Eu também sou filha da senhora

“DVD com versão do diretor e making of”

Maurício Piccini
Aug 2 · 20 min read

1

A última carta do pai chegou enquanto Janayna terminava de arrumar a mala. A campainha tocou, o carteiro empurrou alguns envelopes pela fresta no portão destinada às correspondências. Janayna gritou um bom-dia, e o carteiro apressado abanou de costas, mancando com o peso da sacola. Duas contas haviam chegado naquele dia, e, normalmente, Janayna as abria orgulhosa de poder pagá-las com o próprio salário. Hoje lhe interessava a carta em papel amarelado endereçada à mão. Guardou a carta — sem abrir — dentro da tipóia que lhe protegia o braço esquerdo. Largou as contas em cima da mesa e voltou a tentar fechar a mala. Decidiu que, mesmo que o braço do violão ficasse para fora da mala, ele nunca caberia ali. Seriam duas bagagens incômodas e uma longa viagem.

As cartas do pai haviam começado a chegar sem aviso, mas logo ficou clara a regularidade. A primeira, Janayna recebera em uma terça-feira mormacenta de agosto e, desconhecendo o remetente, a largara na mesa do café, esquecendo-a por alguns dias. A segunda chegara na terça-feira seguinte, Janayna a deixara ao lado da geladeira, entre uma fatia de torrada e o copo de requeijão. Quando a terceira chegara, Janayna estava arrumando a casa, e as três cartas se encontraram em sua mão indo em direção à lata de lixo junto com restos de papéis de enrolar baguete, uma tampa de caneta sem caneta correspondente e um caderno molhado de café. Janayna sempre batia nas xícaras de café com a tipóia. Há anos usava-a para prender o braço esquerdo e nem usava o braço mais para nada. Ainda assim, quando se enervava, o braço preso batia no que estivesse por perto, como se quisesse sair voando sozinho ou levá-la dali.

Abrira a primeira carta, enigmática mais pela falta de contato com o remetente do que por uma fraseologia incerta ou incompleta:

Oi, filha. Espero que esta carta te encontre com saúde e espírito para ler sobre as andanças do teu velho pai. Um passarinho me contou que tens agora a oportunidade de fazer o que nenhuma outra pessoa da tua família pode fazer. Por isso, espero também que não seja tarde para te ajudar a fazer a escolha certa.

A regularidade da chegada das cartas do pai era um acalento e uma bomba relógio. A frequência se tornara rotina, a rotina se fizera segurança. Janayna não se sentira segura com mais nada na vida antes da chegada daquelas cartas. Nem segura com sua capacidade de pagar um aluguel, nem segura com seu trabalho. Foram-se quinze terças-feiras sem falhar nenhuma em que as cartas chegaram até Janayna, e ela, agora conhecendo melhor seu pai, sabia que esta em sua tipóia seria a última, deixando para Janayna a responsabilidade solitária de levar a mensagem adiante.

Peço a Deus que eu não desista de remeter estas cartas antes de revisar os rascunhos… Já deixei tanto inacabado que me orgulho de cada linha que chega ao fim como de cada flor nascida do meu lápis. A distância que estas cartas vão percorrer assusta o homem que viveu plantado no mesmo lugar.

2

A mala pesava no braço bom de Janayna, e o violão pendurado no ombro balançava para lá e para cá por sobre a tipóia. Doeria, se a tipóia a esta altura não estivesse cheia de folhas e penas, motivadas pela determinação de Janayna em partir logo apesar do desconforto. Saindo agora, poderia pegar o ônibus na parada em frente de casa até a rodoviária e de lá um intermunicipal até a Capital e então mais um em direção Norte toda-a-vida-e-mais-um-pouco. Depois, sabem Deus e padre Cícero.

Mas a vida de Janayna não é feita de linhas retas:

— Jana. Te peguei, guria!

— Oi, Clara. Oi, Anna.

— Eu sabia. Quer dizer que já se decidiu? — Clara sabia ser insistente.

— Decidi, sim. Decidi ir ver minha mãe.

— Não é disso que to falando.

— Eu sei. Mas esse é outro problema. Agora eu preciso ver minha mãe.

— Jana, tu precisa pensar sério nisso. Eu sei que tu diz que tá feliz aqui. Que tu é competente. Trabalhadora. Que tu já fez mais do que eu e a Anna pensamos em fazer em uma cidade tão méh como essa. Imagina que demais ir pra uma faculdade. Eu nunca fui amiga de alguém que fez faculdade. Quer dizer, a gente sabe que tem um primo, lá do Rio Grande do Sul. E meu pai diz que tinha um tio advogado. Mas alguém que eu conheço mesmo.

— Ain!, — Anna poderia ser a menina de flores na cabeça cantada por Nenhum de Nós — nossa patinha feia finalmente se transforma numa linda cisne.

— Anna… — Janayna já aparentava cansaço. — O patinho feito não se transforma num cisne. Ele sempre foi um cisne. Ele também não era feio.

Clara pareceu não compreender o ar de reprovação da amiga. Buscou no olhar de Anna algum tipo de explicação, mas não encontrou.

— Viu? — Anna insistia. — A gente não entende nada quando tu fala assim. Tu é muito inteligente pra ficar aqui pra sempre.

— O patinho não era pato. Era filho de cisne. Ele era diferente dos filhotes de pato, por isso achavam ele feio. Ele também nunca tinha visto um cisne, então ele mesmo se achava feio, porque não sabia com o que se comparar…

— Ain, Jana, o jeito que tu conta faz parecer mil vezes mais triste.

— Lembra daquela frase da professora Sy? Se você medir o valor de um peixe pela sua habilidade de subir em árvores, ele vai passar a vida se achando um idiota.

— Tipo o que a minha coach disse…

— Desde quando tu tem uma coach?

— Clara, eu falei com a Luizza Personal no Instagram sobre umas paradas.

— Sério? Que legal!

— Sério, ela é súper acessível.

— Tu tem que me contar essas coisas.

— Então, to contando, a Luizza disse que são os gatos que querem te convencer que tu precisa saber subir em árvores.

— To perdida.

— Então, precisa nadar, precisa fazer o que tu sabe fazer, não deixar os outros te dizerem o que é melhor pra ti.

— E se eu for um peixe-gato?

Janayna fez menção de responder às duas, mas interrompeu-se para apontar na direção do ônibus que chegava. As amigas a abraçaram por cima da tipoia e da alça do violão. Como Janayna não encontrou seus fones de ouvido, CLARA deu os seus à amiga, não sem cobrar um abraço extra. ANNA distraiu-se para admirar o botão de flor que se abria na mão do violão de Janayna. “Pode ficar”, Janayna colheu a flor e entregou a ANNA, que a pôs no cabelos.

— Jana, — Clara puxou-a para o canto — sério, esse negócio da Fenda se fechar, tu já te decidiu? É pra lá que tu tá indo? Porque eu sei que tu não quer falar no assunto, mas tu é… A madeira do teu violão tá viva, Jana… Tem uma flor nascendo no teu violão… Tu ia me contar se tu estivesse indo pra lá pra nunca mais voltar, não ia?

— Eu não estou indo pra Fenda, Clara. Juro.

Subiu no ônibus com a mala na mão, violão em flor e tipóia cheia de folhas e penas.

Vendo a amiga partir, Clara confidenciou a Anna que não sabia se podia acreditar em Janayna.

Sei que demoras a entender o remetente de tuas cartas. Não tenho coragem, depois de tanto tempo, de usar o título que a natureza me deu. Então, digo que a liberdade não me convence a sair do quarto. Até porque nascer antes é pouco, diante de quem parte primeiro.

3

No ônibus, a paisagem de cidade pequena mudou para campo aberto antes que Janayna pudesse achar um lugar confortável para o braço. Viajar parece ir contra todos os instintos de Janayna. Sentada do lado esquerdo, tipóia contra a janela, buscou a última carta do pai dentre o enchimento de folhas e penas na tipóia. Ainda estava lá. Através do vidro, Janayna imaginava o pai em cada capão: árvores intocadas, imóveis nos grupos onde nasceram, mas ilhadas e incapazes de conhecerem o mundo inteiro de outras árvores a apenas algumas centenas de metros de distância.

Não saberia nada desse mundo do pai. Não houvera memória que ficasse, Janayna e a mãe deixaram o pai muito cedo. Então, preenchia as lacunas das histórias escritas nas cartas com as memórias que possuía da própria infância. Como poderia ser diferente? Se o pai nunca deixara as terras da família, Janayna viajara por muitas outras, sabia do mundo, ou achava que sabia tudo que precisava saber. No fundo os dois sabiam da mesma coisa, um mundo pequeno, da certeza pequena, de pensar em si por um tempo, de entender os metros em torno de si até onde a própria sombra alcançava e de tudo que podia sentir no momento em que estava. No braço imobilizado apertado contra a janela, no tremor do ônibus subindo pelo compensado de madeira coberto de coro a que, naquele ônibus, chamavam “banco”, Janayna sentia-se em casa. Se ao menos ninguém a tirasse do momento, a viagem seria menos desconfortável. Seria possível criar raízes em um ônibus?

— Mocinha, pode se sentar aqui. — Era uma senhorinha de sorriso largo. — Esse seu braço deve estar incomodando.

Janayna parou no meio do corredor do ônibus. Tentava esticar as pernas. Fez de conta que estava indo ao banheiro, mas a senhorinha não se interrompeu.

— Eu era arteira também na sua idade, sabia? Vivia com os braços roxos e cotovelos chapiscados. Senta aqui. Eu não vou te incomodar. Juraci, olha aqui. Diz que essa menina não parece eu quando era jovem assim.

Janayna fez menção de voltar ao seu assento, mas viu de onde estava raízes crescendo no compensado de madeira por debaixo do coro do banco.

— Obrigada.

Eu era só mais um adolescente com sua namorada grávida, não tínhamos nada. Éramos duas pessoas completamente diferentes que se viam na mata. A árvore que sonhava em ser ninho, e o pássaro que queria carregar o mundo debaixo das asas. A cada dia que passavas dentro da barriga de tua mãe, mais ela sentia o peso — o teu e o do mundo — dificultando o voo. Eu construí um sobrado das minhas ramas, Janayna. Tua mãe nunca quis entrar. Quando nasceste, eras tão pequena e bela como um filhote de sanhaçu. Tua mãe escondeu-te nas suas largas asas. Eu sei que ela tinha medo que eu tivesse qualquer influência sobre ti.

A terceira carta tinha uma mancha vermelha coagulada no canto superior direito. E tinha um cheiro — que Janayna conhecia bem — de sândalo. O pai uma vez dissera ter origem indiana por parte de um avô que ela nunca chegara a conhecer, o que a deixava a pelo menos um oitavo do caminho para as Índias.

— Tudo vai melhorar aqui. Você ouviu as notícias? — Juraci afagava os cabelo de Janayna. — Graças a Deus aquela racha do inferno está se fechando — interrompeu uma senhora de pé no meio do ônibus com a cabeça coberta por um pano florido. — Se Ele quisesse que gente de bem tivesse “poderes”, teria criado essa coisa aqui, na civilização, não numa ilha perdida no Nordeste.

— É. — Alguém concordou. — Esse negócio sempre foi mal explicado. Como que tem ilha lá se é tudo deserto?

Pedi, pedi, mas não tive minhas garças atendidas…

Se o pai escrevesse com mais clareza, talvez Janayna não entendesse. Do jeito que lia, compreendia a dor do pai e o medo da mãe tudo ao mesmo tempo, o que só deixava mais difícil que tomasse partido. Se escolhesse o lado da mãe, isso significava que o pai estava errado? Não poderiam ter estado os dois certos a vida toda?

4

Janayna chegou à cidade de sua mãe como se chegasse a qualquer outra cidade de interior. O ônibus parou frente a um galpão, que servia de rodoviária naquele momento, mas também de salão de festas para as famílias de alguma posse e câmara de vereadores nas épocas de chuvas. Esta cidade talvez se distinguisse das demais cidades de interior pelas poucas semanas de chuvas, podia-se notar pelo pó sobre todas as coisas e que ninguém parecia se importar em espanar, varrer ou respirar.

Janayna desceu do ônibus apressada. Queria sair o mais rápido possível antes que alguém notasse os quatro bancos criando raízes. Chega em frente a uma praça, a qual nunca viu mas reconhece. Já esteve em dezenas de praças iguais. De um lado a igreja, do outro a prefeitura. O bar da família do prefeito estava sempre lotado. O mercadinho do homem rico ficava na esquina. O pároco conversava com o povo à espera da próxima missa. Os sotaques eram diferentes, as conversas sempre as mesmas. Janayna poderia facilmente se misturar aos moradores, mas preferia ser diferente. Levava o violão. Subiu em um banquinho branco na praça, branco apesar de tudo ao redor ser cor de terra.

“Pouso Alegre”, dizia a placa sobre a praça. Janayna achou apropriado.

Hoje acho que tua mãe estava certa em sair. Mas eu não poderia sair. O que eu poderia fazer, Janayna? Um pobre analfabeto como eu. Mandaram que eu cortasse, eu cortei. Mandaram que eu as derrubasse, eu as derrubei. Mandaram que eu os queimasse, eu toquei fogo e fingi que não ouvi enquanto gritavam. Cada pé de ipê-roxo, cada cajueiro? Minha família, eu os matei, fatiei e entreguei para quem pagasse um pão amassado.

5

Janayna escolheu dedilhar Romaria, a voz é inesperadamente rouca. Ela gosta da reação das pessoas, que esperam uma voz de menina em corpo frágil. Já tivera aquela voz, mas em algum lugar entre o sol do norte e o frio do sul a voz encrudelecera. Romaria agora era um canto de raiva sem esperança, por um dos filhos que caíram do ninho durante os vendavais.

Sou caipira pirapora, Nossa, que foi moço?, Senhora de Aparecida

O homem rico viu o padre e quis deixar uma moeda, mas não havia chapéu e o estojo do violão estava fechado de pé. Janayna sabia o que ele pensava: Cantando sem receber por isso, quem ela pensa que é?

Quando Janayna terminou, a meia dúzia de pessoas que a ouviam paradas seguiram seus caminhos. Um velho de camisa branca manchada de tinta veio lhe dizer que não sabia se “a moça esqueceu de passar o chapéu”, mas que queria lhe deixar umas moedas. Ela agradeceu, mas não as pegou. Fazia por querer. Estavam todos tão acostumados a pedir e dar esmolas que sentia prazer em tocar sem retribuição. O dinheiro do homem pobre que provavelmente pintava cercas por trocados, seria mais útil comprando um copo de cachaça do que pagando pela música. Ao parar de usar o chapéu ou o estojo do violão para coletar esmolas, Janayna primeiro notou que as senhoras mais velhas não mais paravam para ouvi-la. A relação que tinham com música, e com moças novas, precisava ser apenas de poder, que o dinheiro estipula.

As palavras não descrevem o horror, porque as pessoas que dominam as palavras não se horrorizam com a nossa dor. O desenvolvimento agrário, a indústria, o progresso, os deuses pelos quais os homens nos sacrificam. Eu os servi, a eles todos, esperando recompensa, remissão de algum pecado que me convenceram que eu cometera. Quando vieram me derrubar e me vender, não havia quem ficasse de pé ao meu lado… Algumas pessoas percorrem caminhos mais longos, como as raízes das árvores que se espalham por toda a terra para chegar ao mesmo leito. Um dia eu chego aonde estás, minha filha.

Havia uma estrada asfaltada a cinco quilômetros do centro da cidadezinha. Em quanto tempo ela chegaria até a praça matriz e pintaria de pó de pixe preto os bancos brancos da praça? Até quanto o sino da igrejinha seria ouvido antes de ficar abafado pelos edifícios em construção? Quais daquelas pessoas mudariam de cidade e quais mudariam de estilo de vida para ficar onde nasceram, mesmo que a cidade não fosse mais sua? Morreriam à míngua à espera da benesses de serem parte de uma cidade grande.

Dinheiro nunca chegou em mim, filha. Até que finalmente deixei de acreditar que chegaria. Eu nunca pude pagar nenhum tipo de compensação por ter te trazido ao mundo, nem pude ajudar tua mãe a te criar. O pouco que tive se foi entre meus dedos duros, virou água, como o dinheiro de meu pai virou cana, como o dinheiro do pai dele…

— Eu não estou pedindo esmola — disse Janayna ao padre, que saiu contrariado.

— Então, a moça podia vir à missa hoje cantar. Ficaríamos muito agradecidos. — Uma senhora de chapéu com flores de plástico sugeriu.

— Não posso, dona. Venho ver minha mãe. A senhora sabe onde fica a rua das Andorinhas?

6

Em frente à casa de palha, quis bater palmas, por um instante esquecendo-se que não tinha mais uma das mãos livre. Bateu no violão, causando um som mais grave e desagradável do que queria. Janayna insistiu:

— Ô de casa! A senhora não atende visita mais, não?

Um par de crianças cruzou o quintal. Dois meninos, pequenos e barrigudos; pernas finas cheias de barro, cabelos duros cor de terra. Janayna entrou pela porta curvada feita de palha e barro. Tudo era palha e barro. Só o chão de madeira. Era familiar e novo, como descobrir um instinto que ela nunca tivera antes. Mais adentro da casa, o teto era baixo. Janayna pode ouvir crianças rindo e riu até encontrá-las amontoadas contra uma parede. Brincavam de uma brincadeira que ela não conhecia, arremessando barro amassado de mão em mão, em torno de um ninho com três pequeninos ovos amarelos. Todas pareciam iguais, cobertas de barro. Uma menina com o mesmo cabelo cor de terra e duro de todas as outras lhe passou a bola. Janayna deixou cair e se desculpou.

A saída levava aos fundos da casa, onde Janayna viu um homem alto, forte de cabelos avermelhados cortando achas em um ritmo quase impossível. O homem também a viu, viu seu braço enfaixado. De longe, uma senhora estendia roupas.

Janayna foi ao encontro da mãe como quem chega ao fim da procissão. Cansada, alegre, disposta a saldar a dívida com sua santa. Olharam-se, mediram-se. Quando saiu de casa, Janayna xingou a mãe, disse que saía para poder decidir por si onde morar, onde ficar e, decidindo ficar, ficar finalmente parada em algum lugar. A mãe disse que não entendeu. Algum vizinho amaldiçoou “ela é igual a ti”. E hoje eram iguais, mãe e filha.

Eu queria me justificar, mas mesmo hoje não sei inventar uma desculpa. No mesmo dia em que decidi não voltar à fábrica, quebrei o vidro de um carro no estacionamento. Enquanto o alarme tocava, eu escolhi um casaco — de todos os objetos sem valor de dentro do veículo — e o peguei pra mim. Era meu. Tomei de algum executivo de baixo clero. De casaco nas mãos, eu vi que foi bom. Caminhei uma noite e uma manhã até chegar em casa. Senti que aquele fora meu primeiro dia na Terra. Eu havia feito algo contra eles. Finalmente. Por minha própria vontade.

7

— Aqui. A senhora precisa ler isso.

Só havia uma pessoa que Janayna chamava de senhora. A palavra soava anacrônica, transportava Janayna para um tempo no qual não vivera, numa cidade que nunca visitara. Era ali, naquele lugar perdido no tempo e no espaço que a mãe morava. Ali, “Senhora” soava certo.

— Preciso?

Janayna não respondeu, a mãe não insistiu. Abriu os envelopes, passou os olhos sobre as primeiras cartas. Não reconhecia a caligrafia. Era como se um velho com artrose estivesse desenhando o alfabeto pela primeira vez. De certo modo, era isso mesmo. A letra O era pesada, a letra E não tinha curvas. Nunca vira um S tão torto. Mas estava curiosa. Quem sabe alguma explicação viria naquelas maltratadas linhas. Ou ao menos um pedido de desculpas.

— De quem é?

Janayna tomou as folhas das mãos da mãe e devolveu só uma das últimas. Apontou enfática com o dedo.

— Aqui. Lê aqui.

— Não sei ler, minha filha.

Nunca me senti tão feliz ao descobrir que aqueles eram sons desenhados. Como canto de pássaros desenhados sobre as folhas das árvores. E livros são folhas de árvore, a professora me disse. Ler são milhares de irmãos crescendo suas raízes adentro de mim. Eles sentem, eu sinto. Eles sabem, eu também posso saber. Tudo é possível. Até nossa família.

8

— Por que seu pai enviaria essas coisas agora? Por que tanta carta?

— Você sabe que ele enrola para chegar aonde quer chegar. Fala, fala e a conversa não anda.

O homem de cabelo avermelhado voltou, tinha um rosto que combinava com as paredes de barro do casebre, trazia o ninho de pássaros entre as mãos.

— Já vai anoitecer, tá ficando frio. — Ele disse para a mãe com uma voz doce que não combinava nada com seu tamanho. — É melhor você entrar agora — disse, entregando o ninho para a mãe, que o guardou debaixo do braço.

— Que bom que a senhora achou alguém para assentar em algum lugar.

Vendo a mãe entrar com o marido, cercada de filhos e filhas, irmãos que tivera só em sonhos, Janayna tomou a última folha das cartas para ler em voz alta:

— “Eu encontrei uma casa nova entre esses novos irmãos que eu nunca soube que havia perdido. A senhora que cuida da biblioteca disse que eu poderia ficar aqui estudando tanto quanto precisasse. E eu precisei, filha. Estudei todos os livros que encontrei. Finalmente visitei cidades, sem ter de sair da minha. E quando terminei, a senhora da biblioteca me disse que eu deveria continuar estudando. Então, fiz o que nunca imaginei poder fazer. Tomei essa decisão por nós dois. Em teu nome e em meu nome. Espero que me perdoes se não era o que querias. Mas penso ser o melhor.”

9

— Janta conosco, filha?

— Amanhã. Hoje vou ver meu pai.

— Como?

Todo mundo muda. Na minha cabeça dura, descobri que escolher não mudar era deixar que os outros fizessem a escolha por mim. Decidi que não gostava daquilo em que estavam me transformando. Fui árvore do cerrado, fui raiz de floresta. Cresci no campo e no vale. Deixei viúva ainda vivo. Plantei minha semente no asfalto. Vendi meu trabalho de industriário, vendi minha força de operário. Matei meus irmãos e os encontrei eternizados, honrados — pelo menos na morte. Agora, cheio de meus irmãos, finalmente me faço universitário. O primeiro da nossa família, para que tu não precise ser. Eu tiro esse peso de ti, minha filha. Não precisa ser a escolha das nossas vidas todas. Agora é só mais uma escolha. Tua escolha. Escolhe por ti.

— As cartas, ele diz onde ele tá. Lá no finalzinho. Ele foi pra UniFenda, e eu vou voando me encontrar com ele. Eu sou filha do velho, mas eu também sou filha da senhora.

10

Janayna desfez a tipoia, abriu sua asa como se a abrisse todos os dias enquanto as penas coloridas tomavam conta de seu corpo. Com um salto, sem mais tocar o chão, voou para dentro da noite.

Making of

Este conto foi baseado na Coletânea UniFenda/Livro Ao Vivo da Plutão Livros e do Podcast Livro Ao Vivo. Foi baseado no universo criado durante a FLIPOP 2018, no qual uma Fenda se abre sobre a Ilha de Marajó dando poderes aos habitantes; quando a Fenda começa a se fechar, uma Universidade é criada para ajudar as pessoas a aprenderem sobre seus poderes.

As cartas do pai foram inspiradas em Biografia de uma árvore, do Carpinejar.

Este conto provavelmente viola algumas das premissas estipuladas no Podcast, mas é ainda assim uma boa história e merece ver a luz do dia.

Esquema inicial de Eu também sou filha da senhora.

A ideia principal era colocar a UniFenda como única oportunidade para que essa jovem (Janayna) pudesse estudar. Sendo pobre, com uma família que não também não teve oportunidade de estudos, a UniFenda aparece como saída, uma vez que permite acolhe esse grupo especial de pessoas “diferentes”. A velhinha que acredita que a Fenda é uma “racha do inferno” apareceu cedo na história. Era uma personagem óbvia.

Ao esquematizar as personagens, a diferença entre pai e mãe também surgiram como “óbvias”. Uma personagem deveria ser pragmática, a outra livre. Nenhum dos papéis deveria ser absoluto, portanto eles se invertem no meio da história. O pai é trabalhador e conhece o estudo. A mãe é viajante e aprende finalmente encontra um lugar para ter uma família.

A solução da trama demorou para chegar, mas pareceu mais interessante retirar o peso da escolha de Janayna. Ela ainda poderia escolher, mas não seria a “primeira da família”.

As metáforas também aparecem conforme a relação entre as personagens se torna mais clara. O pai não quer viajar, não quer sair do lugar, precisa trabalhar, constituir família, usar a força física. É uma árvore. A mãe precisa viajar, conhecer outros lugares, se relacionar com outras pessoas. É um pássaro.

Aqui surgem as mesmas alegorias em Janayna, mas invertidos. Em Janayna, a árvore floresce o tempo todo, e isso a incomoda. E seu lado pássaro não consegue voar, pois seu braço-asa é uma “deformidade” que ela insiste em esconder.

O final é uma reconciliação entre Janayna e sua família. Quando o pai finalmente consegue contar sua história, Janayna compreende que sua família tinha uma história própria, que agora não precisa prendê-la, mas libertá-la.

A narração é o que mais me deu trabalho. No começo pensei que as cartas seriam a linha narrativa principal.

Se eu colocasse como estudante o pai na UniFenda, ele poderia estar contando para a filha como é seu dia a dia, as pessoas interessantes/especiais/mutantes/fantásticas que conheceu no lugar. E eu teria uma narrativa sobre a UniFenda com um subtexto de reconciliação pai e filha.

Por alguns dias considerei que o pai poderia recolher folhas de árvores dentro da Universidade “antes que a Universidade crescesse demais” e destruísse as últimas árvores. Daí ele enviaria todas as folhas para a filha, que as usaria para construir uma segunda asa e chegaria voando na UniFenda ao fim do conto.

Mas a história da Janayna me pareceu muito mais interessante. Ela é a pessoa que nos últimos anos teve acesso a uma educação formal e isso a distancia de sua família. Ao mesmo tempo, essa oportunidade é um peso social para ela. As pessoa cobram que ela estudo porque “nós não tivemos oportunidade”.

Ainda, a mãe tem um percurso a cumprir e, pelos olhos do pai, talvez ficasse perdido esse espírito livre que também faz parte de Janayna.

No fim, escolhi colocar o pai apenas como carta, o que permitiria que ele fosse lacônico e exagerado nas metáforas. Ao mesmo tempo, eu precisava que o texto fosse limpo, porque Janayna estava determinada, e lento, porque a história pedia certa contemplação. Eu escolhi as frases “longas” (ou melhor, completas) para dar tempo ao tempo da leitura.

“A última carta do pai chegou enquanto Janayna terminava de arrumar a mala. A campainha tocou, o carteiro empurrou alguns envelopes pela fresta no portão destinada às correspondências.”

“A carta chegou” é muito curto e desinteressante. Colocar a última como primeira carta me pareceu dar o tom da jornada longa que Janayna teve até receber a última informação e decidir finalmente ir falar com a mãe. Janayna já se decidiu antes mesmo da carta chegar, é por isso que ela já está arrumando a mala. Isso deixa a personagem em movimento, mesmo que o começo seja parado… E as adjetivações, mesmo que óbvias, me parecem deixar um tempo para quem lê se acostumar com a imagem, enxergar a cena completa. Chegou a carta? Não. Os envelopes não são entregues, o carteiro os empurra. Onde?, por uma fresta. Que fresta?, do portão. Por que tem uma fresta no portão?, para as correspondências, ora…

Eu sei que as frases ficam mais curtas e incompletas conforme o texto avança, mas no início (e em algumas descrições) me pareceu importante que o texto fosse lido devagar, que as imagens fossem de certa forma apreciadas por quem lê.

As cartas do pai foram mais difíceis. Eu recorri à Biografia de uma árvore, do Carpinejar, como referência para encontrar metáforas e imagens que parecessem ambíguas quanto a se referirem a árvores, pássaros e a pessoas.

O peso da barriga dificultando o voo, deixar o ninho, alcançar com as raízes, partir primeiro, debaixo das asas da mãe.

Uma vez tudo isso misturado, foi fácil completar a história. Eu revisei pouco antes de enviar, enviei com alguns erros de tempo verbal (no presente em vez de estarem no passado) e pelo menos duas anotações sobre qual personagem estaria falando.

Espero que tenham gostado.

Bônus: Janayna, Clara e Anna são parte do universo de literatura fantástica brasileira contemporânea (hehe). Vocês conseguem saber em quem esses nomes foram inspirados?

Links

Disclaimer

Nenhum animal ou árvore foi ferido ou posto em perigo durante a criação desta narrativa.

Maurício Piccini

Written by

http://mauriciopiccini.com.br/

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