Desafio Gente que Escreve #032: capa, pântano, ir ao banheiro

Enquanto o cobertor amarelo não voa

John bateu os sapatos e fechou a porta com cuidado para não acordar o pequeno Phillip, que dormia por cima de seu ombro. Desamarrou o cobertor amarelo que servia de capa para o filho. Deitou o menino no sofá. Jogou o cobertor amarelo na máquina de lavar. A esposa nunca teve tempo de explicar como remover manchas de sangue do tecido.

O retrato de Stella sobre a mesa da sala estava rachada do lado direito. Phillip se despedia dele antes de ir à escola. John discutia com ele enquanto o filho dormia.

Stella não deixou manual de instruções, nem diário de bordo, ou seja lá como as super-heroínas ensinam seus filhos. As referências que John tinha sobre super-poderes vinham de filmes e revistas em quadrinhos. Aquela super-escola parecia uma boa ideia agora. Mas como se afastar de Phillip quando ele ainda é tão indefeso?

John sentou-se ao computador. A agenda da semana seria complicada. Vestido de super-Phillip, o menino precisaria evitar a “solução não-pacífica” para a crise dos aldagórons na segunda-feira. Terça, disfarçado de criança comum, teria um passeio de turma para o Museu de Tecnologia. Quarta, o aniversário do Peter. Na quinta… John ainda tentava convencer Phillip de que é muito cedo para ele entrar na escolinha de futebol da escola. “Crianças se machucam”, dizem as mães da turma. Mas não seu Phillip.

Em um arquivo do Word, John digitou o que ainda se lembrava do encontro de horas atrás:

Dois venusianos escondidos no pântano a leste da cidade. 2km além do distrito industrial. Um dos venusianos parecia estar desenvolvendo algum tipo de fluido em uma bolsa na nuca. A cabeça estava mais “triangular” do que de costume

John parou por um instante. Não sabia como descrever. Phillip havia atravessado o primeiro venusiano com um soco. O ponto fraco deles é a barriga. Mas o segundo venusiano demonstrava certa resistência. Uma corcova parecia proeminente. A cabeça triangular própria da espécie era diferente nele. Phillip perguntou ao pai se aquele era mesmo um venusiano. Os dois ficaram na dúvida. Phillip precisou abrir o pescoço do alienígena com suas mãos pequeninas. A cabeça explodiu. Phillip se engasgou, mas não foi nada sério. Pai e filho riram de toda a gosma esverdeada que os cobriu.

Phillip pareceu inalar o sangue venusiano sem efeito aparente.

Lembrando de ter feito outra anotação sobre o mesmo tópico, John voltou algumas páginas em seu diário digital. Dois meses antes, lá estava a anotação:

As calças de Philip parecem queimadas na barra. Me pergunto se tem algo a ver com o sangue do venusiano.

John buscou duas caixas de leite na geladeira e despejou em um balde. Colocou o cobertor amarelo no balde. Largou o balde dentro do tanque e o deixou descansar para pegar na manhã seguinte. Voltou ao computador.

Phillip está cada vez mais corajoso. Ele confrontou os venusianos como se fosse uma brincadeira. Será que Phillip já sabe que não tem pontos fracos? Isso é bom para ele?

O menino se revirou no sofá. John ajudou o filho a se levantar, explicou que já estavam em casa e perguntou se o menino sentia alguma dor. Phillip respondeu que não.

— Ei, ótimo, ótimo. Aproveita e vai no banheiro, cuida a mira. Eu não sei consertar aqueles furos atrás do vaso.

— Tá, pai. — quase um murmuro.

John comandou que o computador imprimisse o dossiê sobre os venusianos. Phillip voltou para o sofá aos tropeços.

— Peraí, Phil. Vem cá. Levanta a mão. Phil. Phil.

O menino respondeu de olhos fechados aos comandos do pai.

— Aqui, pé direito. Direito. Pé esquerdo. Pronto.

Phillip levou a mão aos lábios e jogou um beijo para o retrato na sala.

— Boa noite, mãe. Boa noite, pai.

John quase perdeu o fôlego com o abraço super-apertado do filho:

— Boa noite, meu herói. Bons sonhos.


Texto criado a partir das palavras capa, pântano, ir ao banheiro (o personagem precisa ir ao banheiro) do desafio do podcast Gente que Escreve 032: Heróis e Super-Heróis.