O que aprendemos com a Copa do Mundo?

Não, não vou falar sobre a construção de estádios de futebol e outras obras superfaturadas. Vou falar sobre jogos e suas regras.

Este artigo foi publicado após a Copa do Mundo do Brasil, em 2014. Estou republicando agora para investigar o que aprenderemos sobre futebol neste ano.

1 O juiz é quem define as regras

As regras “arbitrárias” (no sentido de terem sido criadas através de escolha, de uma convenção) se resumem a:

  • impedimento ocorre quando o juiz apita e indica impedimento — não, nem o bandeirinha conta, só o árbitro principal;
  • falta ocorre quando o juiz apita — não interessa se foi grave, fraquinha, se nem encostou, ou se foi dentro da área;
  • gol é quando o juiz dá gol, ora.

E assim por diante.

Há, claro, outras regras não escritas. Por exemplo, supõe-se que o jogo segue regras de um mundo físico. Não que eu acredite que seja proibido aos jogadores suspenderem a lei da gravidade, mas acho que ninguém considera treinar para uma partida de futebol onde as propriedades da gravidade, do atrito e da inércia da energia sejam diferentes das que conhecemos em nosso dia-a-dia.

2 O juiz é parte do jogo

Quando jogamos xadrez com o computador, o adversário é alguém imaginário sentado em uma cadeira imaginária analisando meus lances ou é o computador?

Quando jogamos Pac-Man, o adversário é o computador ou os fantasminhas?Queremos vencer dos fantasminhas ou vencer o jogo?

Quando jogamos Splinter Cell, o adversário é uma organização malígna ou o jogo como um todo? Queremos vencer a organização maligna ou completar o jogo?

Os jogadores devem enxergar o juiz como parte da equação para vencer o jogo. É injusto que os jogadores treinem em altitudes diferentes para tentar burlar (ok, estressar, usar até o limite) leis naturais?

Por que não estressar também as definições das leis arbritadas pelo juiz?

3 Algumas regras são definidas durante o jogo

Quantas faltas ele permitirá que sejam feitas por um zagueiro truculento. Se o jogo está sendo violento, o juiz decide se irá relaxar as regras (afinal, todos estão sendo violentos) ou controlar a situação (expulsando alguém logo para que os outros entendam que ele não quer violência).

Há outras que foram criadas pelo costume. A barreira é uma dessas regras, por exemplo. Muitos jogadores a respeitam e muitos batedores de falta até mesmo as estudam para poder chutar melhor, mas ela não está em nenhuma regra escrita. A regra mais próxima para reger a barreira é a que limita a distância de 9,5 metros da bola até o jogador adversário.

4 Não há proibições, apenas regras do jogo

Isso mesmo. O jogo de futebol não possui proibições, mas regras que regulam a interação entre as partes do jogo.

  • É proibido colocar a mão na bola? Não.
  • É proibido empurrar, bater, chutar o adversário? Não.

Essas ações são desencorajadas, associando-as a uma punição.

Se um jogador de linha achar que vale mais bloquear um gol do que permanecer no jogo, ele pode bloqueá-lo. Não só pode como é prevista uma punição na regra.

Isso é diferente de uma proibição, porque não invalida a ação (a partida segue como se a bola fosse realmente desviada pela mão do jogador), nem valida o gol (como a bola foi desviada pela mão, ela não segue sua trajetória em direção ao gol).

O mesmo acontece caso um jogador reserva entre em campo e desvie a bola dentro da pequena área. É uma ação prevista. O jogador é considerado “objeto estranho” (como um pássado que fique no caminho da bola e do gol) e a bola não só é desviada como continua em jogo.

Claro, tudo isso pode mudar até a próxima Copa.