O Analista e o Saci

Maurício Piccini
Feb 4 · 3 min read

O Saci entrou no consultório, disfarçado. Vestia uma prótese de plástico levemente mais clara que a perna.

“O que o traz aqui?”, perguntou o analista.

A atenção do Saci se prendeu a um par de jarros coloridos que enfeitavam a estante de livros do analista. “Bonitos”, disse.

“Sim, sim. As tampas representam Ouranus, o Céu, e os bojos são Gaia, a Terra. Quando estavam juntos, há muitos milênios, prendiam as forças primordiais da psiquê humana. Achei que tinham a ver com meu trabalho…”

“Eu acabei de voltar Ilhas Gregas. Férias, sabe”, disse o Saci com certo receio. “Eu nunca imaginei que iria tão longe. E eu conheci uma mulher.”

“Aham, aham… continue.” O analista cruzou as pernas ao se sentar em frente ao Saci e imediatamente se sentiu mal por isso. “Desculpe.”

“Tudo bem. Estou acostumado”, prosseguiu. “Então, essa mulher, ela não sai da minha cabeça.”

“Ah, sim. Bem, mulheres fazem isso. Ouvi dizer que as gregas são ‘furiosas’, se é que tu me entende. Haha.”

O Saci entendeu, mas preferiu não concordar. Fez sinal em direção a uma garrafa de água gelada ao lado da poltrona. O analista indicou com um gesto que se servisse. O Saci tomou um gole longo:

“Eu não estou acostumado a fazer isso”, disse ao analista.

“Tudo bem, vamos com calma. Me conte só o que te deixar confortável. No meu trabalho eu já ouvi de tudo, acredite.”

“Acredito, claro. Deve ser necessário um esforço enorme para não deixar que todas essas histórias dos teus pacientes te incomodem”. Tomou mais um gole. “Deve ter ouvido coisas que fariam a maioria ter pesadelos por semanas… Tratando seres especiais e tal.”

“Nenhum analista faria o que eu faço sem ter seus meios se proteger da tensão. Mas estou aqui para ouvi-lo. Tu estavas falando de uma mulher que conheceu nas Ilhas Gregas.” O analista aprumou-se na poltrona, deixando claro que era um espectador aberto às histórias de seu paciente.

“Esta mulher, ela é especialmente ‘benevolente’, eu diria. Então, é que ela me disse que o senhor também foi às Ilhas Gregas há alguns anos.”

“Ela disse?” O analista precisou se recompor. “Como saberia? Quero dizer, muitas pessoas vão às Ilhas Gregas todos os anos.”

“Sim, tenho certeza que sim”, disse o Saci enquanto removia a prótese. De dentro do plástico oco, um redemoinho surgiu para dançar pela sala. “Mas essa mulher na minha cabeça, bem, ela quer as irmãs de volta.”

http://mauriciopiccini.com.br/

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