Coringa: eu estou rindo, mas é de desespero

Maurício Piccini
Oct 11 · 5 min read
Photo by Quentin Rey on Unsplash

Eu não entendo direito quem assiste um filme ou lê um livro e interpreta as personagens como pessoas de carne e osso.

Por isso, talvez, eu não veja problemas em histórias com vilões como protagonistas. Contudo, gostaria de compreender por que Coringa tem esse efeito.

1 As pessoas assistem e acham que Coringa é um doente mental ou psicopata real.

2 As pessoas acham que serve para justificar violência, como se as causas e consequências mostradas no filme fossem reais e/ou naturais e não invenções arbitrárias da cabeça de alguém.

Ainda mais estranho:

3 As pessoas acham que outras pessoas vão achar que o filme serve para justificar violência (“não é que eu acredite, é que outra pessoa mais burra vai acreditar”).

Eu acho interessante lembrar desde já Platão, que achava a Arte (ou a mímese, a parte da arte que é a “imitação” do real) muito perigosa por ter aparência de realidade. Seria como se a Arte pudesse enganar as pessoas menos cultas a acreditar que algo é real sem pensar sobre — sem filosofar sobre o real.

Talvez Platão estivesse certo.

Mas eu não sou filósofo. Quero falar sobre outra aspecto: a narrativa do Mal.

O Mal

O Mal é tratado desde sempre na Literatura. Não é incomum que se faça uma interpretação moralista e autoritária sobre o assunto. Todo mundo acha que sabe o que é “mal” e o que deve e não deve ser apresentado para as outras pessoas. Todo mundo julga. Mas Literatura é mais do que isso. Nesse sentido, os estudos de Literatura Infantil têm dado especial interesse ao Mal e suas interpretações.

Da psicologia dos contos de fadas, temos em mente que a criança se interessa pela repetição de uma narrativa quando esta trata de um assunto mal resolvido pela criança. E aqui, “mal resolvido” é bem vago. Pode ser que a criança literalmente não entendeu o assunto (ou mesmo o vocabulário do assunto). E pode ser que o assunto ressoe na criança com algo que ela precisa resolver em si (desde um medo de patos à compreensão de o que é ter poder sobre outras pessoas). Assim, justificar que o interesse “obsessivo” (não estou usando a palavra em sentido clínico) de alguém por um filme ou por uma personagem como indicativo de que a pessoa vai imitar o comportamento da personagem é uma simplificação excessiva.

Dito isto, vou fazer o que disse que não era para fazer e analisar o interesse específico pela figura do Coringa nesse nosso contexto particular.

A Bruxa Má

O Mal nos contos de fadas não é uma ideia abstrata, mas está presente como personagens claras e bem definidas. (Disclaimer: nesses tempos, é preciso adicionar o “má” na descrição, pois a bruxa de que tratam as teorias de contos de fadas não é simplesmente uma mulher que trabalha com magia; também vale lembrar o complementar, que as teorias de contos de fadas não usam a palavra “má”. Bruxa é uma função cumprida por uma ou mais personagens ao obrigar a personagem protagonista a transgredir.)

Aqui, acho eu, filmes como Coringa causam confusão. O Mal não está claro nem é eliminado.

  • Por um lado, ele não é bem delimitado: não existe um ponto que separe o comportamento benigno do Coringa (a dor benigna que sentimos, a raiva benigna que todos podemos e devemos expressar de forma saudável) e o comportamento nefasto.
  • Por outro, não estamos seguros do Mal: ele não foi aniquilado, como a Bruxa deveria ser.

Por isso, as discussões a respeito do filme têm caído em dois padrões de respostas: “o Coringa ensina a ser mal” e “o Coringa é doente”.

“O Coringa ensina a ser mal”

E pequenas variações como “o Coringa justifica a violência”, “o filme é irresponsável ao exaltar a resposta destrutiva” ou, meu favorito, “o Coringa é uma ode aos incels e à extrema-direita”.

Sofremos aqui da mesma visão medrosa da arte já discutida por Platão milênios atrás. Estamos com medo de que a representação “errada” do Mal no filme traga ao espectador a falsa sensação de que ela é “verdadeira” pela verossimilhança presente no filme e pelas emoções que nos faz sentir. Mas essas emoções são exatamente parte do papel do filme enquanto catarse (grego para “purgação”) desses sentimentos.

A Bruxa Má precisa fazer duas coisas para um bom conto de fadas: precisa obrigar o herói a transgredir (fazer algo ruim) e precisa permitir ao leitor do conto sentir como é fazer o Mal. Mesmo que a conclusão do pequeno leitor seja de que se sente culpado e de que nunca mais quer fazer aquilo, a Bruxa permite a sensação, a experimentação e, até certo ponto, a empatia.

Se nos é permitido sentir empatia ou pena do Coringa, isso não o justifica.

Acho que o que falta seja, talvez, a sensação de que o Mal que o Coringa representa não foi exterminado. A Bruxa não cai no precipício, não é soterrada pelo castelo, não queima na fogueira, não explode em milhões de pedacinhos. O Coringa continua lá. Daí a sensação de que o filme não “tratou bem o tema”. Estamos ainda esperando o final moralista. Não que sejamos moralistas, mas porque sem esse final não há fecho, conclusão, ponto final.

Então, “O Coringa é doente”

Nesse caso, a Bruxa seria a sociedade apresentada no filme. O Coringa foi “obrigado a ser mal”.

Eu diria que esta é a tentativa de explicação essencialista. Quem não admite essa personificação do Mal, sugere que o Coringa de alguma forma não tem controle sob seus atos. Ou, em palavras mais contos de fadísticas não é “puro”.

Explico. No conto de fadas, a Bruxa exerce poder ou fascínio ou outra influência no herói. As pessoas em torno do herói são corrompidas pela Bruxa. Mas o herói é “puro” e, por isso, não se corrompe, podendo agir contra a Bruxa e salvar todo mundo.

A ideia de que o Coringa é “doente” é uma versão cientificista desta premissa. O Coringa caiu porque era falho. “Nós” não cairemos, porque nós não temos problema mentais, morais, emocionais…

Nesse sentido, essas justificativas acima são a forma de completar a história para podermos lidar com ela, como um bom conto de fadas.

Significado

Quando todos os pensamentos mágicos da criança estão personificados num bom conto de fadas — seus desejos destrutivos, numa bruxa malvada; seus medos, num lobo voraz; as exigências de sua consciência, num homem sábio encontrado numa aventura; suas raivas ciumentas, em algum animal que bica os olhos de seus arqui-rivais — então a criança pode finalmente começar a ordenar essas tendências contraditórias. (Bruno Bettelheim, Psicologia dos Contos de Fadas)

Essa discussão sobre o filme é saudável e exatamente o que se espera de uma obra de ficção. Ela é incompleta, como viu Platão, por não estar dialogando. O diálogo precisa vir depois, mantendo a dialética viva e, consequentemente, ajudando os espectadores a organizar mentalmente e emocionalmente a história que acabaram de ver.

Gostaria que mais obras fossem discutidas assim.

Maurício Piccini

Written by

http://mauriciopiccini.com.br/

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