Deixa eu contar uma coisa

Maurício Piccini
Feb 5 · 4 min read

Lashon hará — cochichou o espírito da senhora anteriormente conhecida como Myrta. Fantasmas judeus são estranhos, porque não creem ser a mesma pessoa que vivia em seus corpos. Ou algo assim. Continuam sendo ótimos com as finanças. Myrta foi mulher judia honesta, mas seu espírito precisa juntar dinheiro para ajudar a família a pagar pela própria lápide. O corre é para todos aqui.

— Não é nada disso — garanti.

— Não quero ouvir palavra a respeito. — E cuspiu três vezes por cima da mão translúcida num gesto de guampas com o indicador e o mindinho.

Paguei minha parte do aluguel social em moeda Crypto, que eu havia recebido naquela tarde pela participação nas sessões do Centro Espírita Chico Xavier do Petrópolis. Era melhor do que fazer transfusão de ectoplasma para os traficantes evangélicos, e eu ainda não passei naquela prova para a vaga no terreiro de Umbanda. Nunca pensei que tivesse de estudar mais depois da morte do que durante toda minha vida.

No rádio de pilha da Teinaguá que nos servia de zeladora, Guilherme Loubos ladrava sobre o show de horrores dos realities de exorcismo urbano.

— Tina — tentei chamar a atenção — sabe o motel da Ipiranga? Eu…

— Pssst! — A Teinaguá sacudiu a cabeça em direção ao rádio, enquanto Loubos jurava que o PSóL, o Partido Só Lupinos, estava fazendo de tudo para impedir a remoção das almas em situação de penúria dos prédios abandonados do Centro. Ele falava de nós.

— Eu nunca devia ter deixado minha tapera — lamentou a Teinaguá.

— Que é isso, Tina. A gente sempre dá um jeito. Ontem mesmo o pessoal da Assistência Afro não veio lavar a escadaria pra gente? E recém trocaram as mudas de comigo-ninguém-pode. Não tem John Constantine neo-pentecostal que nos tire daqui.

— Estamos otimistas hoje, hein? — Tina sorriu estranha. Bem, era uma Teinaguá sorrindo, afinal. — Tu precisa passar esse bom humor pro teu colega de quarto, que ele chegou se arrastando escada àcima faz uns vinte minutos. Pior que eu. Mas me conta o que houve?

— O Vini já chegou? Depois te conto então.

Sob o olhar de reprovação da Teinaguá, corri pelas escadas desejando poder flutuar como acontece nos filmes. Mas essa pós-vida não era nada do que Hollywood tinha prometido.

No nosso apartamento, Vini descansava no chão, de olhos fechados e com os fones de ouvido no talo, esparramado entre as almofadas que nos serviam de cama. Botas pretas, calça preta, camisa preta levantada, o livro de sigilos cheio de anotações borradas sobre a barriga. Aproveitei e fui me esgueirando pelo ladinho dele. Não que ele pudesse me sentir me aproximando, poderia ouvir — não fossem os fones — e sempre, sempre farejava meu cheiro. O dele era doce e quente em torno do pescoço, com ou sem colônia. A orelha era muito mordível. Qual a palavra? Mordiscável? Eu poderia jantar aquela orelha se ao menos eu pudesse…

— Tu não vai conseguir me assustar nunca desse jeito.

— Boa noite, meu querubim dark! Já deixei nossa parte com a Myrta. Ela vai parar de vir aqui. Podemos ficar tranquilos hoje, viu?

— O fantasma de Myrta. Se ele não se identifica mais como Myrta, é melhor respeitar. Toda alma tem direito de se expessar e…

— Eu sei, eu sei. Vai explicar logo pra mim? Não falo por mal. Não precisa vir com sermão a essa hora.

— São duas da manhã, tem hora melhor pra sermão?

Vini abriu espaço nas almofadas para eu deitar ao lado dele.

— Tô o dia todo querendo contar uma coisa pra alguém.

— Então, me conta. Eu ainda sou alguém.

— Claro que é, palhaço. Sabe o motel da Ipiranga? Eu peguei uma carona num Uber na volta pra cá, sabe, ele tava levando esse casal ali. Um velho e um espírito bem mais jovem, acho que era esposa.

— Deve ter sido um succubus.

— Não, era espírito-espírito, tipo eu.

— Sério? Como tu sabe? Falou com ela?

— Sério. E não, não consegui falar. Eu achei que ela tava pegando carona também. Tava constrangida e tal. O velho também não falou nada. Só notei quando eles saíram juntos do carro. Na porta do motel, ela chegou pertinho do ouvido dele e deu uma lambida… e ele sentiu.

Vini me olhou como se eu fosse uma assombração. Quer dizer, vocês entenderam.

— Sentiu? — disse. Depois sorriu como fazia tempo que um emo não sorria. — Tu quer dizer, podemos ter esperanças?

— Sim. Eu, pelo menos, sempre tive esperanças.

Naquela noite, Vini dormiu com a mão através da minha. Eu juro que quase consegui sentir a gente se tocando.

Maurício Piccini

http://mauriciopiccini.com.br/

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