Fratelli d’Itália e a morte da narrativa

Em proposta digna de uma cidade invisível de Calvino, Umberto Eco sugeriu este modelo de entretenimento em 2001, prevendo Twitter, Facebook e Instagram.
“group of six people standing on desert” by Jed Villejo on Unsplash

O entretenimento era um tipo de extrapolação do “Big Brother” italiano, chamado Fratelli d’Itália, e consistia em:

1. Câmeras em todos os lugares; decidir entre ser quem assiste e quem atua; todos querem assistir, então todos querem atuar.

Umberto Eco propunha a ideia de tornar o Big Brother um modelo mais parecido com o do livro. As câmeras ficariam em todos os lugares da cidade, talvez do campo também. As pessoas não precisariam ficar presas em uma casa (no caso do modelo italiano, um apartamento), mas poderiam viver suas vidas normalmente. As câmeras gravariam tudo ou transmitiriam ao vivo para quem quisesse assistir.

Imediatamente, pensamos no modelo de reality show que cresceu no início do século XXI até agora. Inicialmente, as pessoas ficavam presas em um apartamento, ou em uma ilha, onde precisavam cumprir tarefas e eram eliminadas por seus pares através de votação. O modelo obviamente é caro demais. Foi substituído em grande parte por modelos de programas de TV em que uma equipe de filmagens acompanha a vida “normal” de pessoas “normais”. Vendedores de lojas de penhores, cuidadores de cachorros, confeiteiros, todos têm espaço.

Sabemos que a vida não é tão interessante assim, e grande parte das situações televisionadas são fictícias. Ou, se não for a palavra mais correta, pelo menos roteirizadas.

O fato de planejadas não retira automaticamente a autenticidade das ações. Imagine aquela fotografia de festa de aniversário na qual todos estão sorrindo. Alguém pegou a máquina fotográfica (ok, o celular), pediu que todos se juntassem e gritou “sorriam!” Pronto. A foto é de mentira, mas a alegria captada era de verdade. Se tirassem uma foto da festa, as pessoas pareceriam estar se divertindo?

Mas tangiverso (que é diferente de tergiverso, porque não é “virar de costas” mas apenas “tangenciar” a linha de pensamento). Umberto Eco chega a uma conclusão interessante em 2001, nosso ponto número dois. Umberto Eco sugere que todas as pessoas seriam, então, atores dos programas televisionados, uma vez que as câmeras estão onipresentes nas cidades. Logo:

2. Todos passam a levar "pequenas telas de TV nas mãos" para assistir enquanto atuam. Ser visto é um valor.

O celular não é apenas uma evolução prática do ponto de vista tecnológico, é necessária do ponto de vista da evolução do desse Big Brother ou, pelo menos, uma evolução óbvia do nosso egocentrismo. Nós precisamos do celular nas mãos, porque precisamos ver ao mesmo tempo em que atuamos. Não podemos ficar presos à frente da TV, porque não seríamos vistos. O celular nos dá mobilidade para assistir aos outros e a nós mesmos.

Assim, entre assistir e atuar em um programa, o resultado seria:

3. 60 milhões (de italianos) que agem "espasmodicamente", uma vez que não conseguem dar atenção suficiente para o aqui e o agora ao mesmo tempo em que prestam atenção nas TVzinhas.

Chegamos ali e não chegamos. Nós vemos todos os dias pessoas que param sem motivos e passam a esfregar o polegar sobre a tela do smartphone. Estão à caminho do supermercado, pegam o carrinho de compras e mandrake! (essa foi de velho) param para olhar a vida dos outros por alguns instantes.

Eu sei que há o argumento de que do outro lado da tela está algum ente querido com quem se pode conversar mesmo sem a presença física. Mas isso seria o uso dos aplicativos de mensagem. O Instagram tem outra função completamente diferente.

O Instagram é um desses Big Brothers onipresentes em que seus atores são também seus telespectadores. Com suas fotos e vídeos curtos demais para qualquer coisa relevante, interrompe e não interrompe o suficiente os fluxo do dia-a-dia, apenas o suficiente para atrasar a próxima pessoa que queira pegar o carrinho de supermercado.

Eu enxergo como um tipo de morte da narrativa: essa fragmentação da história, da sequência, da causalidade. Narrativa no sentido de modo épico, epopeia, registro linear de longa duração em que sequências lógicas e encadeadas de eventos sucedem-se para construir um significado.

Não há mais linearidade. As informações pelo celular chegam fora de ordem. Fazem referência a algo que já passou ou que ainda não ocorreu como se passado fossem. O imediato e o atual já está quase esquecido.

Não há mais lógica e encadeamento. São tantas informações ao simultâneas desconexas que o receptor as enxerga como eventos isolados, quase nunca, se alguma vez, consegue conectar a raiva de Fulano com o aumento da gasolina com a derrota do time de futebol com o aniversário que está para chegar com…

Não há mais longa duração. O tempo para observar o celular é curto. As informações, feitas para serem consumidas ainda mais brevemente. O espectador do celular precisa fazer suas coisas, seu dia-a-dia enquanto tenta acompanhar as vidas dos outros. Narrativa em duração não funciona. Não é possível chegar do ponto a ao b instantaneamente e chamar de narrativa. Não há progressão, não há movimento em direção a lugar algum (Talvez haja posição, Heisenberg?). Não é possível mover (ou comover) o espectador sem progressão.

Presumo, hoje, que não há significado em tudo isso.