O Velho dos Sapatos Vermelhos

Nenhuma história é uma história só

— Eu gosto de igrejas, especialmente quando estão vazias. As pessoas só estragam essas coisas.

Tentei ignorar que o velho tinha cheiro de asfalto.

— Aqui, aquele vitral mostra Adam e Chavah deixando o paraíso. Foi logo após eu ter falado com eles. Um casal legal aqueles dois. Ali, naquela imagem, o Qayin finalmente me escuta e faz justiça com seu irmão. Um menino indeciso esse HaQayin. Nem ele nem Hevel sabiam o que era morte ou homicídio, só o souberam a partir de mim. Tive pena dele, mas ele nada sabia fazer sozinho. Não que os pais ajudassem em alguma coisa. Lá, Salvador, o Ungido, que prefere ser Rei sozinho do que dividir o Reino com uma corte de anjos.

Eu acho que a história não conta bem assim, eu disse. Achei que ele demorou uns instantes para me ouvir.

— História? É. Suponho que existam tantas versões dessa história quanto de qualquer outra.

— Se alguém olhar nós dois aqui caminhando nessa igreja, vai pensar que a estamos profanando. Mas não é isso — continuou o velho. — Não é bem isso, pelo menos.

O velho falava com certeza de alguma coisa que eu não conseguia saber o que era.

— Eu só queria que parassem de me negar. Qual o problema? Todas as histórias são sobre mim. Toda vez que alguma coisa aconteceu com a humanidade, fui eu. Eu estava lá. Não só estava lá, estava os empurrando, guiando os homens pelo caminho. Era a minha mão que seguravam. E, às vezes, eu até os deixava calçar meus sapatos… que delícia seria se pudessem mesmo calçar meus sapatos. Metaforicamente, pelo menos, calçavam meus sapatos e ABRACADABRA! cumpriam-se suas vontades.

O velho calçava sapatos vermelhos. Mas eu não os via com os olhos. Os meus sapatos eram pretos, de couro queimado de sol.

— Mas eu tergiverso. Tu não me chamaste aqui para ouvir os lamentos de um velho excêntrico. Por que me chamaste?

Estes sapatos são desconfortáveis. Faz muito calor. Nossa conversa não chega a lugar nenhum. Minha cabeça doi, há semanas, desde que minha esposa faleceu. Minha esposa faleceu. Minha esposa.

— Então?, apressou-me.

Minha esposa faleceu. E meu filho, ele acha que é culpa minha… Uma mão tocou meu ombro. O velho me olhava como um pai olha o filho que quebrou o brinquedo novo. Não estava bravo mas não dizia nada.

— Tu vais fazer o seguinte: no nascer do sol da próxima lua nova, pega roupas da tua esposa. Um par de cada peça está bom. Faz uma bênção baruch atah, adonai, elohaynu melech haolam, boray meoray haaysh.

Ao criador do fogo?, perguntei.

— Sim.

Quis anotar o que ele dizia, mas minhas mãos não obedeciam.

— Não se preocupe, eu não vou deixar que esqueças. Depois, pega as cinzas e faz um círculo no chão. Imagina uma chama amarelo-âmbar, da cor da seiva que pingou durante séculos em uma raiz até que não houvesse mais árvore ou raiz. E faz aquela blah blah blah ossê maassê vreshit.

Essa não deveria ser feita a cada vinte e oito anos?

— Tu podes esperar até 2037 se quiser ou pode fazer na próxima lua nova.

E depois?

— Depois nada. Acabou. Tu estás livre.

Como assim?, eu duvidei. Eu precisei de muito mais para trazer o velho até aqui.

— Sabe como é difícil fazer o Diabo caber em teus parcos sentidos humanos? Sem falar limitar tudo dentro dessas quatro pobres paredes do Reino. Como eu disse, isso é desnecessário. Nada acontece aqui sem mim. Agora, deixa-me ir. Se duvidas ainda, o que eu ganharia mentindo para ti? Não vais me negar como os outros, ou vais? É tudo muito simples. Fogo, cinza, círculo, bênção. Ah, e antes que eu esqueça, teu filho precisa estar assistindo a tudo.


Era manhã cedo, a lua estava atrasada, mas já viria acompanhar o sol. Filho, preciso falar contigo aqui fora, eu disse. Será que o velho queria dizer dois pares de sapatos? Pares de pares? Ou um par de sapato seria um par de uma peça de roupa? Minha esposa, ela tinha estes sapatos carmim de salto alto. Eu quase pedi que a enterrassem com eles. Só eu saberia. Mas me pareceu desperdício. Ela gostava tantos dos sapatos, e agora é tudo que eu tenho dela. Sapatos, vestidos, meias, calcinhas.

— Que é isso, pai?

Eu preciso que tu olhe pra mim, filho, eu disse. E joguei o isqueiro por cima das roupas.

— Essas coisas são da mãe. Tu não pode se livrar delas sem falar comigo.

Ela foi minha esposa mais tempo que foi tua mãe.

— Ela vai continuar sendo minha mãe. Tu sabe o que era a vida antes dela e vai ter uma vida depois. Eu não vou ter outra mãe. Eu nunca vou ser sem minha mãe. Eu não tenho direito a ela também?

O vestido pegou fogo. O sapato pegou fogo. As meias pegaram fogo. A calcinha em chamas. Baruch ata Adonai

— Tá louco, pai?

Eu não estou louco. Pelo menos, acho que não. Eu falei com o Diabo. Ele me garantiu que tudo ia melhorar.

— Foi isso que ele disse, pai? Foi isso que o Diabo disse?

Foi. Mais ou menos. Eu acho que foi, isso que interessa. Eu poderia falar mais alguma coisa, mas precisava impedir que meu filho se jogasse na fogueira junto com as coisas da mãe.

— Para, pai! Eu não vou deixar. Não vou deixar tu sumir com a mãe assim.

Ele não sabia o que era viver sem ela, é verdade que eu sei. A vida sem ela era nada, era silenciosa. Os dias passavam em círculos, sol a sol. Eu levantava, estudava, trabalhava, dormia. As flores floresciam, a chuva chovia, o vento ventava. As flores murchavam, a chuva lavava, o vento tomava tudo embora. E tudo começava de novo, sem cor, sem gosto, sem cheiro. Então, ela.

— Para, pai! Tá tudo queimando, pai!

E o fogo transformou tudo em cinzas que eu recolhi com uma pá.

Meu filho voltou correndo para dentro de casa. Eu quis acompanhá-lo, mas a casa agora tinha cheiro de asfalto.

A porta entreaberta dava para nosso corredor. Toda branca, por fora e por dentro. Parecia ter descascado mais rápido do que eu me lembro. Eu devia ter consertado, mas estive tão ocupado. Eu prometi pintar tudo para o ano novo. A gente ia receber visitas, muitas visitas.

— Olha o que tu fez, pai.

Eu parei no corredor e vi meu filho ali, parado. O velho disse que eu precisava ver também? Era tudo morno. Eu esperava que fosse mais quente, mas nada era como eu queria desde…

— Acaba com isso! Como a gente impede isso?

Meu último passo ficou na metade do caminho, só o suficiente para eu enxergar a sala.

Aquilo estava sobre a mesa de jantar. Suas mãos, agarradas nas cadeiras para se erguer. Eram as mãos que desenhavam pavimentos e aquedutos e bancos pequenos demais para sentar e que carregaram minha aliança por dezenove anos. Dezesseis em uma mão, três na outra. Minha esposa nunca me perdoou por isso. Aquilo vestia um longo cinzento. Branco não me parecera apropriado para um funeral, e preto… já era tudo triste para usar preto. Minha esposa não vestiria algo longo, mas não era escolha dela. Não mais. Aquilo gemia e o som vazou pelo peito. A ferida nunca fechada.

Sai, filho. Deixa o corpo descansar.

— Que corpo, pai? É a mãe. A gente tem que ajudar a mãe.

Aquilo parecia com ela. As pernas longas sob a saia, e os pés descalços. Eu devia tê-la deixado com os calçados.

— Ela tá sofrendo, pai.

Senti pena dele. Do meu filho, não do corpo. Por minha causa, ele sofreria tudo de novo. O peito sibilante, o olhar de dor na mãe, a pele que era ela, mas onde ela não mais habita. Precisamos deixar aquilo acabar logo.

— Não. A gente fez tudo certo. Tudo certo. Olha ela aqui de novo.

Deixa o corpo descansar, filho.

— Que corpo? É a mãe. É a minha mãe. Olha ela aqui, conosco de novo. Sofrendo de novo. Ela tem dor de novo por tua causa. Eu não vou deixar tu desistir dela de novo só porque tu tem medo de lutar. A gente vai lutar. Ela é forte, ela vai lutar. Ela vai ficar aqui com a gente.

Meu filho abraçava o corpo putrefato sobre a mesa. A pele dos dedos se descolou e ele colocou de volta. E pressionou a pele solta contra o próprio rosto, para que não caísse. E a lágrima que ele deixou escapar caiu sobre o colo da mãe e abriu um buraco nas cinzas que era quase um ventre.


Aqueles pés pequenos e descalços foram a última coisa a se desmanchar. Meu filho ficou lá o dia todo até o último dedo sumir-se em pó. Eu busquei a urna, ele não me ajudou a guardar as cinzas. Quando terminei, ele já havia feito as malas. Uma delas, cheia de fotografias que ele não me deixaria ver nunca mais.

Partiu ao anoitecer, e no escuro eu vi seus sapatos vermelhos.