Homem de Saia
Quando Axl Rose vestiu uma saia para a turnê Use Your Illusion, não tinha intenção de alterar os rumos da cultura ocidental. Ou talvez tivesse. Ele é Axl Rose, ele pode fazer qualquer coisa. Mas, à época, não houve grande comoção. Passaram-se mais de 20 anos até que um operário de Viamão terminasse o serviço.
Gilberto Coutinho voltava do trabalho em uma terça-feira quando dois assaltantes o renderam na parada de ônibus. Ele havia se atrasado, recolhendo material de uma máquina com defeito. Quando chegou à parada, seus colegas já haviam partido no coletivo 30 minutos antes. A chuva forte fez com que preferissem deixar Gilberto para trás a encharcarem seus uniformes. A manutenção saía de seus próprios bolsos.
Os dois assaltantes aproximaram-se sem pressa. Um abria os braços para intimidar. O outro fazia sinal com a mão socada dentro do bolso do casaco. Anunciaram o assalto e esperaram que Gilberto lhes entregasse celular, carteira e, com sorte, algum relógio bonito ou tênis de marca. Mas Gilberto não carregava nada consigo. O macação do uniforme trazia apenas dois bolsos, que Gilberto usava para guardar uma chave de fenda (a máquina da seção 3 emperrava toda manhã mais fria), moedas para a condução e as chaves de casa. Não usava celular desde que a última namorada o pegou trocando piadinhas picantes com um número desconhecido. Era alto, forte e, apesar de um dente a menos, seu celular vivia recebendo mensagens de números desconhecidos.
Os dois homens pediram que tirasse a roupa. Gilberto reagiu. Ninguém admitiu ter chamado a polícia. Ninguém quis testemunhar. Quando a polícia chegou, encontrou Gilberto tremendo de frio debaixo da cobertura da parada de ônibus. Os corpos dos dois assaltantes sangravam, manchando as meias do uniforme de Gilberto. A polícia chegou. Ofereceram um cobertor curto. Gilberto o enrolou na cintura. Algum engraçadinho tirou uma foto com o celular e postou em sua rede social de preferência. Dois dias depois, os núcleos de semiótica da USP montaram uma mesa-redonda para discutir o tema: Homem de Saia, paradigmas do machismo modernos.
Demorou menos de uma semana para um funkeiro cantar sobre homens de saia fazendo justiça. A polícia e os grandes jornais insistiram em alertar a população sobre o mal de buscar justiça com as próprias mãos. Afinal, se o cidadão fizesse justiça, para que precisariam da polícia e dos políticos que financiavam os grandes jornais?
Em seis meses, stencils do Chê de saia ocupavam os muros do Centro de Porto Alegre. Mas foi um jogador de futebol argentino, contratado pelo Grêmio quem primeiro arriscou fazer uma aparição pública usando um “kilt” de couro, conforme foi descrito pelo caderno Donna. O Fashion Week Iguatemi, em seu ambiente progressivo-conservador, apresentou apenas dois modelos de saia. Um europeu, de origem incerta, namorado de outra atriz menos famosa da Rede Globo, e Tulio Milmann. O cachê de Tulio não foi divulgado. Os filósofos da PUC-Rio se reuniram para discutir a homossexualidade do gaúcho e a saia como herança da bombacha.
Algum blogueiro goiano terceirizou piadas londrinas sobre escoceses. Aos posts copiados, foram adicionadas fotos de gatos, último meme do 9gag. Alguém do 4chan disse que já havia inventado a saia masculina quando ainternet ainda era à lenha e postou “prints” de suas mensagens em um fórum de 1999 com as mesmas fotos do gaúcho de saia. O Fantástico tentou provar que era tudo falso, mas Tadeu Schmidt se atrapalhou com os botões da TV. Nasce a lenda da saia amaldiçoada que faz com que mulheres sejam possuídas pelo espírito de deuses africanos. Hollywood produz o filme.
Em Milão, um estilista lança uma coleção apenas com saias masculinas e cuecas femininas. Jornais de diversos países publicam críticas sobre o novo homem moderno. Doutorandos da Sourbonne publicam teses após teses sobre como a liberdade do homem faz dele um ser mais macho. Tão macho que pode até usar saia. Videogames com temática samurai voltam à moda e substituem os de temática zumbi. Os samurai padronizados dos mangá produzidos fora do Japão passam a usar maquiagem. A Gloss cria uma edição especial trimestral para meninos. A primeira edição da Smudge se esgota em 7 horas.
A PUCRS finalmente aceita a primeira dissertação de Mestrado sobre saias masculinas. A mestranda defenderá sua pesquisa na Faculdade de Educação. Um aluno recém formado pela FAMECOS passa a dar a disciplina de Doutorado “Saias Masculinas e as Novas Tecnologias”. Na UFRGS, calouros são linchados por aparecerem na aula de calça social masculina.
Nesse mundo, Gilberto Coutinho repassa em voz alta as manchetes de um jornaleco ainda impresso em papel. As letras pequenas sempre o confundiram. Um dos seus colegas desce as escadas da fábrica correndo. Quebra meia dúzia de regras de segurança, empurrando alguns carrinhos de rebarbas que passavam entre as máquinas. Cutuca Gilberto e o cumprimenta antes de explicar:
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