Fragata Crepúsculo

É meu filho na fragata à minha frente. Eu o conheço desde que nasceu. Ele me estudou a vida inteira. Sabemos tudo um do outro, exceto pelos últimos três meses. O que o fez mudar de lado? O que ele sabe que eu não sei?

— Capitão, torpedos prontos, alvo travado.

— Esperem pela minha ordem.

Eu o ensinei a caminhar, falar e

— Capitão, sinais de scanner por todos os lados. Estão buscando pontos fracos em nosso casco.

— Meu filho conhece esta nave tão bem quanto qualquer um aqui. Deve ser outra coisa.

— Capitão, a fragata está em movimento lateral.

— Mantenha posição. Eles vão pular em dobra através da gente para fugir da trava de mira. Eu ensinei isso a ele.

— Capitão, sugiro disparo imediato. Não podemos esperar eles tomarem uma posição favorável.

— Discordo, capitão, se eles pularem através de nós, os pegaremos quando estiverem de costas.

— Negativo. Ele sabe que nossa nave tem torpedos de popa. De todas as naves que ele poderia atacar, porque está atacando a nossa? Uma fragata não tem chances conta um encouraçado da União.

— Capitão, precisamos levar em consideração que alguma de suas suposições está errada. Se o conjunto das premissas não computa corretamente, uma delas deve estar errada.

Meu oficial de Estratégia é sempre contundente e limitado.

— Impossível, todas as naves em alerta, evitem iniciar combate. Eu conheço meu filho. Aliás, todos vocês conhecem meu filho tão bem quanto eu.

— Talvez Miguel esteja com raiva, Capitão. — É claro que Jonas o trataria pelo primeiro nome, mesmo em uma situação como esta. — Talvez não seja mais seu filho, sofreu algum tipo de radicalização. Lavagem cerebral. Talvez ele não tenha aprendido tudo que o senhor ensinou. Precisamos engajar combate.

— Aguardem minhas instruções. O Comandante Joaçaba — um excelente nome de guerra, eu queria tê-lo escolhido para mim — não tem motivos para atacar esta nave. Não sabemos suas intenções. Precisamos compreender o inimigo.

— Senhor, as naves deles estão parando de atacar. Desculpe, mais precisamente, as naves deles estão evitando reiniciar novo combate. Quando derrotam uma nave nossa, eles param de procurar outra naves para atacar. Estão aguardando instruções. Estão espelhando nossas instruções?

— Não. Ele deve ter dado a ordem antes. Está… se antecipando. — Aprendeu bem demais esse meu filho.

— Filhos humanos sempre se revelam contra os pais — o Oficial de Xenomedicina faz questão de me lembrar que “xeno”, para ele, somos nós. — Este se saiu exatamente igual ao senhor. O que deu errado? O que ele sabe que nós não sabemos, Capitão?

— Capitão, as naves estão na mira, mas não atiram. ele está nos levando a um impasse.

(…)

O maior medo de Capitão se concretizou. O filho se criara para a PAZ.