R/V Chalana

Adaptado de: Adeus aos passarinhos, de Sérgio Faraco

Dez… Nove…

Como pode a Chalana frequentar o espaço? Deixar seu porto seco, sua terra firme, subir aos céus e se perder no escuro, a bordo uns pobres homens que pouco sabem além do que lhes ensinou o vento e suas mentes de pandorga.

Sete… Seis…

Menos mal que o espaço é sereno. Sereno esteve hoje, ontem, dá a impressão de ter estado sempre assim. As ondas de luz, os pequenos pacotes de ondas de luz são pequeninos e no espaço há uma funda transparência. Imagino que de longe, num planeta, ou lá das lonjuras siderais, não seria difícil de ver-se a Chalana. Mas da Chalana não se vê nenhuma avião no céu, nenhum navio no mar.

Quatro… Três…

Capitão Juruna podia até pensar que o mundo se acabou, mas, de um jeito ou de outro, o tempo vai passando, ele o sente. O tempo é um estranho zunir de dentro. Suspeita-se de que, sem o Capitão, não zuniria.

Um…

Livre do vento, Capitão Juruna põe-se atento ao tempo e seu zunido uníssono com os motores da R/V Chalana. Novos ares, nova estrada, novo rio a singrar.

Ignição.

Passa o tempo, isso é muito bom.

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