Edição Especial de Feriado

O que é essa tal “Revista Trasgo”: resenha descritiva dos textos pré-linguísticos do terceiro planeta encontrados nas ruínas de Europa

por Humbert E. Cho

Maurício Piccini
Dec 3 · 11 min read
Representação criada por artista do terceiro e do sexto planetas enquanto ainda eram habitados por humanos (os planetas não e
Representação criada por artista do terceiro e do sexto planetas enquanto ainda eram habitados por humanos (os planetas não e
Representação criada por artista do terceiro e do sexto planetas enquanto ainda eram habitados por humanos (os planetas não estão em escala).

Olá, caras leitoras. Como todas não devem ter deixado de notar — pelo menos todas as que levantaram a cabeça para fora dos círculos de holo-esportes nesta semana — a notícia que ferve é a publicação dos textos pré-linguísticos do terceiro planeta do sistema-mãe da espécie humana. Textos estes reemergiram das ruínas do satélite natural Europa, que circunda o sexto planeta daquele sistema, e são conhecidos nos meios científicos pela alcunha de Revista Trasgo.


Notícia da semana

Os eventos que levaram aqueles textos a sobreviverem a tantos percalços até serem encontrados por nossos exploradores mereceriam artigo a parte — o qual publicarei nas próximas edições, prometo. Por enquanto, basta dizer que os textos encontravam-se em dispositivo protético de memória chamado de caneta-condutor ou polegar-condutor¹. Um humano não acessava tal dispositivo protético de forma direta, mas, antes, o inseria em outro cérebro externo denominado máquina calculadora diferencial² (às vezes chamado topo-do-colo ou sobremesa), e este dispositivo transformava os textos em feixes de raios catódicos que, por fim, entravam na rede cognitiva dos humanos através de buracos em seus olhos.

Cabe também dizer que nossos cientistas não souberam do que tratavam os textos — ou mesmo que eram textos — até após longa investigação. Foi a arqueóloga especialista na pré-história dos sistemas estelares T’pa Gheha³ que reconheceu o objeto e delineou os parâmetros para a decodificação. O dispositivo protético de memória em si era deveras rudimentar. Não admira que tenha sido dos únicos encontrados inteiros até hoje. E o mesmo veio a se desintegrar uma vez que os textos pré-linguísticos foram dali extraídos. Mas isso pouco importa, pois o que fascina nossos cientistas — e tenho certeza de que virá a fascinar vocês, caras leitoras — é o caráter fantástico codificado naquela pré-linguagem.

Representação criada por artista de um humano utilizando um dos muitos dispositivos protéticos de memória.
Representação criada por artista de um humano utilizando um dos muitos dispositivos protéticos de memória.
Representação criada por artista de um humano utilizando um dos muitos dispositivos protéticos de memória. Na imagem, um "globo". Objeto utilizado para lembrar aos humanos em qual planeta viviam.

Bem sabe-se, pela análise histórico-comparativa da pré-linguagem utilizada e pela imprecisa confecção artesanal da caneta-condutor, que os humanos produziram estes textos ainda enquanto habitavam o terceiro planeta. Contudo, estima-se que o dispositivo protético de memória tenha sido gravado na antevéspera do extermínio da colônia humana do satélite Europa, onde os textos — a conclusão não é de toda pacífica. Sabemos que o tempo de vida máximo do humano padrão podia chegar a 125 voltas em torno da sua estrela:

Nossos biólogos ainda não declararam consenso sobre os efeitos da migração entre planetas para os humanos. A maioria insiste que eles eram involuídos demais para sofrerem dos benefícios da dilatação de ciclos planetários, mesmo no próprio sistema estelar. Sendo a diferença entre os ciclos do terceiro e do sexto planetas (e aqui é importante mesmo notar que era apenas o quinto planeta), à época dos humanos, na razão de um para doze, e sabendo que a caneta-condutor era objeto de posse individual que os humanos carregavam consigo para auxiliar a memória, os textos da caneta-condutor podem ter sido produzidos em qualquer tempo entre o domínio da fissão nuclear no terceiro planeta e o fim da colônia em Europa, satélite do sexto planeta.

Os textos não possuem forma de datação explícita?, pergunta a leitora astuta. Sim, os textos até possuem datação expressa em seu conteúdo. Infelizmente, ela foi feita com base em referências religiosas as quais não somos capazes de recompor, uma vez que não conhecemos a mitologia dos humanos para aquele período. Sabemos que hoje os humanos justificam suas ações através da repetição de frases feitas de figuras históricas. Portanto, imagina-se que a base para a contagem do calendário humano estivesse situada em alguma dessas figuras ou em alguma de suas frases.

Representação criada por artista de como seria a caneta-condutor durante seu uso original.
Representação criada por artista de como seria a caneta-condutor durante seu uso original.
Representação criada por artista de como seria a caneta-condutor durante seu uso original.

Se as caras leitoras continuam a me acompanhar até aqui, esta talvez seja a questão que mais interessa, claro, tendo em vista que já estejamos entediadas pelos comentaristas de holo-esportes que cada vez mais competem com os jornalistas de verdade: afinal, do que os textos pré-linguísticos humanos tratam?

Pois não há resposta simples. Não que não saibamos o que está escrito nos textos, mas o significado social e a importância para os humanos está ainda em disputa. Eles parecem indicar certa espécie de delírio compartilhado sobre a realidade dos multiplanos. E, com certeza, atestam o início do esforço (e que esforço!) humano em direção à mente coletiva, a qual só veio a ser atingido, como hoje sabemos, largo tempo depois de terem deixado o sistema-mãe. Explico.

Representação criada por artista de como seria a vida no terceiro planeta antes de os humanos fugirem.

Os textos estão agrupados em dezessete volumes de algo que os humanos consideravam dada publicação “periódica”⁴. Uso aspas aqui, pois os humanos utilizavam esta descrição ao mesmo tempo em que publicavam os textos “quando tinham tempo”. “Periódico”, embora seja a tradução mais provável, obviamente não significava o mesmo para nós. Qual o período referido em “periódico”? Dada a variabilidade das capacidades mentais humanas, seria que apenas publicassem os textos quando suas capacidades mentais se alinhassem corretamente para conseguirem completar tal tarefa? Seria a tarefa de publicar textos assim tão extenuante para os humanos do terceiro planeta?

É mais fascinante ainda que os dezessete volumes não tenham sido escritos por apenas um humano, mas confeccionados em esforço coletivo de registro textual. Supõe-se que alguns escreviam e outros precisavam “revisar a escrita”.

Veja, leitora, não é interessante como a coletividade primitiva se formou a partir da total incapacidade humana para cumprir tarefa tão simples quanto registrar palavras?

Representação criada por artista de humanos "autores" e "revisores" durante o processo de produção dos textos da Revista Trasgo.

A leitora mais atenta deve estar imaginando que havia um humano responsável por escrever cada um dos dezessete volumes, mas não foi isso que eu quis dizer. Dos dezessete volumes, em geral quatro ou cinco humanos escreviam textos (quase)⁵ completamente desconexos entre si. Em seguida, outro grupo de humanos precisava ler e corrigir boa parte da escrita do primeiro grupo de humanos. E os textos consistiam de apenas parcas mil palavras! Imaginem o esforço que deveria ser para aquelas mentes simplórias reunir mil palavras em forma de texto pré-linguístico, semi-coerente e que precisava ser revisado por outro humano para saber se estava ao menos suficientemente quasi-coeso a ponto de ser compreendido por mais humanos com mentes também simplórias… Um deleite!

Eu sei que a leitora imagina que eu estou menosprezando os humanos. Mas, acredite, o feito era de tamanha relevância social para a capacidade cognitiva (se podemos usar a palavra) que os humanos não só publicavam os textos como entrevistavam (!) os autores.

“Como foi que você conseguiu dispor lado a lado mil palavras?”, perguntaria o entrevistador.

“Ah, eu estudei para isso desde bem pequenininho”, responderia o autor.

Uma graça!

Representação criada por artista da vegetação original do terceiro planeta.

Resposta curta: eram histórias.

E permita-me a leitora que eu descreva como “lindas” as pequeninas histórias contadas por esses humanos. Muitas contadas também por outros povos, muitas ainda por nós desconhecidas, mas todas, vejam só, com os humanos servindo como régua e esquadro de tudo. Eles se viam viajando entre planetas em pequenas caixas de lata ao mesmo tempo em que lutavam contra répteis gigantes com pequenas armas de lata e, no intervalo, brigavam entre si vestindo roupas de lata⁶.

Destaco aspectos estruturais, se me permitem e se não for estragar o apetite das leitoras enquanto preparam o jantar. Em geral, as contações humanas começavam com uma descrição vaga do ambiente em que a história se passaria, quase como se quisessem ocultar a verdadeira intenção do escritor em enunciar aquela história. Um charme. Um pouco como Abert Canis⁷, de O Centaurii, ou como o poeta Harouku-O’Murakaki⁸, de As Plêiades.

Dessa história oculta, revelavam-se aspectos da própria psiquê humana. Como sabemos, os humanos eram extremamente autocentrados, não era de se imaginar que essas histórias fossem diferentes.

Por fim, o mais belo das histórias dos humanos é a total incapacidade que eles tinham à época para verem como estavam inseridos no mesmo espaço mental coletivo⁹. Dos inúmeros motivos repetidos nos dezessete volumes, ressalto os motivos para lermos esta obra com olhar historicista e, por que não dizer, até mesmo estético-literário:

  • sete histórias sobre dragões, sendo a imagem de um utilizada para ilustrar um dos volumes e estando implícito em outra;
  • quatro histórias são de amor incompreendido, como as de Gui’aume de La Secouant Lance, de Coma Berenices;
  • onze histórias de luta por ideais externos contra falhas internas (leit-motif da humanidade, com repercussões e reverberações até os nossos dias);
  • total incapacidade de enxergar as diversas linhas temporais dos multiplanos como atuais.
Representação criada por artista de um conflito interno humano exteriorizando-se.

Sim, esta última é a cereja do nosso bolo literário da semana. Como vocês, caras leitoras, devem ter acompanhado durante a leitura, os humanos, contrário ao que se supunha, eram sim capazes de enxergar as diversas linhas do multiverso. Com mentes simplórias, linguagem pré-textual e através desse esforço coletivo muito além de habilidades conscientes, eles eram capazes de enxergar o multiverso, mas o enxergavam (talvez limitados pelo que lhes permitia a pré-linguagem) como ficção.

Sim! Ficção! Não é belo e fascinante além das fronteiras da fascinação? Talvez a leitora não concorde, mas nem o mais belo dos escores marcados em holo-esportes, individuais ou coletivos, através desta nossa galáxia se compara com a beleza de um ser paupérrimo intelectualmente enxergando o multiverso enquanto ficção.

Sashi e Cão 1? Ficção.

Jean-Phillipe e Pivione? Ficção.

Imaginem o Batalhão das Cerejas percebido como invenção humana criada por um desses escritores limitados. Sempre me me diverte que eles enxergavam essas personalidades do multiverso como se fossem humanas também¹⁰.

Representação criada por artista de como seria o Batalhão das Cerejas com aspectos humanizados, enquanto ficção na imaginação dos humanos.

As estruturas internas das histórias são em geral tão lineares como se espera que os humanos sejam. Baseiam-se na premissa de início, meio e fim e — como sugerem nossos cientistas — constroem-se por causalidade. Ou seja, cara leitora, os humanos acreditavam que os eventos ocorridos em certo ponto temporal mais próximo ao Big Bang sempre causam os eventos situados em pontos mais distantes do Big Bang. Não é bonitinho.

Mas como estamos desvendando a pequena mente humana, há pontos além das expectativas? Qual era mesmo aquele ditado dos narradores de holo-esportes? Fora da curva? Além da árvore?

Uma peça de texto intitulada “Amor: uma arqueologia” e assinada por tal Fábio Fernandes — supomos que fosse o arqueólogo encarregado — apresenta os eventos mais próximos das forças causais do que pela ordenação temporal ingênua e impaciente humana.

O relato foi guardado entre a lenda de Vasu e Ahalya e uma cópia das cartas sobre o caso da Estalagem dos Enforcados. Não sabemos porquê escolheram tal sequência de relatos, talvez fizesse sentido no alfabeto original, talvez os autores fossem amigos.

A história conta a visão dos multiplanos em que Franka e Nina procuram pelo pai, que as observa a partir de outra linha de causalidades.

Significaria isso que, em algum grau, os humanos eram também capazes de intuir a forma da rede da causalidade. Ao mesmo tempo, demonstra que sentiam necessidade de uma prótese — não muito diferente da prótese de memória onde a Revista Trasgo foi encontrada — para serem capazes de ver os multiplanos?

Representação criada por artista de como os humanos imaginavam Franka e Nina sendo observadas pelo pai.

Humanos não lineares?! Aposto que a leitora nunca pensou nisso ao ver algum vizinho passeando com seus humanos perfilados, transladando pé ante pé pelas calçadas…

Afora esta curiosidade, a temática das histórias parece-me trabalhar a fixação por celebridades e espetáculos de falsa-realidade. E é claro que, se estamos falando de celebridades, estamos falando dele mesmo: Jesse Danvers. Os humanos, possuindo o conceito de celebridade, foram capazes de observar — ou intuir, não consigo ter certeza mesmo desta frase — Jesse Danvers. Mas não só ele.

Muitas das histórias narram versões genéricas de celebridades. Falam sobre Reis, Rainhas, Príncipes e Princesas e mesmo dos Dragões. Figuras monárquicas secundárias, como príncipes e princesas, aparecem em pelo menos dez formas que remetem a indiscutível aura mágica ou maravilhosa. Os humanos pensavam que celebridades tinham algo a ver com um poder intrínseco. Haveria dada essência que faria do indivíduo um Príncipe, imagine só. Uma principez ou principalidade, por assim dizer. Que fofo.

Representação criada por artista de uma princesa e um príncipe humanos.

Outro tema quase tão importante era o clima. Humanos, enquanto espécie sujeita à natureza física, linearidade do tempo e incapazes de observar as passagens entre os multiplanos obviamente enxergavam o clima como mazela incontrolável. Tinham até mesmo uma palavra para isso: traduz-se algo como “destemperamento”. Como curiosidade, humanos pareciam compreender a atmosfera como algo ligado às próprias emoções. Os humanos parecem compreender a chuva como algo triste, enquanto a luz da estrela é alegre, quase esperançosa. (O que não é de se surpreender, uma vez que preferiram fugir para outros planetas sem nem dar banho no planeta que deixaram para trás.)


Com o risco de já ter me estendido demasiado por sobre um objeto tão pequeno e antigo da criação do terceiro planeta, vou ficando por aqui, caras leitoras. Deixarei de chateá-las com discussões sobre a pequenez da existência. Espero ter feito clara minha fascinação com essa peça de cultura tão representativa das peculiaridades do terceiro planeta e dessa raça ensimesmada que, incapaz de enxergar a realidade de suas visões, preferiu achar que tudo não passava de sonho.

Permitam-me ser piegas uma última vez e citar as tradições orais dos humanos, desta vez como os conhecemos hoje, através do que chamam O Profeta do livro d’O Fim dos Teocidas. A tradição dos humanos de escrever é:

Uma máquina do tempo, de uma certa maneira, pois aquele devaneio de tantos anos atrás poderá divertir ou emocionar uma nova alma até mesmo muito depois que a mente que o sonhou houver desaparecido sob a terra.

(Rev. Feliphe Cootias, O Profeta, tradição oral humana)

Boa sorte a todas.

Divirtam-se. Emocionem-se.

E que nossa vitória nos holo-esportes seja tão gloriosa quanto sangrenta!

Fim da Transmissão.

Notas

  1. A língua humana, caso a cara leitora não esteja familiarizada, era rudimentar a ponto que só conseguimos traduções literais. Todavia, a língua humana não era capaz de referenciar o objeto em si, apenas apontá-lo através de metáforas e descrições de forma ou função.
  2. Às vezes também chamado sobremesa ou topo-das-pernas.
  3. GHEHA, Tupa. Parâmetros para decodificação de bugigangas eletrobinárias humanas. REINO BABEL-7: Molières, 42.4582.1b. 745p.
  4. 3OM’N, Cecil A. Apontamentos sobre a contação de história pré-textual humana: a hipótese circensis. ALTAMIRA-11: T’Ruço, 41.3753.3c. 133p.
  5. Voltaremos a isto em seguida.
  6. A lata era símbolo de poder muito importante para os humanos.
  7. CANIS, Abert. O Centaurii. LUKA: 2ndflo, 12.3886.0a. 1001p.
  8. O’MURAKAKI, Harouku. As Plêiades. ILHOTA-3: Piper Maru, 12.4787.4d. 355p.
  9. Por favor, leitora, digo e repito: “à época”. Pois sei que muitas de nossas leitoras têm conhecidos humanos e até podem se afeiçoar de um ou outro da espécie. Ressalto que estamos falando de humanos de muitos e muitos milhares de ciclos atrás. Os humanos de hoje são claramente mais inteligência e capazes do que os antepassados que viviam no sistema-mãe da humanidade. Fim do Aviso Legal.
  10. Será que pensavam em Shoah a brandir um tacape enquanto equilibrava-se em duas pernas desengonçadas para um lado e para o outro?

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