Exercício #1 Clube Mafagafo

Lobo em pele de cordeiro

Prompt: "Eu não estava vestido apropriadamente para aquela situação. E aquilo custaria a minha vida."

Photo by Mehdi Genest on Unsplash

Eu não estava vestido apropriadamente para aquela situação. E aquilo custaria a minha vida. Se tu pensas que os lobos são culpados por tudo de mais podre que acontece aqui no rancho, é porque tu não conheces os maledettos cordeiros. Não de verdade.

Há um motivo para lobos evitarem al maximo serem vistos por cordeiros.

Si, eles são mui fofos. Si, eles são branquinhos e peludinhos. Mas não se enganem! Eles são uma força demoníaca da natureza.

Todo se empezó quando conheci a mais bela de todas as criações do campo: Agni de la Cizzala. Ah! Minha Agni era um frescor em meio a todo aquele cheiro de lã mofada e barro velho. No começo eu parava no meio do rebanho para sentir aquele aroma de oliveira com uma inesperada pitada de tomilho que eu não sabia de onde vinha… Maravilloso! Foi então que a vi: aqueles olhos inocentes, aqueles lábios finos, aquele carré.

Conversávamos perto da cerca. Eu temia que seus irmão nos descobrissem. Ela compreendia meu medo, através do meu disfarce de cordeiro, mesmo antes de eu lhe contar o que eu era. E quando contei, ela nem piscou; me aceitou exactamente como sou. “Alma de carneiro em pernas-de-pau”, ela dizia dos meus longos cambitos de guará.

Seu papá suspeitou e ameaçou deserdá-la. Disse que não esperava esse tipo de coisa dela. Ela não era a ovelha negra da família, a irmã mais nova que era.

Seus irmãos cordeiros, aquelas nuvens alvas de maldade, também pensavam que sua irmã escondia algo, mas o papá não lhes disse nada. Enfurecidos, quebraram cercas, fizeram arruaça de madrugada para chamar atenção do estancieiro. Cabecearam a casa das galinhas, que não conseguiam mais pôr ovos de tão aterrorizadas. Acreditem, um deles se cortou nos arames para simular um ataque de lobo. O estancieiro deixou jagunços de prontidão para me pegarem de madrugada. Mas Agni e eu resistimos. Sabíamos que o papá viria a ceder pelo carinho que tinha por sua filha.

Cansados do que acreditavam ser regalias da irmã, os cordeiros arrumaram para que ela fosse premiada na competição de ovinos. E ela ficou tão bela com laços vermelhos e flores na cabeça! Mas é maldição dos lobos sabermos como funciona a mente dos outros predadores.

Foi aí que disparei para dentro do rebanho. Esqueci completamente que não estava vestido com meu disfarce de ovelha. Meu pelo vermelho, meu focinho pontudo, meu cheiro de predador, foi um desespero só. Os cordeiros me atacaram imediatamente de todos os lados. Eu queria gemer de dor, mas só consegui gritar “Corra mi amor, corra! É el matadero, eles vão te levar para el matadero!”.

Mas buenas. Assim é a vida. C’est la vie, como dizem as vacas normandas. Eu estou morrendo. Não sei se foram as cabeçadas ou se algum jagunço conseguiu me acertar. Nada disso me importa. Agni fugiu, a balir um poema com o meu nome e que eu nunca ouvirei. Fugiu coberta de laços vermelhos e coroa de flores como a rainha que sempre foi. E eu morro como o Lobo Mau que queriam que eu fosse. Adiós.


As duas frases inicias foram propostas no Clube de Escrita Mafagafo pela Janayna Bianchi Pin em exercício com tamanho desejado de 500 palavras. O Clube de Escrita Mafagafo é aberto para apoiadores da Revista Mafagafo pelo Catarse segundo as regras de participação disponíveis em https://www.catarse.me/mafagafo.