente está completa de novo. E eu vou poder lutar contra o mago negro e vou poder salvar o mundo.