Making of

Relacionamento na Era Pré-Tindr

Maurício Piccini
Oct 21 · 3 min read

O texto completo está disponível pela newsletter da Faísca Mafagafo. Deixo alguns comentários sobre a produção aqui. O texto aqui foi feito sobre a versão não editada. Então, a versão final teve pequenas alterações pela editora da Faísca, Fernanda Castro.

Discronia

Não é possível definir com precisão qual o tempo em que ocorre a narrativa. Na verdade, é quase como se ela ocorresse em vários tempos simultaneamente. Por exemplo, o uso do terminal se assemelha a antigas BBSs, a versão indicada é de 1984. Até aí, poderia ser um legacy software, programa de computador nunca devidamente atualizado. Ao “mesmo tempo”, a inteligência artificial que toma conta da história é avançada demais para a época. Sem contar que haveria necessidade de essa tecnologia ser bastante difundida, para se poder juntar pessoas através de softwares de relacionamento, quer dizer, é uma época em que muita gente (ou todo mundo) já tem acesso a computadores e internet no mínimo. E temos a referência ao “Protocolo Marília Mendonça” no final, que só pode ser contemporânea. Eu poderia facilmente trocar por “Protocolo Waldick Soriano”, mas acho que pouca gente pegaria a referência. Melhor brincar com o tempo do que tornar o texto mais “hermético”.

Por que “Dave”?

Porque, pra mim, o idiota que fica discutindo com a inteligência artificial é sempre “Dave” (desculpem-me os Daves). A referência é “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968), em que o astronauta Dave se vê obrigado a desativar o computador HAL-9000, que controla toda a espaçonave, e entra em uma discussão filosófica/existencial.

O núcleo da história é esse e foi fácil de encontrar. O computador tem informações sobre nós e sobre nossos familiares e amigos que nós não temos. A partir dessas informações básicas, o computador pode manipular nosso comportamento (e manipula o tempo todo). Nós é que não aceitamos que o computador talvez saiba mais sobre nossas vidas do que nós mesmos.

Mas eu queria uma trama leve, então as intenções da inteligência artificial “SIRA” (acabou ficando sem nome evidente nos diálogos) são boas e os resultados são benignos.

Como as boas histórias são sobre os componentes humanos, esta é uma história sobre o humano incapaz de aceitar o fim de um relacionamento que merecia mesmo acabar.

Narração

Em geral, não gosto de textos em primeira pessoa, como alternativa, essa opção de não podermos ouvir um lado do diálogo sempre me parece divertida.

Simetria

A narrativa tem certa simetria, da qual eu gosto e me dei conta só no fim da escrita, quando fiz uns últimos ajustes para garantir que a simetria tivesse algum significado:

Em resumo, a história é sobre a incapacidade de Dave de conhecer a si mesmo o suficiente para ter um relacionamento adulto.


Mandem o link para seus Daves ;)


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