O Jogo do Abraço

Exercício de construção em níveis

Photo by daniel james on Unsplash

Só hoje me deixaram entrar na escola das crianças. Tudo é quieto agora, depois que a bomba caiu. Tudo mudou e tudo parou no tempo.

Eu costumava voltar mais cedo do trabalho e assistir os últimos minutos de brincadeiras no pátio. As crianças, elas tinham essas brincadeiras infantis, pega-pega, caçador, pique-esconde, cabra-cega. E tinham esse jogo que eu gostava de assistir, o jogo do abraço. As crianças corriam para todos os lados. Quem fosse pega pelo colega ficava paralisada. Para salvar outra criança, uma delas corria em sua direção para dar um abraço. Depois de abraçadas, as duas podiam sair correndo de novo. E corriam por aquele pátio.

Enquanto espero meu relógio disparar o alarme geiger, como se estivesse tudo ótimo, penso naqueles fim de tarde que perdi sentado aqui ao lado, respondendo mecânico "sim, pode brincar mais um pouco", digitando robótico "envio assim que chegar em casa", trocando a tristeza por balinhas de alegrias sintéticas "só mais dois goles, preciso ficar atento mais cinco minutos". Deveria ter ido lá brincar com eles enquanto ainda os tinha para brincar.

Após a explosão da bomba, o tempo parou inundado de cinzas nada naturais. Vejo hoje as crianças deitadas, com as mãos sobre seus rostos. Camisetas sobre as cabeças. Dedos rijos em torno da garganta, presos em busca de ar naquele pátio. Desejo a eles tudo menos aquela dor imóvel.

Naquela cena, gostaria de voltar no tempo, correr até eles para descongelar cada um com um abraço. Um abraço quente, fraterno, um consolo, um carinho. Mesmo que não os revivessem, que os descongelassem do tempo para morrerem em paz.