A(s) verdadeira(s) história(s) de Cinderela

Maurício Piccini
Sep 8, 2018 · 6 min read

Ficou evidente que as pessoas não conhecem nada da história da Gata Borralheira que não seja a Cinderela da Disney. Fui procurar na internet algum texto para oferecer de link, não achei. Resolvi escrever o meu.

“white and blue castle” by Gui Avelar on Unsplash

Mito Antigo

O mito da “Cinderela” é uma fábula centrada na função de Reconhecimento. Funções são trechos da narrativa, mais ou menos fáceis de reconhecer e isolar entre si. Eu gosto das definições de Propp, mas se vocês insistirem em usar Campbell, a Jornada do Herói tem a mesma etapa dentro do “Retorno com o Elixir”, em Campbell, não no livro do Vogler.

O reconhecimento pode ser explicado assim: O herói retorna para casa transformado, portanto, não pode ser reconhecido por sua aparência externa. Assim, precisa ser reconhecido por algum token, algum símbolo que identifique seu interior.

Ulisses, da Odisseia, é identificado primeiro pelo seu cachorro, depois por seu filho, depois por sua esposa. O reconhecimento pela esposa é o melhor deles. A esposa, Rainha Penélope, depois de esperar vinte anos, não ia simplesmente aceitar aquele mendigo que se parecia com Ulisses de volta. Penélope sugeriu despretensiosamente ao marido/mendigo: “Quem sabe a gente muda nossa cama lá para a varanda para fazer amor no sol.” (Tá, foi quase isso.)

Ulisses, para provar que é ele mesmo, respondeu: “Não é possível, pois esculpi eu mesmo esta cama direto do tronco de um carvalho, cujas raízes ainda estão enterradas no chão.” (Também não foi assim, mas eu não sou um poeta grego.)

Ainda no Egito a.C., temos um dos registros mais antigos do motivo de reconhecimento através de um objeto… e de podolatria. É a história de um rei que não encontrava nunca uma esposa. Longe dali, uma mulher linda não tinha marido. Ela está lá na dela, tomando banho no rio ou em uma banheira egípcia de três mil anos atrás, quando um pássaro rouba sua sandália. O pássaro voa até o rei e larga a sandália no ar para cair no colo do rei. O rei, em vez de ficar bravo com o pássaro, acha a sandália linda, e decide que obviamente a mulher dona daquela sandália deve ser igualmente linda, por ter pés tão lindos que encaixam na tal sandália linda. Ele a encontra. Eles se casam.

“pair of beige sandals on sand” by Joan MM on Unsplash

A China, também no fim dos anos a.C., tem lendas com temáticas semelhantes às de Cinderela. Particularmente, acho interessante a de uma donzela que recebe ajuda de um peixe mágico para ir ao festival de ano novo. Nessa história, a moça foge para não ser reconhecida por seus próprios familiares, que também atendiam ao festival.

Já na França quase moderna, temos registros da história de Le Fresne (“O Freixo”). A história conta sobre como um rei se apaixona pela donzela conhecida como Fresne. Eles fogem para se casar, mas os amigos do rei o convencem de que ele deve escolher uma esposa da nobreza para ter filhos nobres, e Fresne é uma órfã plebeia. O rei, então, escolhe se casar com Coudre (provavelmente, “A Aveleira”, planta que dá avelãs). No dia do casamento, a pobre Fresne prepara a cama do rei, para ele e a nova esposa. Enfeita a cama com um brocado que era a única coisa que ela tinha quando largada pelos pais. A mãe de Coudre, vindo inspecionar a cama do rei (porque, sei lá, naquele tempo as futuras sogras vinham inspecionar a cama em que as filhas iam perder a virgindade), reconhece o brocado como seu… Surpresa, Coudre e Fresne eram irmãs gêmeas separadas no nascimento.

Gosto dessa história pela referência à fertilidade nobre da Aveleira em comparação à “pobreza” do Freixo. Também, porque o Freixo é “Ash-Tree” em inglês, com seus galhos cinzentos. Coincidência (ou não) com o tema de “cinzas” da Cinderela/Gata Borralheira.

“bare tree in field” by Ricardo Gomez Angel on Unsplash

Versões da Gata Borralheira

Eu gosto do nome Gata Borralheira — mais ainda depois de descobrir que vem do nome italiano do conto, que é anterior ao Cinderela de Perrault. As variantes do nome têm, em geral, a ver com cinzas. E, mais interessante, há discussões longas entre tradutores sobre o uso ou a interpretação quando do uso de “borralho”. Borralho e cinzas são coisas diferentes. Borralho tem mais peso. Cinza é mais leve, etérea. A imagem da personagem e de sua luta diária pode mudar bastante conforme essa escolhas de palavras.

La Gatta Cennerentola

Voltando ao tema da árvore, o interessante da Gatta italiana é que ela planta sua árvore (uma tamareira). E faz o vestido aparecer com palavras mágicas:

Dattolo mio naurato,
Co la zappetella d’oro t’aggio zappato,
Co lo secchietiello d’oro t’aggio adacquato,
Co la tovaglia de seta t’aggio asciuttato;
Spoglia a te, e vieste a me!

Quando declama o último verso ao contrário (“Vieste a te, e spoglia a me!”) faz com que a roupa desapareça.

“coconut tree under clear blue sky” by Ali Abdul Rahman on Unsplash

Gata Borralheira

Gata Borralheira é, então, o nome traduzido para o português do Brasil. Preciso dizer que é o nome que eu lembro da infância. A versão da Disney pode ser a culpada pelo uso tão comum de Cinderela na nossa língua, mas não achei pesquisa específica sobre isso.

Photo by Stacey Rozells on Unsplash

Cendrillon

A versão de Perrault não se refere a “gata”, nem usa Cinderela. “Cinder” é específico do inglês, sendo “cendres” o termo em francês.

A versão de Perrault é que traz a “madrinha”, a transformação da abóbora em carruagem e dos demais animaizinhos em cocheiros e guardas e tudo mais. As versões anteriores traziam apenas um vestido bonito.

Há quem insista que o sapatinho era de pelo de esquilo — “vair” em vez de “verre”, que indicaria vidro. No original, usa-se "verre". Perrault escreveu em francês. Se a lenda de um sapato de “vair” existiu, não foi registrada por Perrault.

“close up photography of pumpkin” by Jocelyn Maloney on Unsplash

Aschenputtel

A versão dos Irmãos Grimm se chama “Aschenputtel”, algo como “CinzaBoba” talvez ou “A Boba das Cinzas”. Esse seria um apelido depreciativo dado à protagonista por suas irmãs malvadas. Essa versão é mais completa em termos de análise psicológica, não das personagens, mas das funções do conto.

A jovem Aschenputtel precisa cumprir três desafios para ter permissão de ir ao baile. Ainda assim, a madrasta nega a permissão, Aschenputtel vai chorar debaixo de uma árvore plantada no túmulo da mãe. Passarinhos lhe trazem um vestido (isso mesmo). E Aschenputtel vai ao baile três vezes.

Na primeira vez, ela foge do príncipe e se esconde em uma casinha de pombos. Na segunda vez, ela foge e sobe em uma árvore. Na terceira, o príncipe se prepara e coloca piche nas escadas do palácio. E assim o sapatinho é deixado para trás.

Os sapatinhos de Aschenputtel são de ouro.

“four white, black, and gray pigeons on wooden surface” by sohel yousuf on Unsplash

Into the woods

Into the Woods é um musical que apresenta versões novas e interligadas de contos de fadas. Nessa versão, Cinderela não consegue se decidir se gosta ou não do príncipe. Ao sair do baile, o sapato prende no piche, e ela se dá conta de que o príncipe não é só um príncipe. O príncipe é inteligente. “Ele é um príncipe que sabe planejar”, ela canta. Mas, ainda indecisa, ela escolhe devolver o problema para o príncipe. Larga o sapato no piche e foge, cabendo ao príncipe decidir se vai atrás dela ou não. Ou seja, o príncipe precisa provar para Cinderela que ele realmente a quer.

Gosto dessa versão, porque Cinderela não é uma pobrezinha que foi enganada. Ela ativamente escolhe testar o príncipe, para saber se ele é alguém interessante.

“chalkboard leaning on brown concrete wall” by Wyron A on Unsplash

Maurício Piccini

Written by

http://mauriciopiccini.com.br/

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